Adorno e o lixo que consumimos saborosamente

Vivemos cercados por informação, entretenimento e distrações. Mas será que escolhemos livremente aquilo que consumimos? A partir das reflexões de Adorno e Horkheimer, este ensaio discute como a indústria cultural transforma cultura em mercadoria e faz com que aprendamos a apreciar, sem perceber, até mesmo o vazio
Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva
Bonjour!
Conta-se que um professor francês, muito danadinho, resolveu fazer uma experiência em sala de aula para testar as preferências dos jovens alunos e sua capacidade de escolha. Levou duas bandejas. Na primeira, colocou frutas frescas, pão caseiro, queijo e suco natural. Na segunda, espalhou salgadinhos bem coloridos, refrigerantes fluorescentes, biscoitos recheados e doces de todas as cores imagináveis. Em seguida, aproveitando o intervalo, perguntou aos famintos alunos qual bandeja escolheriam. A maioria correu para a segunda. Muito maroto, o professor sorriu e disse:
— Eu sabia! (No original: Je le savais ! – mas vou traduzir).
Embora frase desse tipo seja comum na boca de professores, um estudante no meio dessa turma, com a metade de um biscoito na boca, respondeu enquanto mastigava (já traduzido):
— Claro, professor! É muito melhor!
O professor, que já esperava essa reação, retrucou triunfante:
— Exatamente. E esse é o problema!
A história talvez nunca tenha acontecido. Mas poderia, pois, caro leitor, você já percebeu que raramente escolhemos aquilo que nos faz bem? No final das contas, acabamos escolhendo aquilo que foi preparado para parecer atraente e irresistível. Não apenas com a comida, mas com a roupa, com os aparelhos e também com a cultura: música, filmes, vídeos, notícias e tantas outras manifestações que consumimos diariamente. Por que isso?
Porque vivemos numa época em que a humanidade conseguiu colocar bibliotecas inteiras no bolso e, ao mesmo tempo, gastar horas assistindo alguém abrir caixas, fazer pegadinhas, reagir a vídeos ou ensinar maneiras criativas de descascar uma banana. Se isso parece exagero, talvez seja apenas porque já nos acostumamos ao absurdo. Foi justamente esse fenômeno que preocupou os filósofos alemães Theodor Adorno e Max Horkheimer e eles dedicaram a entender um fenômeno da cultura que chamaram de “indústria cultural”.
O que é a indústria cultural?
Quando Adorno e Horkheimer escreveram sobre a chamada "indústria cultural", muitos pensaram que eles estavam falando apenas de cinema, rádio ou televisão. Não estavam. A expressão designa algo muito mais profundo: a transformação da cultura em mercadoria. Durante muito tempo, acreditou-se que a cultura era um espaço de criação, reflexão e formação humana. Uma sinfonia, um romance ou uma obra de arte de um quadro em óleo sobre tela, por exemplo, possuíam valor porque ampliavam nossa experiência do mundo. Com a indústria cultural, porém, a lógica mudou. A pergunta deixou de ser: "Isso nos torna melhores?" E passou a ser: "Isso vende?"
Não quero dizer (e acho que esses dois filósofos também não) que o artista não possa ganhar dinheiro, não possa viver de sua arte. O que está em jogo é que a cultura passou a ser fabricada como um produto qualquer e toda a lógica passou a ser a do lucro e nada mais. O consumo de uma obra de arte passou a ter a mesma lógica do consumo de um hambúrguer, por mais absurdo que isso pareça. Sabe por quê? Porque o importante não é despertar reflexão, o prazer estético, mas garantir consumo. O objetivo não é formar indivíduos, mas produzir clientes satisfeitos.
A consequência é curiosa: tudo parece diferente, mas tudo se torna parecido. Mudam-se os rostos dos influenciadores, mudam-se as músicas do verão, mudam-se as séries do momento, mas a lógica permanece a mesma, que é: Consumir, consumir novamente, consumir sem parar. Isso porque a indústria cultural oferece a sensação permanente de novidade, enquanto entrega versões ligeiramente modificadas da mesma coisa. É a liberdade de escolher entre vinte sabores de um mesmo vazio, resultando numa deliciosa fabricação da alienação.
A palavra "alienação" costuma assustar. Parece algo complicado, reservado à conhecida “alienação do trabalho” ou a alguma maluquice de filósofos que escrevem frases longas e incompreensíveis. Mas a ideia é bem simples. Veja bem: Alienado é aquele que vive uma realidade sem conseguir compreendê-la criticamente. É alguém que participa de um jogo sem perceber as regras, ou pior: sem perceber que existe um jogo. A indústria cultural produz exatamente isso. Ela não obriga ninguém, não usa correntes, não usa prisões, mas ela seduz. E nisso ela é muito mais eficiente. O sujeito acredita estar escolhendo livremente aquilo que, na verdade, foi cuidadosamente planejado para ser desejado. Até mesmo a transgressão pode ser vendida em doze parcelas sem juros. Que o digam os produtores de camisetas com a icônica cara de Che Guevara (muito lucrativo!).
