A filosofia pode consolar alguém?

A filosofia pode não mudar o mundo, mas pode mudar nossa maneira de enfrentá-lo. A partir de Boécio e de A Consolação da Filosofia, este ensaio reflete sobre a felicidade, a perda e o papel do pensamento diante das adversidades
Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva
Existe um velho chiste, meio maldoso, meio divertido, que diz que a filosofia é a ciência sem a qual o mundo continua tal e qual. A frase parece feita sob medida para aquele estudante que acabou de sair de uma aula de Filosofia e, ao atravessar a rua, percebe que o ônibus continua atrasado, o boleto continua vencendo, o salário continua curto e os políticos corruptos continuam no poder e aparecendo nos noticiários como se nada tivesse acontecido. Afinal, depois de dois mil e quinhentos anos de filosofia, alguém poderia perguntar: para que serviu tudo isso? Sócrates morreu, Platão escreveu um calhamaço, Aristóteles catalogou praticamente tudo o que conseguiu encontrar pela frente, Kant complicou o que já era complicado e, ainda assim, continuamos perdidos diante de uma segunda-feira.
Mas talvez a filosofia nunca tenha prometido consertar o mundo. Talvez sua pretensão seja um pouco mais modesta e, ao mesmo tempo, muito mais ambiciosa: consolar-nos quando o mundo não pode ser consertado. Ou pior, quando nós mesmos nos encontramos no fundo do poço, no mato sem cachorro ou, no caso de Boécio, literalmente num calabouço, à espera da morte. Parece incrível, mas foi nessa situação-limite que o filósofo romano se pôs a escrever, transformando a própria desgraça em matéria de reflexão e a filosofia em uma inesperada companheira de cela.
Mas antes de continuar, quero lhes apresentar esse filósofo que viveu entre 480 e 524 d.C. Anício Mânlio Torquato Severino Boécio, ou simplesmente Boécio para os íntimos, não estava vivendo uma crise existencial porque recebeu uma mensagem visualizada e não respondida. Também não estava deprimido porque alguém deixou de curtir sua postagem. Seu problema era consideravelmente maior. Ele havia sido um homem poderoso, intelectual respeitado, político de destaque no Império Romano do Oriente e conselheiro do rei ostrogodo Teodorico. De repente, sua vida virou de cabeça para baixo: acusado de traição, caiu em desgraça, foi preso e condenado à morte.
Imagine a situação: um dia você está no topo; no dia seguinte está encarcerado, esperando a execução. Não há transferência de setor, recurso administrativo, reclamação no RH ou nas redes sociais ou ainda a possibilidade de dizer: “vamos conversar melhor sobre isso”. O sujeito está literalmente esperando morrer. E, sem poder contar com o apoio da família, dos amigos e dos discípulos, como aconteceu com Sócrates no dia em que foi condenado a beber o veneno, Boécio consolou-se consigo mesmo e com suas próprias reflexões. E daí surgiu um livro alentador: A Consolação da Filosofia. Veja que o título já é curioso por si só. Não é “A Filosofia e os Grandes Problemas da Humanidade”, nem “Introdução à Metafísica”, ou algo mais profundo. Não, é simplesmente Consolação. Ou seja, Boécio está interessado em uma questão muito humana: o que pode nos sustentar quando tudo aquilo em que confiávamos desaparece? A pergunta parece simples, mas a resposta não é tanto assim, pois ela é, digamos, bastante filosófica (e, devo admitir: profunda).
Vejamos: Nos cinco livros que compõem a obra, Boécio começa seu texto deixando claro que está mergulhado na tristeza. Ele se apresenta como alguém abatido, injustiçado, privado de sua antiga posição e vítima da Fortuna. E então acontece algo extraordinário: aparece diante dele uma mulher de aparência majestosa, que não é outra coisa senão a Filosofia personificada. Como diz um apresentador de programa televisivo: não ria não! Tenha pena do estado desse filósofo e imagine a cena, pois é quase uma cena cinematográfica. No fundo de uma prisão, provavelmente no calabouço frio de um castelo, um senhor de quase 50 anos de idade, debilitado, sujo e sem nenhuma esperança, vê diante de si uma misteriosa aparição que lhe diz: “Precisamos conversar”.
