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Epicteto e a arte do bem viver

Foto do escritor: WILSON ALVES DE PAIVA
WILSON ALVES DE PAIVA
há 7 dias
8 min de leitura

Entre horóscopos, gurus e fórmulas para a felicidade, este ensaio traz um grande nome do estoicismo romano: Epicteto, o qual propõe outro caminho: aprender a governar a si mesmo



Os Pórticos da Vida

Versão musical no final do texto




Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva


Quem nunca consultou o horóscopo, que atire a primeira pedra!


Ora, ora... mas por que fazemos isso? Será que, no fundo, somos todos um pouco supersticiosos? Ou simplesmente queremos uma ajudinha do universo para atravessar a segunda-feira? Afinal, quem não deseja uma boa vida? Acho que ninguém acorda pela manhã pensando: “Hoje seria um ótimo dia para dar tudo errado”. O problema é que, quando falamos em vida boa, felicidade, virtude ou até mesmo numa possível arte de viver bem, quase sempre puxamos a conversa para o mesmo lado: dinheiro no bolso, fama na medida certa e saúde de sobra. Se vier uma casa confortável, uma conta bancária generosa e, de quebra, alguns milhares de seguidores, melhor ainda. E se o horóscopo disser que tudo isso está a caminho, então já podemos considerar a felicidade praticamente confirmada.


Além do horóscopo, hoje em dia quando se tem dúvida, o que se faz, geralmente? De imediato, busca-se a resposta em dois níveis: o primeiro, de forma rasa, recorrendo às fórmulas fáceis dos coaches e influencers de plantão, que prometem felicidade em cinco passos, prosperidade em dez e, se possível, tudo antes do fim do ano; o segundo, menos superficial, tenta-se encontrar nos escritos orientais antigos, como o Tao Te Ching, conselhos sobre natureza, relacionamento, desejo, sabedoria, sofrimento, desapego e modo de viver, instrumentalizando tudo e fazendo muitos lucrarem com isso. Ou seja, até as tradições orientais são transformadas em produtos exóticos de sabedoria instantânea: soa misterioso e mágico atribuir a um antigo sábio chinês ou indiano a descoberta de algum segredo do universo capaz de nos conduzir à felicidade.


Enquanto isso, do lado de cá, no mundo ocidental, habemus philosophos, os quais refletiram muito sobre tudo isso, mas tentaram dar uma resposta diferente dos astrólogos, coaches e gurus: talvez a felicidade não esteja nas estrelas, nos algoritmos nem na conta bancária, mas na maneira como aprendemos a viver. Estou falando dos pensadores estoicos.


O que é o estoicismo? Perdoem-me os especialistas neste tema por cair aqui em simplificações e generalizações, mas estou tentando atingir um público leigo e jovem. Você já deve ter ouvido alguém falar que certa pessoa é meio estoica, não já? Tipo: em vez de brigar, gritar e sair dando pancada, ela procura manter calma, autocontrole e lucidez diante das dificuldades, concentrando sua energia naquilo que pode governar e aceitando o que não pode. Pois bem, isso vem de uma corrente filosófica que teve início, digamos, por volta do século III a.C., em Atenas, com um sujeito chamado Zenão de Cítio (c. 334–262 a.C.). Ele ensinava em um espaço público de Atenas chamado Stoa Poikílē (Pórtico Pintado), daí de “stoa” vem o nome “estoicismo”. Embora os estoicos também tenham desenvolvido uma lógica e uma filosofia da natureza, sua reflexão tinha uma finalidade prática: compreender como o ser humano deveria viver de acordo com a razão e a natureza.


Séculos depois, o estoicismo teria entre seus representantes mais conhecidos, no mundo romano, nomes como Sêneca (que foi senador e cônsul), Marco Aurélio (que foi imperador de Roma entre 161 e 180 d.C.) e Epicteto (ou Epiteto). Todos foram muito sábios e buscavam pensar sobre “a brevidade da vida” ou sobre a “tranquilidade da alma”, como o fez Sêneca; ou sobre a “vida virtuosa”, como o fez Marco Aurélio. Mas quero aqui me deter especialmente em Epicteto, talvez porque sua filosofia tenha algo de particularmente direto e provocador: ele não escreveu tratados para ensinar os outros a viver; preferiu mostrar, pela própria vida e pelas suas lições, que a liberdade começa quando aprendemos a distinguir aquilo que depende de nós daquilo que simplesmente não depende. Nisso é que começa sua verdadeira arte do bem viver.


