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Aristóteles e o amigo da onça

Foto do escritor: WILSON ALVES DE PAIVA
WILSON ALVES DE PAIVA
22 de set.
5 min de leitura


Enquanto há vantagem, há mensagem, emoji e “mano, saudade”. Quando o benefício acaba… silêncio absoluto. Sumiu mais rápido que notificação ignorada.


Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva


Vamos começar pelo causo da onça. Dizem que a expressão “amigo da onça” tem origem em uma anedota e nos quadrinhos do cartunista pernambucano Péricles de Andrade Maranhão (1924-1961) que nos anos 1940 e 1950, fez grande sucesso ao publicar na revista “O Cruzeiro” as histórias do "Amigo da Onça" — que eram fantásticas! Quanto a isso, muitos já levantaram a dúvida: a expressão veio dos quadrinhos ou foram os desenhos inspirados na expressão popular e na anedota?

Ora, a discussão aqui é meio parecida àquela de quem veio primeiro: o ovo ou a galinha? Não vamos entrar nessa. Em vez disso, vamos ao que nos interessa, que é discutir os níveis de amizade a partir de Aristóteles. Mas vamos começar pelo velho “causo” dos dois caçadores, da anedota. Ele diz o seguinte:


Dois caçadores estão acampados. A certa altura um deles comenta:

— O que você faria se estivesse numa mata e uma onça surgisse em sua frente?

— Bom, dava um tiro na cabeça dela.

— E se você não tivesse nada de arma de fogo?

— Oia, aí eu matava ela com um facão.

— E se não tivesse o facão?

— Pegava um pedaço de pau, uai!

— E se não tivesse um pedaço de pau?

— Aí eu subia na árvore mais próxima!

— E se não tivesse nada de árvore?

— Saía correndo.

— E se você ficasse paralisado pelo medo?Então, o outro, já muito irritado com tudo aquilo, retruca:

— Mas, afinal, você é amigo meu ou amigo da onça?


Ao ler essa piada antiga, mesmo um tanto quanto sem graça nos dias de hoje, você certamente lembrou de algum “amigo” seu que parece um pouco essa caricatura, não foi? Aquele que, em vez de ajudar quando a coisa aperta, fica fazendo perguntas inúteis, analisando o problema de longe ou, pior, dando conselhos que só servem para lhe colocar em situação ainda mais difícil. É o sujeito que nunca aparece para segurar a barra, mas surge pontualmente para apontar o erro, rir do tombo ou dizer que “já sabia que isso ia dar errado”, “eu te avisei...” e por aí vai. No fundo, a graça da piada está aí: amizade não se mede pelo número de comentários ou pela inteligência das respostas, mas pelo lado que a pessoa escolhe quando o perigo aparece. E é exatamente nesse momento — quando a onça sai do mato — que se descobre quem está do seu lado e quem, disfarçado de parceiro, torce silenciosamente para a onça e deseja que você vire estatística.


Pois bem, por mais que alguns digam que amizade é tudo igual, não é. O grande filósofo Aristóteles, que pensou quase em tudo, não deixou escapar esse tema e desenvolveu em suas duas obras Éticas uma ampla reflexão sobre a amizade. Para ele, há muitos tipos de amizade, mas ele distinguiu três: a amizade por utilidade, por prazer e por virtude. E entender essa diferença muda completamente a forma como a gente olha para quem podemos (ou não podemos) chamar de amigo. Por isso, vamos conversar sobre cada uma delas.


Comecemos com a amizade por utilidade, que, como o nome, já diz tudo sem pudor, nasce do interesse. Você gosta da pessoa não exatamente por quem ela é, mas pelo que ela resolve. Pode ser uma promoção no trabalho, uma parceria estratégica, um favor imediato ou aquele acesso mágico ao streaming que você paga sozinho. É o tipo de amizade que funciona como aplicativo: enquanto serve, fica instalado; parou de servir, desinstala sem aviso. Cruel? Talvez. Real? Com certeza.