Por isso, Adorno desconfiava profundamente da cultura de massa. Não porque ele fosse um elitista, como muitos imaginam, mas porque percebia que o entretenimento frequentemente funciona como uma máquina de distração. Enquanto discutimos a última polêmica das redes sociais, esquecemos de perguntar por que estamos tão ocupados discutindo polêmicas. Enquanto brigamos por celebridades, não percebemos que estamos sendo transformados em espectadores passivos e permanentes de nossa própria vida. A alienação moderna não consiste em não saber, mas consiste em estar tão cheio de informações que já não conseguimos pensar. No caso de “celebridades” políticas do querido Brasil, esquerda e direita brigam pelo controle do microfone, enquanto a plateia esquece de perguntar quem escreveu o roteiro.
O lixo cultural e a reciclagem do pensamento
Aqui chegamos a uma questão delicada. Quando Adorno fala da degradação cultural, ele não está dizendo que toda cultura popular é lixo. Seria uma caricatura simplista, pois basta citar a riqueza de uma catira, de uma folia de reis etc. O problema está na produção sistemática de conteúdos destinados apenas ao consumo imediato. São produtos feitos para ser vendidos e logo esquecidos. Vídeos que duram segundos. Músicas que sobrevivem algumas semanas. Celebridades cuja fama expira antes mesmo de serem conhecidas. Escândalos que substituem escândalos. Tudo é rápido e descartável. Tudo é substituível. É uma cultura que se parece cada vez mais com embalagens, podendo ser bonitas por fora, mas vazias por dentro. Não vou me arriscar aqui a citar exemplos para não ser “cancelado” ou “apedrejado” virtualmente. Mas que há muito lixo na cultura atual, isso há. Abundantemente!
Talvez a ironia maior esteja no fato de que jamais tivemos acesso a tanta informação e, ao mesmo tempo, tão pouca disposição para aprofundar qualquer assunto. Temos resumos de livros que não lemos. Vídeos sobre filmes que não assistimos. Comentários sobre notícias que não verificamos. Opiniões sobre autores que nunca abrimos. Vivemos cercados por ecos. E chamamos isso de conhecimento, de cultura.
Por que Adorno defendia a cultura erudita? Muitos acusaram Adorno de desprezar a cultura popular. A crítica é parcialmente injusta. O que ele valorizava na chamada cultura erudita não era o prestígio social nem a aparência de sofisticação, mas sua capacidade de resistir à simplificação. Uma grande obra literária não se entrega facilmente; uma sinfonia exige atenção; um obra-prima da pintura exige muito talento e dedicação; Uma filosofia exige paciência e profunda reflexão; e um poema exige inspiração, conhecimento da língua, criatividade e releitura.
Até porque, essas experiências nos obrigam a sair da posição confortável de consumidores passivos. Elas nos transformam em participantes. Em vez de confirmar aquilo que já pensamos, desafiam nossas certezas. Em vez de nos agradar imediatamente, exigem esforço. Por isso possuem valor formativo, pois a verdadeira cultura não funciona como um espelho, mas funciona como um encontro. Ela nos coloca diante do diferente, do estranho, do difícil, e mesmo daquilo que ainda não compreendemos. E é justamente aí que crescemos.
O que isso significa para os jovens de hoje?
Talvez, meu jovem, você nunca tenha ouvido falar de Adorno ou de Horkheimer, mas é importante ler esses autores, não porque eles possuam todas as respostas, mas porque suas perguntas foram e continuam incômodas. Qual a natureza daquilo que consumimos? Quem escolhe aquilo que consumimos? Por que desejamos certas coisas? Quem lucra com nossas distrações? O que estamos deixando de pensar? São questões importantes porque vivemos numa época extraordinária e nunca houve tantas possibilidades de acesso ao conhecimento e às manifestações culturais.
Um estudante pode ouvir Bach pela manhã, assistir a uma aula de física à tarde e ler Platão à noite usando apenas um telefone celular. Mas o mesmo aparelho pode transformá-lo num consumidor permanente de distrações infinitas e alienantes. A tecnologia não pode decidir por nós, usando de atrativos, algoritmos e outros tantos mecanismos. A questão precisa continuar sendo humana. Talvez a verdadeira liberdade não esteja em consumir tudo o que aparece diante de nós, mas em escolher aquilo que merece nossa atenção. Num mundo que disputa cada segundo do nosso olhar, pensar tornou-se um ato de resistência. Ler tornou-se um ato de resistência. Estudar tornou-se um ato de resistência. E talvez seja justamente por isso que a velha filosofia de Adorno continua tão atual. Ela nos lembra que o maior triunfo da indústria cultural não é produzir lixo. É fazer com que aprendamos a apreciá-lo saborosamente. E a pedir mais uma porção.
— Entendeu? — perguntaria o professor ao final da aula.
— Acho que sim. Vou comer uma fruta! Mas, posso pegar outra bolacha?
Com isso, o professor também aprenderia uma grande lição: entender o problema é um grande passo; resistir aos doces e salgadinhos é outra história.



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