Gilgamesh e a busca pela eternidade

Neste ensaio, a trajetória do “herói” e sua jornada pela imortalidade, refletindo sobre a finitude humana e o sentido da existência. A partir do antigo poema mesopotâmico, o autor mostra como a impossibilidade de vencer a morte pode dar lugar à construção de um legado que permanece na memória das gerações.
Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva
Dizem que os gregos inventaram a filosofia. Isso é verdade, mas isso não quer dizer que os outros povos não possuíssem alguma “pegada” filosófica. O que tornou a experiência grega singular foi que ela levou a reflexão para um novo caminho. Enquanto muitas civilizações procuravam explicar a origem do universo e da humanidade por meio de narrativas míticas — ou, mais precisamente, mítico-poéticas —, quase sempre ligadas à religião, os gregos passaram a valorizar também o logos: a investigação racional, sistemática e crítica, baseada na força dos argumentos e não apenas na autoridade da tradição.
Isso não significa que os mitos fossem desprovidos de filosofia. Ao contrário, muitos deles guardam profundas reflexões sobre a vida, a natureza, a justiça, o amor, a morte e o destino humano. Afinal, faz parte da condição humana essa inquietação diante do mundo, esse desejo de compreender o que nos cerca e o que nos afeta. Aristóteles chamava esse impulso de espanto (thaumázein): a admiração que desperta perguntas e nos coloca em busca de respostas. É justamente desse espanto que nasce a filosofia.
Muito antes de os gregos organizarem esse modo racional de investigar a realidade, outros povos já expressavam suas inquietações por meio de narrativas extraordinárias. Talvez elas não apresentassem argumentos filosóficos no sentido grego, mas continham perguntas que jamais deixaram de acompanhar a humanidade. Uma das mais antigas e fascinantes aparece no Poema de Gilgamesh, escrito na Mesopotâmia (região que hoje corresponde ao Iraque e partes do Irã, da Síria e da Turquia) há mais de quatro mil anos e cuja autoria permanece desconhecida. Nele, um rei poderoso se vê diante da experiência mais inevitável da existência humana: a morte.
A partir dessa tomada de consciência, nasce uma pergunta que atravessa os séculos e continua viva até hoje: existe alguma forma de vencer a morte? É possível viver eternamente? Você já deve ter pensado nisso, não? Pois, papo aberto: você não está só nessa, meu caro, pois talvez essa seja a mais antiga e persistente inquietação filosófica da humanidade — a qual transformou o Poema de Gilgamesh em um dos grandes clássicos da literatura universal.
Gilgamesh, quinto rei de Uruk, após o Dilúvio, consolidou seu poder por sua sabedoria e grandes feitos. Mas não foi só por isso, pois é preciso acrescentar que os deuses lhe deram beleza, coragem, força e muitos outros talentos. Com tudo isso, talvez falhando no quesito “sabedoria”, encheu-se de orgulho e tornou-se opressor —. Ai, ai, é a velha repetição cíclica do poder e da opressão, que foi o calcanhar de Aquiles de muitos, como Salomão, um dos mais sábios entre os inúmeros governantes em toda a história da humanidade. Bom, desculpem o suspiro e o hiato e continuemos: Vendo os excessos de Gilgamesh, os deuses criaram Enkidu: um homem selvagem destinado a enfrentar o rei. Os dois travaram uma grande luta, mas acabaram tornando-se amigos inseparáveis. Unidos, realizaram feitos heroicos, como derrotar o gigante Humbaba, guardião da Floresta dos Cedros, e matar o Touro Celeste enviado pela deusa Ishtar.
A história é longa e dela é possível muita coisa, como amizade, lealdade, virtude, bravura etc. Mas, continuando de modo bem resumido, o poema conta que os deuses decretam a morte de Enkidu e a perda do amigo transforma profundamente Gilgamesh. Pela primeira vez, ele percebe que, por mais poderoso que seja um rei, ninguém pode escapar da morte. Consumido pelo medo do próprio fim, tem sonhos (ou um grande sonho) e abandona o trono para partir em uma longa jornada em busca da imortalidade. Em sua viagem, ele encontra Utnapishtim, o único homem que recebeu dos deuses o dom da vida eterna após sobreviver a um grande dilúvio (num relato bem parecido a Noé e o dilúvio bíblico).