E, para completar a estranheza da cena, o que Boécio menos precisava naquele momento era de alguém que lhe dissesse que tudo ficaria bem; precisava, isso sim, de alguém que tivesse coragem de lhe dizer que talvez ele estivesse enxergando sua própria desgraça do modo errado. Mas a Filosofia que se manifesta a Boécio não é exatamente um coach motivacional, daqueles que aparecem para dizer que “tudo vai dar certo”. Pelo contrário: ela começa praticamente desmontando a maneira como Boécio está enxergando sua própria vida. Por que isso? É porque aqui está uma das grandes diferenças entre consolo filosófico e aquele consolo que normalmente recebemos das pessoas. Afinal, quando alguém perde o emprego, termina um relacionamento ou enfrenta uma grande frustração, é comum ouvir: “Vai ficar tudo bem”, “pense positivo”, “você vai sair dessa mais forte” etc.
Não que isso seja necessariamente ruim. Não me entendam mal. Essas frases podem ter seu valor afetivo e, em certos momentos, até ajudar. Quem nunca precisou ouvir um “vai ficar tudo bem” quando estava no fundo do poço? O problema é que Boécio não precisava apenas de uma palavra amiga ou de uma frase bonita para colocar na cabeceira. Ele precisava entender por que estava sofrendo e, sobretudo, como lidar com aquilo que estava destruindo sua visão de mundo. A Filosofia, então, não chega oferecendo anestesia; chega oferecendo diagnóstico. Em vez de simplesmente passar a mão na cabeça de Boécio e dizer “calma, você vai sair dessa”, ela faz algo bem mais incômodo: começa a investigar o que, afinal, está por trás de sua tristeza, e se aquilo que ele pensava ter perdido era realmente aquilo que poderia fazê-lo feliz.
O diálogo entre Boécio e a Filosofia é longo. Mas vou resumir: ele está convencido de que a vida lhe foi injusta. Afinal, havia sido virtuoso, dedicado ao Estado e à filosofia. E começa a interrogar: Por que, então, terminou preso? Por que o justo sofre e o perverso prospera? Onde está a justiça de Deus diante das injustiças do mundo? Se Deus é bom e governa todas as coisas, por que permite que a Fortuna distribua bens e males de maneira tão desigual? O que é, afinal, a verdadeira felicidade: poder, riqueza, fama, prazer ou algo que a Fortuna não possa tirar? E, se Deus conhece de antemão tudo o que acontecerá, como pode o ser humano continuar sendo verdadeiramente livre? A esta altura alguém poderia dizer que tem as mesmas indagações. Sim, pois aqui aparece um problema que continua absurdamente atual: por que coisas ruins acontecem a pessoas que aparentemente não as merecem? Essa pergunta não é só sua, pois atravessa a história humana, está na religião, na literatura, na filosofia e, hoje em dia, aparece aqui e acolá nos comentários das redes sociais.
Boécio percebe que existe uma contradição: se a felicidade depende das coisas que possuímos: dinheiro, prestígio, poder, reconhecimento, cargos, saúde, reputação etc., então estamos permanentemente ameaçados pela perda. Basta a Fortuna mudar de humor e pronto: perdemos tudo. E a Fortuna, na obra, é uma personagem quase debochada. Ela funciona como aquela pessoa que entra na sua vida oferecendo tudo: dinheiro, poder, fama, amigos, posição social. Você pensa: “Finalmente! Agora minha vida está resolvida”. Mas... de repente, a qualquer momento, ela leva tudo embora, como o faz o atual Tigrinho.
