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John Dewey, o pragmatismo e a educação por projetos

Foto do escritor: WILSON ALVES DE PAIVA
WILSON ALVES DE PAIVA
23 de set.
6 min de leitura


Na escola da vida, decorar respostas não basta. Inspirado em John Dewey, Dr. Wilson A. Paiva defende neste ensaio que a educação precisa formar estudantes capazes de investigar, criar e resolver problemas reais — porque aprender é dar sentido ao conhecimento, e não apenas reproduzi-lo.


Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva


Você já reparou numa cena que aparece quase sempre em filmes e séries americanas?


Em algum momento, os estudantes estão construindo um foguete de garrafa PET, montando uma maquete de cidade sustentável, programando um robô, produzindo um documentário, cultivando uma horta ou preparando uma enorme feira de ciências. Ninguém parece apenas copiando matéria do quadro para decorar na prova de sexta-feira. Claro, Hollywood exagera um bocado. Mas, curiosamente, essa imagem tem um fundo de verdade. Quem já visitou uma escola nos Estados Unidos ou no Canadá ou já deu aula por lá, como eu já fiz ambos, percebe rapidamente que os projetos fazem parte da rotina. Os alunos pesquisam, entrevistam pessoas, levantam hipóteses, discutem em grupo, planejam etapas, erram, recomeçam e, no final, apresentam um produto concreto.


Enquanto isso, em muitas escolas brasileiras, ainda reina o velho ritual: o professor explica, o aluno copia, memoriza, faz a prova e... duas semanas depois já esqueceu quase tudo. Evidentemente, há inúmeras exceções, tanto por parte dos estudantes esforçados, como por parte de muitas escolas brasileiras que realizam trabalhos extraordinários. Mas convenhamos: ainda somos muito mais especialistas em preparar estudantes para responder perguntas do que para formular boas perguntas e investigar problemas. Por isso, parabéns aos oito estudantes goianos (alunos do Sesi Canaã) que venceram o campeonato de robótica realizado na Austrália recentemente.


É justamente aqui que entra um filósofo americano chamado John Dewey. Talvez você nunca tenha ouvido falar dele, mas há uma boa chance de que muitas das metodologias "modernas" de ensino que aparecem hoje — aprendizagem baseada em projetos, metodologias ativas, sala de aula investigativa — tenham alguma dívida com suas ideias. John Dewey (1859-1952) não era do tipo que gostava de filosofia trancada em bibliotecas, servindo apenas para meia dúzia de especialistas. Pragmatista convicto, defendia que as ideias só têm valor quando ajudam a resolver problemas reais. Levou essa lógica para a educação: a escola deveria formar pessoas capazes de investigar, experimentar e participar da vida em sociedade, e não apenas decorar conteúdos para a prova. Democracia, para ele, não era só votar de tempos em tempos, mas aprender, desde cedo, a conviver, dialogar e agir coletivamente. A proposta era sedutora: trocar a escola da repetição pela escola da experiência. O problema é que muitos seguidores acabaram transformando essa boa ideia em um culto ao "aprender fazendo", como se o conhecimento acumulado pela humanidade fosse um detalhe dispensável.


Assim, precisamos resolver um pequeno mal-entendido. Você provavelmente já ouviu alguém dizer: "Fulano é muito pragmático". Normalmente isso significa alguém que pensa apenas no resultado imediato, sem muita preocupação com teorias. Na filosofia, porém, pragmatismo não significa praticismo e resolução fácil. São coisas bem diferentes. O pragmatismo nasceu nos Estados Unidos, no final do século XIX, com filósofos como Charles Sanders Peirce e William James. Dewey seria aquele que levaria essas ideias para dentro da escola. O ponto central era simples e, ao mesmo tempo, revolucionário: uma ideia vale pelo que ela produz na vida. E vale também pelas consequências que produz na experiência. Em outras palavras, uma teoria não deve ser admirada apenas porque parece elegante ou complicada; ela precisa ajudar as pessoas a compreender melhor o mundo e resolver problemas reais.


Percebe a diferença? O pragmatismo não despreza a teoria. Pelo contrário. Ele apenas faz uma pergunta extremamente incômoda: Para que serve essa teoria? Imagine que alguém passe anos estudando como construir uma ponte perfeita, mas nunca construa uma única ponte. Outro aprende construindo pequenas pontes, observa os erros, corrige o projeto e melhora a cada tentativa. Quem aprendeu mais? Dewey responderia sem hesitar: o segundo. Isso não significa abandonar os livros. Significa compreender que o conhecimento nasce do encontro entre pensamento e experiência. Aprender não é despejar informações dentro da cabeça do estudante como quem enche um balde de água. Aprender é investigar, experimentar, errar, refletir e tentar novamente.


