A importância da estética no salão das musas

Calma: este texto não é sobre a ida ao salão para fazer unhas. Dr. Paiva vai aos filósofos, principalmente o alemão Friedrich Schiller, para entender como beleza, a arte e até a brincadeira podem nos tornar pessoas mais humanas.
Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva
Para iniciar este ensaio é preciso perguntar: você sabe o que é estética? Boa pergunta, não é? Pois bem, a resposta não pode ser simplesmente: “aquela coisa que você faz no salão para sair com a unha impecável”, ou “o procedimento no rosto para rejuvenescer a aparência”. Mas, cá para nós, o uso popular da palavra consagrou essa compreensão e quase ninguém consegue pensar em estética a não ser para o embelezamento do corpo. É ou não é assim? Ora, no dia a dia, quando alguém fala em “estética”, logo se pensa em beleza, aparência e cuidados com o corpo.
Eu quero que você faça parte do pequeno grupo que vai além, pois estética significa muito mais do que isso.
O problema é que, quando abandonamos o senso comum e entramos no universo acadêmico, nas explicações científicas, a coisa não fica necessariamente mais fácil. Até porque não há uma definição consensual e parece que cada filósofo resolveu dar à estética uma definição própria. De modo que, às vezes, quanto mais lemos, mais parece que estamos tentando montar um móvel sem manual de instruções, ou caindo nas explicações do tipo: “A esquemática hiperbólica da questão está no eixo da parafuseta com a tacharreta”, que parecem explicar alguma coisa, mas, no fundo, só conseguem deixar o leitor ainda mais confuso sobre o que, afinal, estava sendo perguntado. Ou seja, ficamos, como diz a expressão portugesa “a ver navios” nesse mar de conceitos que variam ao sabor do tempo, das tendências e das perspectivas.
Vejamos, por exemplo, o filósofo italiano Benedetto Croce (Estética, 1973), para quem a estética seria uma “ciência da expressão humana”. Bonito, profundo e aparentemente simples, mas aí começa a confusão: se tudo aquilo que expressa sentimentos e pensamentos pode ser considerado estético, então quase tudo que fazemos pode entrar nessa categoria. Uma música? Estética. Uma pintura? Estética. Um poema? Estética, ora ora. Uma dança? Também. Um meme que resume perfeitamente o seu estado emocional numa segunda-feira de manhã? Bem... seguindo a lógica de Croce, talvez até isso. E o motivo é simples: o ser humano é, por natureza, um ser expressivo. Estamos o tempo todo dizendo, mostrando, criando, inventando e até fazendo cara feia para expressar alguma coisa.
Acontece que o conceito de Croce acaba sendo tão amplo quanto aquela famosa definição de cultura formulada pelo antropólogo Edward Tylor (em Primitive Culture), na qual a cultura aparece como o “todo complexo” da produção humana. Ou seja: se a cultura pode ser praticamente tudo aquilo que os seres humanos produzem, a estética, entendida como expressão humana, corre o risco de seguir o mesmo caminho. E aí voltamos ao nosso problema inicial: afinal, o que exatamente é estética?
Por um lado, quando fazemos um balanço conceitual, percebemos que a estética parece gostar de navegar entre extremos. De um lado, temos as grandes questões metafísicas, ou seja, aquelas que fazem a gente olhar para o teto e pensar: “Mas, afinal, o que é o belo?”. De outro, temos a experiência concreta: aquilo que sentimos quando ouvimos uma música, vemos uma pintura ou simplesmente ficamos diante de uma paisagem bonita. E não para por aí. A estética também navega entre a beleza natural e a beleza artística; entre a ideia de uma ciência do sensível, como defende Croce (idem), e a descrição mais direta daquilo que sentimos e apreciamos diante de uma obra de arte. E, para completar a viagem — sem abusar das antinomias, porque ninguém merece transformar uma conversa sobre arte numa prova de vestibular ou do ENEM —, ela ainda oscila entre pensar a arte em geral e analisar obras específicas.
O resultado é que a estética parece uma embarcação que nunca fica muito tempo no mesmo porto. Quando pensamos que finalmente encontramos uma definição segura, ela já está se afastando outra vez. E aqui a metáfora cai como uma luva: ao contrário das coloridas embarcações dos quadros impressionistas de Monet, navegando tranquilamente em harmonia com a paisagem, os “navios” conceituais da estética parecem escapar de nossas mãos e desaparecer no horizonte. Diante desse “caos”, é preciso, como afirma Suassuna (Iniciação à Estética, 2004, p. 37), “religar a Estética à Filosofia, fazendo dela uma Filosofia da Beleza”, pois, na época clássica, sua definição parecia mais simples: a Estética era entendida como Filosofia do Belo e, portanto, buscava captar no objeto essa propriedade.