Quem foi esse cidadão? Bom, primeiro, ele não era exatamente um cidadão, pois foi escravo (no Império Romano os escravos não eram cidadãos) e servia a alguém chamado Epafrodito, que possivelmente era um liberto que ocupava um cargo administrativo importante na corte do imperador Nero. Isso mesmo: estou falando do início da era cristã, uma vez que Epicteto nasceu por volta do ano 50 e morreu em 135 d.C. Durante o período em que viveu como escravo, teve acesso ao ensino filosófico e estudou com o estoico Musônio Rufo. Depois de obter a liberdade, ensinou filosofia em Roma. Quando o imperador Domiciano expulsou os filósofos de Roma, Epicteto foi para Nicópolis, onde fundou sua escola e deu muitas aulas. Como era um bom orador, preocupou-se apenas com a transmissão oral de seu pensamento e não conhecemos nenhuma obra escrita por ele. Seus discursos foram preservados em vários livros por Lúcio Flávio Arriano (c. 86–160 d.C.), seu discípulo, que registrou e organizou as lições de Epicteto nos Discursos, originalmente distribuídos em pelo menos oito livros. E foi graças a esse “secretário filosófico” que as palavras de Epicteto não se perderam no tempo. Ao transformar as palestras do mestre em texto, Arriano ajudou a conservar e difundir suas ideias, dando novo fôlego ao estoicismo e fazendo com que a filosofia de um antigo escravo romano atravessasse os séculos e continuasse a conversar conosco sobre uma questão que parece nunca sair de moda: afinal, como é possível viver bem?


Você já deve ter pensado nisso, não já?


Então, os antigos estoicos, como Zenão, Diógenes da Babilônia (c. 230–150 a.C. – de uma geração posterior a Zenão, mas que foi uma das figuras importantes na transmissão do estoicismo ao mundo romano) e outros tantos que buscavam descobrir como viver bem sem ficar à mercê dos caprichos da vida, chegaram a uma conclusão pouco confortável: não podemos controlar o mundo, mas podemos aprender a controlar nossa maneira de reagir a ele. E era disso que Epicteto falava. Seu Manual (ou Enchiridion – termo que significa “punhal” ou “livro portátil”) tornou-se uma espécie de manual de exercícios filosóficos, reunindo de forma breve ensinamentos destinados à prática cotidiana.


Ficou curioso? Pois bem, vou resumir aqui os principais ensinamentos desse interessante filósofo e, para isso, quero convidá-lo a imaginar que estamos em um jardim com vários pórticos nos quais, ao adentrar, revela-se a verdade nele contida. Então, em vez de seguir rigidamente a divisão original de 53 capítulos, entremos na alegoria e vamos analisar oito pórticos – agrupados por temas e identificados aqui pelas letras do alfabeto grego:


  • Pórtico Alfa (α): O que depende de nós e o que não depende de nós

Nem tudo está sob nosso controle — e aprender a distinguir o que depende de nós daquilo que escapa ao nosso comando pode poupar muita dor de cabeça. Nossas opiniões, escolhas, desejos e atitudes estão ao nosso alcance; já os acontecimentos externos, as ações dos outros e aquilo que já passou não obedecem à nossa vontade. Por isso, em vez de exigir que a realidade se ajuste aos nossos desejos, os estoicos propõem o movimento contrário: aprender a desejar que as coisas aconteçam como acontecem. Isso não significa cruzar os braços diante dos problemas, mas reconhecer que lutar contra o inevitável apenas aumenta o sofrimento.


  • Pórtico Beta (β): Desejo, repulsa e liberdade interior

Não se apegue a algo como se fosse eterno. Isso não quer dizer deixar de amar as pessoas ou gostar das coisas. A ideia é lembrar que tudo aquilo que amamos é, por natureza, passageiro. Parece meio duro — especialmente quando ele manda pensar até no filho ou na esposa como seres humanos que podem morrer —, mas o objetivo é outro: amar sem transformar o afeto em posse.


  • Pórtico Gama (γ): As representações e o julgamento sobre as coisas

Nem sempre é o que acontece que nos derruba, mas a história que contamos para nós mesmos sobre o que aconteceu. Alguém não responde à nossa mensagem e pronto: vem a reclamação — “está me ignorando”, “ficou com raiva”, “não gosta mais de mim”. O fato era apenas o silêncio; o resto foi produção da nossa cabeça, com roteiro, direção e, às vezes, até trilha sonora. Por isso, antes de reagir, examine a representação que aparece diante de você. É preciso perguntar: isso é realmente o que aconteceu ou é apenas a maneira como estou interpretando o acontecimento?


  • Pórtico Delta (δ): A escolha e o domínio de si

Mesmo quando a vida aperta, ainda existe um espaço que continua sendo nosso: a escolha de como responder ao que acontece. Epicteto chama prohairesis a faculdade racional pela qual orientamos nossas escolhas e nossa conduta. Podemos adoecer, perder dinheiro, enfrentar uma injustiça ou encontrar obstáculos que não escolhemos — mas ainda podemos decidir o que fazer diante disso. Dominar a si mesmo não significa controlar tudo ao redor, mas não permitir que as circunstâncias externas tomem conta das nossas decisões.


  • Pórtico Épsilon (ε): Perdas, morte, sofrimento, impermanência e tranquilidade da alma

Perder alguém ou alguma coisa que amamos talvez seja uma das experiências mais difíceis da vida. Epicteto propõe, porém, mudar a maneira como enxergamos essas perdas: em vez de pensar que algo nos foi tirado, lembrar que apenas estamos devolvendo aquilo que, por algum tempo, nos foi confiado. Filhos, cônjuges, bens, saúde e até a própria vida pertencem à esfera das coisas externas, que não estão sob nosso poder. Reconhecer sua impermanência não elimina a dor, mas pode evitar que ela se transforme em desespero, medo ou perturbação.