É mais ou menos isso que Filosofia mostra a Boécio: você está sofrendo não apenas porque perdeu coisas, mas porque acreditava que essas coisas eram suas de maneira definitiva. E isso é uma provocação poderosa. Nós vivemos como se tivéssemos feito um contrato com a realidade. Temos um emprego e imaginamos que o emprego estará lá, temos dinheiro e imaginamos que teremos dinheiro amanhã, temos amigos e imaginamos que as relações permanecerão iguais. Sem dizer da saúde que gozamos e presumimos que o corpo vai ficar assim para sempre. Até que a Fortuna aparece em diversas formas, inclusive nas doenças. E ela não manda e-mail avisando. Vejam só: A Filosofia não devolve o que Boécio perdeu mas procura modificar o modo como Boécio compreende aquilo que aconteceu. Isso é importante porque existe uma diferença enorme entre eliminar um sofrimento e transformar nossa relação com ele.
Todos sabemos que a filosofia não pode necessariamente impedir uma tragédia, ressuscitar mortos, apagar o passado, impedir uma doença, devolver um emprego ou obrigar alguém a nos amar. Mas ela pode fazer algo diferente: pode perguntar o que exatamente estamos chamando de perda. Boécio, por exemplo, perdeu sua posição política, mas perdeu sua dignidade? Do mesmo modo podemos continuar refletindo: Perdeu suas riquezas, mas perdeu sua capacidade de pensar? Perdeu sua liberdade exterior, mas perdeu completamente sua liberdade interior? Perdeu o reconhecimento dos outros, mas isso significa que perdeu seu valor? E é isso que a Filosofia faz seu interlocutor compreender: aquilo que a Fortuna pode retirar de nós não constitui necessariamente aquilo que somos. E talvez essa seja uma das formas mais profundas de consolo que a filosofia pode oferecer.
Algum leitor, a esta altura, pode perguntar: “Mas isso não é conformismo?” Não meu amigo, não é não. A filosofia não é simplesmente um “manual para aceitar a derrota”, mas uma tentativa de reconstruir o centro da existência. No caso de Boécio ela não está dizendo que a injustiça deixa de ser injustiça porque precisamos ser fortes. Ele está questionando a ideia de que nossa felicidade possa depender inteiramente de circunstâncias externas. Essa diferença é fundamental, pois se minha felicidade depende exclusivamente do sucesso profissional, estou condenado à ansiedade. Entende? E tem mais exemplos, veja só: Se depende exclusivamente do dinheiro, jamais será suficiente; se depende exclusivamente da aprovação dos outros, torno-me escravo da opinião alheia; se depende exclusivamente da juventude, estou condenado a envelhecer com medo; se depende exclusivamente do poder, viverei aterrorizado diante da possibilidade de perdê-lo; e por aí vai...
E aqui chegamos ao problema da felicidade, pois a grande pergunta de Boécio passa a ser: onde está a verdadeira felicidade? Essa pergunta parece antiquada, não parece? Hoje muita gente pergunta “Como ter sucesso?”, “Como ganhar dinheiro?”, “Como ser produtivo?”, “Como construir uma carreira?”, “Como ter um relacionamento saudável?”, “Como ficar famoso?” E, para isso, gasta horas e horas assistindo vídeos de palestras motivacionais. Não é esse o caminho que a Filosofia apresenta a Boécio, mas ela pergunta algo muito mais inconveniente: “O que significa, afinal, ser feliz?” Já pensou nisso? A Filosofia não diz a Boécio: “Você não deveria estar triste.” Ela praticamente pergunta: “Por que você está triste?” E depois: “O que você perdeu?” “Isso que você perdeu era realmente o bem supremo?” “Você acreditava que essas coisas eram permanentes?” “Se não eram permanentes, por que colocou nelas sua felicidade?” Essas perguntas podem ser desconfortáveis. Mas o desconforto pode fazer parte da cura.
Talvez você esteja usando a palavra “felicidade” para coisas muito diferentes. Olhe só: Uma pessoa pode ter dinheiro e ser miserável, pode ter fama e sentir-se sozinha, pode ocupar um cargo importante e viver aterrorizada e pode receber milhares de curtidas e não gostar de si mesma. Isso é um fato. Por isso que Boécio percebe que os bens da Fortuna são instáveis. Portanto, se a felicidade depender deles, a felicidade será instável também. A Filosofia conduz então o pensamento de Boécio em direção a uma concepção mais profunda do bem e da felicidade: o verdadeiro bem não pode depender simplesmente daquilo que o acaso pode entregar ou retirar.