Talvez seja melhor começar não pelo salão de beleza, nem pelos livros de filosofia, mas por uma pergunta mais simples: por que certas coisas nos afetam, nos emocionam, nos atraem ou até nos incomodam quando as percebemos? É aí que a conversa começa a ficar realmente interessante, porque foi desse ponto que partiu o filósofo alemão Friedrich Schiller (1759-1805). Para esse pensador, a estética não deveria ser entendida apenas como uma teoria sobre o belo ou como uma reflexão sobre as obras de arte, mas como uma dimensão fundamental da própria formação humana. Em outras palavras, a experiência estética não serve apenas para admirarmos um quadro, ouvirmos uma música ou contemplarmos uma paisagem bonita; ela pode transformar nossa maneira de sentir, pensar e agir.
É essa “pegada” que torna Schiller tão atual: a estética deixa de ser apenas uma questão de beleza e passa a ser uma questão de humanidade. Afinal, talvez a pergunta mais interessante não seja simplesmente “o que é o belo?”, mas “o que acontece conosco quando encontramos algo que consideramos belo?” E é nessa experiência, entre razão e sensibilidade, liberdade e forma, que Schiller começa a desenhar sua visão estética de mundo.
Em "A educação estética do homem" (2015), Schiller propõe algo bem mais interessante do que simplesmente ensinar alguém a reconhecer o que é bonito. A ideia é formar o intelecto e educar os sentimentos, ajudando o ser humano comum a perceber e apreciar a beleza das criações artísticas. E não se trata de transformar todo mundo em crítico de arte que fica diante de um quadro dizendo “hummm, interessantíssimo...” com cara de quem entendeu tudo. Para Schiller, essa capacidade já está, de certo modo, dentro de nós: faz parte de nossa própria natureza sensível e racional, isto é, de nossa condição humana. Existe em cada pessoa uma espécie de tendência estética, que pode ser despertada pelo contato com determinados objetos, obras e experiências sensíveis e, depois, cultivada pelo refinamento dos sentimentos. Assim, aos poucos, o indivíduo pode desenvolver aquilo que Schiller chama de uma “impulsão idealista do ânimo”. Em outras palavras, não nascemos sabendo apreciar o belo, mas também não começamos do zero: há uma espécie de botão estético dentro de nós e a educação só precisa descobrir onde fica e apertá-lo.
Para Schiller, a beleza está profundamente ligada ao impulso lúdico (Spieltrieb), isto é, à capacidade humana de brincar, criar, experimentar e agir livremente sem estar preso apenas à utilidade imediata das coisas. Mas “brincar”, aqui, não significa simplesmente jogar videogame, disputar uma partida de futebol ou passar a tarde fazendo qualquer coisa para matar o tempo. O sentido é bem mais amplo: é aquela disposição em que razão e sensibilidade conseguem trabalhar juntas, sem que uma precise mandar a outra calar a boca.
Imagine, por exemplo, uma criança desenhando. Ela não está preocupada em produzir uma obra-prima para o Louvre, nem em calcular exatamente a proporção entre a cabeça e o corpo do boneco. Ela experimenta cores, formas e movimentos simplesmente porque gosta de criar. Há liberdade, mas também há forma; há sentimento, mas também há organização. O mesmo pode acontecer quando alguém toca um instrumento, dança, escreve, pinta, cozinha ou até monta uma fotografia para postar. A pessoa não está apenas cumprindo uma função prática: está experimentando possibilidades, dando forma ao que sente e descobrindo novas maneiras de se expressar.É justamente isso que Schiller procura destacar. O impulso lúdico aparece quando o sensível e o racional entram em acordo. Não somos apenas seres que sentem, nem apenas máquinas que pensam e calculam.