  • Pórtico Zeta (ζ): Relações com outras pessoas e vida social

Viver entre outras pessoas exige aprender a conviver sem fazer da vontade delas a medida da nossa felicidade. Filhos, cônjuges, amigos, colegas, autoridades e até aqueles que dependem de nós têm seus próprios desejos, escolhas e limites, que não podemos controlar. Isso não significa afastar-se das relações ou tornar-se indiferente, mas compreender o que cabe a cada um e preservar aquilo que depende de nossa própria escolha. A liberdade não consiste em fazer tudo o que queremos, mas em agir de acordo com a razão e reconhecer os limites naturais da nossa condição. Quando deixamos de exigir que os outros se comportem como desejamos, diminuímos a ansiedade e a frustração.


  • Pórtico Eta (η): Virtude, progresso moral e exercício filosófico

Filosofar não é apenas aprender conceitos ou acumular conhecimentos sobre a vida, mas colocar esses ensinamentos em prática. O Encheirídion é, nesse sentido, menos um livro para ser estudado do que um instrumento para ser exercitado no cotidiano. A cada situação, somos convidados a observar nossos julgamentos, corrigir nossas reações e agir de acordo com a razão. O progresso moral não acontece de uma vez, mas por meio de um exercício contínuo de atenção sobre nós mesmos e nossas escolhas.


  • Pórtico Teta (θ): O sábio, a liberdade e a felicidade

A verdadeira liberdade não consiste em controlar o mundo ao nosso redor, mas em governar a nós mesmos. O sábio é aquele que compreende os limites de sua ação, vive de acordo com a natureza e não entrega sua felicidade aos caprichos dos acontecimentos externos. Isso não significa tornar-se indiferente à vida, mas aprender a desejar e agir em conformidade com aquilo que a razão reconhece como adequado. À medida que deixamos de depender daquilo que não está sob nosso controle, tornamo-nos menos vulneráveis às perdas, às frustrações e às mudanças da fortuna.


Pronto! Saímos do último pórtico e voltamos ao jardim. Gostou do passeio? Espero que sim. Pois no fim das contas, Epicteto não oferece para o trajeto nenhuma fórmula mágica, nenhum método em cinco passos e muito menos um curso on-line para alcançar a felicidade antes do próximo desafio da vida. Sua proposta é bem mais simples — e, justamente por isso, bem mais difícil: aprender a governar a si mesmo.


Mas preste atenção: o estoicismo de Epicteto é mais do que essa versão popular que circula por aí. Seu núcleo está na faculdade de escolha, a prohairesis, e no uso correto do julgamento: aprender a distinguir o que depende de nós, orientar nossas escolhas pela razão e agir de acordo com a virtude. É nesse exercício que liberdade e responsabilidade moral se encontram. Não podemos escolher tudo o que nos acontece, nem impedir a morte, as perdas, as doenças, as mudanças e as surpresas que a vida insiste em colocar no caminho. Podemos, porém, examinar nossos julgamentos, orientar nossas escolhas e decidir como responder a tudo isso a fim de passar pelos pórticos da vida (pode acreditar, eles existem) com sabedoria. Talvez seja essa a grande provocação estoica: em vez de passar a vida tentando colocar o mundo nos eixos, começar colocando a nós mesmos. E, convenhamos, já é trabalho suficiente para uma vida inteira.



 
 
 

5 comentários

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Danielle Gonçalves de Aguiar
Danielle Gonçalves de Aguiar
há 3 dias

Excelente leitura ! nem tudo está sob meu controle, mas posso escolher como reagir às situações que a vida me apresenta. Quero aprender a agir com mais sabedoria, controlar minhas emoções e valorizar aquilo que realmente depende de mim.

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Dourivan Abreu
Dourivan Abreu
há 6 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

"orientar nossas escolhas pela razão e agir de acordo com a virtude. É nesse exercício que liberdade e responsabilidade moral se encontram" Conclusão soberba e realista para um texto maravilhoso. Parabéns, de novo!

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Marize Veríssimo
há 6 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

O mundo ocidental capitalista é totalmente anti-estoico, na medida em que prega que o homem é capaz de criar o próprio destino, isto é, de vencer os mais terríveis obstáculos, sejam eles quais forem. Nessa visão, se alguém nascer pobre e tiver poucas oportunidades, essa pessoa pode contornar esse contexto e tornar - se a primeira milionária da família - basta que queira. E, se porventura, ela não conseguir conquistar isso, é porque ela não se esforçara o bastante, pois se o tivera feito, teria conseguido. São desconsideradas todas as diferenças, inclusive de sorte, que levam pessoas a terem caminhos de vida diferentes. O sucesso e a felicidade são padronizados, plenamente possíveis e obrigatórios. Com isso, os consultórios de psiquiatria…

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Dourivan Abreu
Dourivan Abreu
há 6 dias
Respondendo a

O problema não é do mundo ocidental capitalista e nem do socialista, ou do oriental. É da fragilidade humana em si mesma.

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Sebastiana Cristina
há 7 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Cada texto nos traz novas descobertas.

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