Esperando descobrir o segredo da imortalidade, Gilgamesh é submetido a provas, fracassa em todas elas e, embora encontre uma planta capaz de restaurar a juventude, perde-a quando uma serpente a rouba enquanto ele descansa. Por fim retorna a Uruk transformado, mesmo sem conseguir vencer a morte, pois logo é ceifada sua vida. O pai dos deuses foi claro: “Oh, Gilgamesh, era este o significado de teu sonho. Foi te dado um trono, reinar era teu destino; a vida eterna não era teu destino”. Assim:
O rei se deitou e não mais se levantará;O Senhor de Kullab não mais se levantará;Ele venceu o mal, ele não mais voltará;Embora tivesse braços fortes, ele não mais se levantará.
Essa história nos leva a pensar: se Gilgamesh não pode vencer a morte, o que exatamente pode permanecer? Ora, só pode ser a pessoa que construímos. Talvez seja por isso que ele acaba compreendendo que a verdadeira grandeza do ser humano não está em viver para sempre, mas em realizar obras duradouras, governar com justiça e deixar um legado para as gerações futuras. Essa é a palavra mágica! “Legado” é aquilo que deixamos como marca de nossa passagem pelo mundo. Não nos torna literalmente imortais, mas pode fazer com que algo de nós permaneça na memória e na vida daqueles que vêm depois.
À parte do sentido religioso da imortalidade, pois muitas religiões alimentam a esperança de uma vida eterna, o que a jornada desse herói nos ensina é aquilo que já sabemos, mas às vezes deixamos esquecer: a morte é inevitável, mas a maneira como vivemos, amamos, construímos e somos lembrados pode conferir sentido à nossa existência e fazer com que nossas ações continuem ecoando para além de nossa própria vida. Isto é, o legado não está no corpo, mas nos bens imateriais que deixamos. Curiosamente, é exatamente isso que acontece com o personagem Gilgamesh. A morte do amigo Enkidu rompe a ilusão de uma vida fundada apenas no poder e na força. A partir desse choque, ele desperta para a pergunta mais humana de todas: que sentido tem a vida se não podemos escapar da morte? É nesse momento que começa sua verdadeira formação. Ninguém nasce pronto, é preciso construir-se ao longo da vida, projetando o que quer deixar para a posteridade.
Já pensou nisso?
Que pessoa quer deixar como eterna, cujo nome ficará gravado não apenas na pedra, mas na mente dos outros? O Poema de Gilgamesh relata que ele “partiu numa longa jornada, cansou-se, exauriu-se em trabalhos e, ao retornar, descansou e gravou na pedra toda a sua história”. E é isso que estamos fazendo todos os dias em nossa jornada: gravando não na pedra mas na memória coletiva as ações que nos eternizam como sábios ou tolos, como bons ou maus, como corajosos ou covardes e com tantos outros qualificativos que compõem nosso ser. É isso que pode permanecer: suas escolhas, seus gestos e suas ações, as quais continuam presentes na memória daqueles que vêm depois.
E, como aconteceu com Utnapishtim, enfrentamos diariamente o dilúvio de correntes ao favor e contrárias, ventos fracos e fortes e o cair torrencial de elogios ou críticas. Como timoneiro de nossa própria vida, cabe a cada um escolher o rumo da embarcação, manter firme o leme diante das tempestades e decidir que história valerá a pena gravar na memória dos que virão depois de nós, como fez o herói desse longo mito babilônico.
É por isso que o Poema de Gilgamesh continua sendo uma das obras mais importantes da literatura universal e um dos primeiros grandes testemunhos da inquietação humana diante da finitude. Talvez ninguém consiga vencer a morte. Mas todos podemos decidir como seremos lembrados. É essa escolha que transforma uma vida comum em um legado. Gilgamesh queria vencer a morte (e quem não gostaria?), espantou-se com tudo que viu em sua jornada e descobriu que não podia. Mas descobriu também que uma vida não precisa ser infinita para ser significativa. O que importa talvez não seja viver para sempre, mas tornar-se alguém enquanto se vive. Enfim, pensar a vida, espantar-se diante da morte, sonhar com aquilo que talvez não exista e refletir sobre a eternidade é uma das formas mais profundas de se fazer filosofia. São “formas de viver”, como afirmou o filósofo espanhol Ortega y Gasset: “A filosofia é, antes, filosofar, e filosofar é, indiscutivelmente, viver — como é correr, namorar, jogar golf, indignar-se por causa da política e ser dama da sociedade. São modos e formas de viver”. Algo como o próprio filósofo diz: intransferível.
É isso, meu caro.
Não dá para transferir essa responsabilidade para os outros. É você mesmo que tem que se espantar, indignar-se e sair em sua jornada matando seus próprios gigantes, leões ou serpentes, e ainda voltar para sua Uruk como Gilgamesh retornou: um herói consciente de seus limites humanos e que sabe o que deve deixar para que sua experiência seja eterna.



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