Esse tipo de amizade é muito comum — embora quase ninguém goste de admitir que já esteve dos dois lados. Quem nunca teve aquele “amigo” que só aparece quando precisa de carona, indicação, resumo da matéria, senha do Wi-Fi ou ajuda de última hora? Enquanto há vantagem, há mensagem, emoji e “mano, saudade”. Quando o benefício acaba… silêncio absoluto. Sumiu mais rápido que notificação ignorada.

Aristóteles, provavelmente, não ficaria tão escandalizado com isso. Ele diria certamente que não é uma amizade virtuosa, pois não é fundada no caráter, mas não é moralmente tão errada e, mesmo que instrumental, faz parte da vida social. Ou seja, não tem tanto problema, desde que você a aceite e saiba onde está pisando. Não é vilania, é funcionamento social. Você me ajuda aqui, eu te ajudo ali. Troca justa, sem drama. O erro começa quando você acha que está construindo uma amizade profunda, e confia, ignorando que na verdade só entrou numa parceria logística. E parceria logística, como todo contrato informal, vence rápido. Entendeu?

Ora, esperar lealdade profunda, cuidado constante ou presença emocional de uma amizade baseada só em utilidade é como esperar afeto de um contrato. Aristóteles não condena esse tipo de amizade, inclusive ele nos lembra logo no início da Ética a Nicômaco que toda ação tem como objetivo atingir algum bem. Ele só nos lembra: não se iluda!


O segundo tipo é a amizade por prazer. Aqui tudo parece mais bonito. É a amizade da risada, da conversa longa, do gosto em comum, das saídas para o bar e o jogo de futebol. É com quem você sai para se divertir, passa o tempo sem perceber e se alegra nas farras. Aristóteles observa que esse tipo de amizade é muito comum entre os jovens — e faz todo sentido. A juventude já é, por si só, um período intenso, cheio de sensações. Estar vivo nessa fase é quase um prazer constante.

Essas amizades nascem rápido. Às vezes parecem eternas. Mas elas dependem do prazer que proporcionam. Se os gostos mudam, se a fase muda, se a convivência deixa de ser leve, a amizade pode acabar. Não porque alguém errou, mas porque o que sustentava a relação já não está mais ali. Exemplo disso? Se o caboclo muda sua preferência política, sua fé ou passa a torcer para outro time, é jogado às ostras — exilado com sal e casca, à moda do ostracismo ateniense.


Lembrou de casos parecidos? Ora, isso aparece nos amigos do rolê, do jogo on-line, da escola, da internet. Pessoas que combinam muito em um momento da vida e depois simplesmente seguem caminhos diferentes. Não é que essas amizades sejam falsas, talvez sejam mesmo verdadeiras, mas são efêmeras, ou seja, ficam vivas e fortes enquanto duram. O erro é exigir que durem para sempre, pois todo mundo muda (e tem o direito de mudar) e os humores passam. Quando acaba o assunto, a trend ou a vibe, a amizade pode simplesmente evaporar. Não por traição, mas por desalinhamento existencial. Ou seja, não se trata de uma falsa amizade, mas é uma amizade de momento. Vive-se do agora. E o agora é instável.


Já o terceiro tipo é a amizade por virtude. Essa é rara e, por isso, quase ninguém fala dela de imediato. Nesse tipo de amizade, a pessoa não se envolve com você pelo que você oferece, nem só porque é divertido. Ela se aproxima por uma afinidade maior e porque te reconhece como alguém bom — e quer que você seja ainda melhor. Inclusive, a pessoa é capaz de te chamar a atenção quando você está errado. Mas também não some quando você está encrencado. Pelo contrário, procura te ajudar no que for possível. E é claro que para se conquistar esse tipo de amizade, isso leva tempo, precisa de convivência e maturidade moral. Para Aristóteles, esta é a forma mais elevada de amizade.


O filósofo de Estagira não está dizendo que só a terceira amizade presta. Ele está dizendo algo mais honesto: cada amizade vale pelo que promete. O erro não é ter amigos por utilidade ou prazer. O erro é exigir deles o que eles não podem dar. Entendeu? E se, no meio de tudo isso, você encontrar alguém que permaneça quando não há vantagem nem diversão garantida, parabéns! Procure preservar e valorizar esse amigo, pois isso não é só amizade — é raridade. Mas cuidado: amigo da onça é o que não falta!



 
 
 

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