Quando brincamos, criamos e apreciamos a beleza, podemos experimentar uma espécie de equilíbrio entre essas duas dimensões. Por isso, o jogo, para Schiller, não é uma atividade inútil ou uma simples pausa entre tarefas “sérias”. Ele pode ser uma das experiências mais humanas que existem.É nesse sentido que Schiller afirma: “A Beleza que realmente encontramos é digna do impulso lúdico que verdadeiramente se manifesta; mas com o ideal de Beleza que a Razão estabelece, pois assim apresenta-se também um ideal de impulso lúdico que o Homem deveria ter diante de si em todos os seus jogos” (Schiller, 2004, p. 79). Em outras palavras, existe uma diferença entre simplesmente se divertir e brincar de maneira verdadeiramente livre e criativa. Rolar infinitamente a tela do celular por duas horas pode até ser entretenimento, mas não necessariamente é o que Schiller chamaria de impulso lúdico. Já criar um vídeo, inventar uma dança, jogar futebol improvisando uma jogada, desenhar sem saber exatamente o que vai surgir ou tocar uma música explorando novas possibilidades pode envolver muito mais dessa liberdade criadora.Assim, o impulso lúdico não é simplesmente “fazer o que der na telha”. É uma liberdade que encontra forma, uma sensibilidade que conversa com a razão e uma razão que não precisa esmagar a sensibilidade. É como se Schiller dissesse: o ser humano fica mais plenamente humano quando consegue brincar com seriedade e levar a sério a própria capacidade de brincar. Afinal, talvez não seja por acaso que tantas das nossas melhores ideias aparecem justamente quando estamos experimentando, inventando ou fazendo algo sem a obrigação de produzir imediatamente alguma coisa “útil”.
Resumindo, para Schiller, o ser humano vive meio dividido entre dois “modos de funcionamento”: de um lado, a sensibilidade, os desejos, os sentimentos e aquela vontade de fazer o que dá na telha; de outro, a razão, as regras, os deveres e a voz interior dizendo “pense antes de fazer besteira”. O problema é quando um desses lados resolve virar chefe absoluto. Por isso, Schiller aposta no impulso lúdico, o Spieltrieb, que funciona como uma espécie de mediador entre razão e sensibilidade: é no jogo, na arte, na criação e na experiência estética que podemos sentir e pensar ao mesmo tempo, sem precisar escolher entre ser um robô racional ou uma criatura governada pelos impulsos. A beleza, nesse sentido, não serve apenas para deixar as coisas bonitas — ela ajuda a formar pessoas mais equilibradas, livres e capazes de imaginar outras possibilidades. E aqui está a grande jogada: a educação estética não pretende transformar todo mundo em artista ou crítico de arte, mas formar seres humanos completos, capazes de usar a razão sem perder a sensibilidade e de sentir sem abandonar a capacidade de pensar. Para Schiller, portanto, até a política passa por aí: antes de tentar consertar o mundo na base da força, das leis ou das revoluções, talvez seja melhor consertar um pouco o ser humano. Afinal, não adianta mudar o sistema inteiro se continuarmos sendo os mesmos, apenas com um novo sistema instalado.
Para concluir, quero arriscar a dizer que talvez seja aí que esteja o nosso verdadeiro “salão de beleza”: não aquele onde cuidamos das unhas, dos cabelos ou da aparência, mas o salão das Musas, onde a arte, a beleza, a imaginação e a brincadeira ajudam a cuidar daquilo que não aparece no espelho, isto é, o nosso modo de ser. Se a estética pode educar os sentimentos, aproximar razão e sensibilidade e despertar nossa capacidade de criar, então ela não é um luxo reservado a artistas, filósofos ou especialistas. É uma necessidade humana! No fim das contas, Schiller nos convida a perceber que também precisamos de beleza para nos tornarmos melhores. E talvez essa seja uma das tarefas mais bonitas da educação: não apenas ensinar alguém a conhecer o mundo, mas ajudá-lo a desenvolver sensibilidade suficiente para perceber que o mundo também pode ser transformado pela imaginação, pela liberdade e pela criação. Afinal, no grande salão das Musas, a beleza não está apenas no que vemos — está também naquilo que podemos nos tornar.
Por isso, meu jovem, cante à vontade no banheiro, desenhe, pinte, arrisque fazer uma escultura, escrever um poema (ou uma bela carta à amada e/ou ao amado), melhore as fotos, estude música, vá tocar um instrumento, visite museus, galerias, o teatro e tudo aquilo que possa despertar em você a vontade de criar, experimentar e sentir. Não faça isso apenas para produzir algo bonito ou impressionar alguém, mas para descobrir novas formas de olhar o mundo e, principalmente, de olhar para si mesmo. Afinal, talvez seja justamente nessas experiências aparentemente “inúteis” que você comece a se tornar mais livre, mais sensível e, quem sabe, um pouco mais humano.



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