É nesse ponto que o leitor moderno talvez pense: “Calma, eu só queria saber como parar de sofrer”. Pois é. Você entrou pela porta da consolação e saiu dentro de uma discussão sobre metafísica. Essa é a Filosofia. O consolo que não faz carinho na cabeça. Talvez seja justamente por isso que A Consolação da Filosofia continue sendo uma obra tão interessante. Talvez esse seja o segredo: a filosofia consola sem necessariamente confortar. Conforto é receber um cobertor. Consolo, no sentido mais profundo de Boécio, é recuperar a capacidade de permanecer de pé. Às vezes precisamos de um cobertor ou de um aconchego amigo, e não há nada de errado nisso. Um abraço, uma conversa, um amigo, uma família, uma oração, um psicólogo, um médico — tudo isso pode ser fundamental em situações de sofrimento. Mas há dores que não desaparecem simplesmente porque alguém nos abraçou. Existem situações nas quais precisamos também compreender. E compreender não elimina a dor. Mas pode impedir que a dor seja a única coisa que conseguimos enxergar.
Afinal, a filosofia pode consolar? – alguém poderia perguntar, no final deste ensaio. Pode, mas provavelmente não da maneira que esperamos. Ela não é um comprimido contra a tristeza e nem tampouco uma técnica para transformar problemas em frases motivacionais. Não é um aplicativo que você abre quando a vida trava e escolhe a opção “restaurar configurações de fábrica”. A filosofia consola porque nos obriga a pensar sobre aquilo que nos aflige. E pensar, nesse sentido, não significa ficar distante dos sentimentos. Significa tentar descobrir o que existe por trás deles. É quase uma cirurgia intelectual. Dói. Mas talvez seja necessário.
A questão fundamental, então, não é simplesmente “a filosofia serve para consolar?”. A questão é: que tipo de consolo estamos procurando? Se queremos que alguém nos diga que tudo dará certo, talvez a filosofia não seja a melhor escolha. Mas se queremos compreender por que uma perda parece destruir nossa existência, por que dependemos tanto da aprovação dos outros, por que confundimos felicidade com sucesso, por que temos medo da instabilidade e por que colocamos nossa vida inteira nas mãos da Fortuna, então talvez a filosofia tenha muito a dizer. Boécio descobriu isso da maneira mais radical possível: quando praticamente tudo lhe foi tirado, restou-lhe ainda a possibilidade de pensar. E talvez seja justamente aí que esteja a grande ironia da história. O homem que perdeu quase tudo encontra consolo não porque recuperou suas coisas, mas porque começou a perceber que talvez nunca devesse ter colocado sua felicidade inteiramente nelas.
Por fim, a filosofia não abriu as portas da prisão do pobre Boécio, mas abriu outra porta: A porta da compreensão. E talvez seja por isso que aquela velha piada sobre a filosofia — “a ciência sem a qual o mundo continua tal e qual” — precise de uma pequena correção. Por um lado, depois de Sócrates, Platão, Aristóteles, Agostinho, Boécio, Descartes, Kant e tantos outros, o mundo continua tal e qual: cheio de problemas, não é assim? Olhe só: O ônibus continua atrasando, o boleto continua chegando, a política continua nos irritando, as pessoas continuam nos decepcionando e a Fortuna continua fazendo o que bem entende. Por outro lado, existe uma coisa que não continua tal e qual, pois muda sempre: nós. A maneira como nos posicionamos diante de tudo isso, pelo consolo que a Filosofia pode proporcionar, pode não mudar o mundo mas nos desafia a descobrir o que é felicidade antes de entregar nossa felicidade ao mundo. Boécio estava na prisão quando descobriu isso. Nós, felizmente, podemos começar a descobrir antes.



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