É por isso que Dewey repetia uma ideia que ficou famosa: learning by doing, isto é, aprender fazendo. Mas cuidado! Isso também costuma ser mal compreendido. “Aprender fazendo” não significa colocar os alunos para fazer qualquer atividade manual só para ocupar o tempo. Se fosse assim, bastaria distribuir cartolina, cola e tesoura, e teríamos uma revolução educacional. Não é disso que Dewey está falando. O "fazer" precisa nascer de um problema real. Imagine que a escola queira diminuir o desperdício de água. Em vez de simplesmente explicar o ciclo hidrológico durante cinquenta minutos, os estudantes poderiam medir o consumo de água da escola, entrevistar funcionários, pesquisar soluções, calcular custos, elaborar campanhas educativas e apresentar um plano de economia. Perceba o que pode acontecer aí. Eles aprendem Ciências, Matemática, Língua Portuguesa, Geografia, Estatística e cidadania. Tudo ao mesmo tempo. E aprendem porque há um problema concreto pedindo solução.


Embora Dewey tenha lançado seus fundamentos filosóficos, quem transformou essa intuição em uma proposta pedagógica mais sistemática foi seu discípulo William Heard Kilpatrick. Em 1918, ele publicou um artigo que se tornaria um clássico da educação: The Project Method. Para Kilpatrick, um projeto deveria nascer de um interesse verdadeiro dos estudantes, exigir planejamento, integrar diferentes conhecimentos e resultar em alguma realização concreta. Perceba que a palavra mais importante aqui talvez nem seja "projeto", mas “propósito”. Quando o estudante entende por que está aprendendo alguma coisa, a aprendizagem muda completamente de qualidade.


Pense na diferença entre decorar a fórmula da área de um terreno e precisar calcular essa área porque a turma quer construir uma horta escolar. A matemática continua exatamente a mesma. O que muda é o significado. É por isso que projetos costumam dar tão certo. As crianças deixam de ser espectadoras da aula para se tornarem investigadoras. Elas discutem hipóteses, procuram informações, fazem perguntas, planejam etapas, dividem responsabilidades e descobrem que conhecimento não é uma coleção de respostas prontas, mas um caminho de investigação. Talvez seja justamente isso que ainda nos falte compreender.


Durante muito tempo, acreditamos que ensinar era falar cada vez melhor. Dewey propôs outra ideia: ensinar é criar situações em que os estudantes pensem cada vez melhor. Isso exige mais trabalho do professor, não menos. Um projeto bem planejado costuma dar muito mais trabalho do que uma aula expositiva. Exige planejamento, acompanhamento, avaliação contínua e capacidade de lidar com o inesperado. Afinal, projetos de verdade nem sempre seguem o roteiro imaginado. Mas talvez essa seja exatamente a grande lição de Dewey. A vida também não segue roteiro.


Infelizmente, a educação brasileira ainda parece acreditar que aprender é decorar para a prova. Fala-se muito em inovação, criatividade e protagonismo estudantil, mas, na prática, continuamos formando excelentes repetidores de conteúdo e poucos investigadores. As antigas feiras de ciências, que deveriam ser laboratórios de curiosidade e invenção, em muitas escolas transformaram-se em eventos protocolares, repetindo experiências copiadas da internet, maquetes feitas pelos pais e cartazes que mal sobrevivem ao dia da exposição. Sem dizer que em muitos lugares elas sumiram por completo. O projeto, que deveria ser o coração da aprendizagem, tornou-se exceção. Enquanto países investem em estudantes que pesquisam, constroem, programam, experimentam e resolvem problemas reais, nós ainda gastamos boa parte do tempo ensinando jovens a memorizar respostas para perguntas que, muitas vezes, jamais farão sentido fora da sala de aula.


É verdade que houve tentativas importantes de mudar esse cenário. Os escolanovistas brasileiros, inspirados em John Dewey, sonharam com uma escola mais viva, investigativa e conectada com a realidade dos estudantes. Talvez o maior símbolo desse ideal tenha sido a Escola Parque, concebida por Anísio Teixeira como um espaço em que aprender significava também experimentar, criar e conviver. Infelizmente, esse projeto não se consolidou. De um lado, interpretações pedagógicas que supervalorizaram o espontaneísmo e relativizaram a importância da sólida apropriação dos conhecimentos clássicos, o que acabou enfraquecendo a formação intelectual dos estudantes. De outro, o retorno do tecnicismo, somado ao produtivismo, que ainda marca boa parte das políticas educacionais. O que recolocou a escola a serviço de indicadores, exames e resultados quantitativos. Perdemos, assim, as duas coisas: nem preservamos a riqueza da tradição intelectual (que os jesuítas nos legaram), nem construímos uma educação verdadeiramente investigativa e criativa (como é a educação por projetos). O que muitas vezes fazemos é uma “educação política” que nada tem de “política” no sentido clássico do termo.


Quando saímos da escola, ninguém nos entrega uma prova com dez questões de múltipla escolha. Encontramos problemas novos, pessoas diferentes, situações inesperadas e decisões difíceis. A educação, portanto, deveria preparar menos para decorar respostas e mais para formular boas perguntas. No fundo, é isso que um projeto ensina. Muito antes de formar engenheiros, médicos, professores ou advogados, ele forma algo ainda mais importante: pessoas capazes de observar um problema, reunir outras pessoas, pensar juntas e construir uma solução.


Talvez seja por isso que tantos estudantes americanos pareçam viver fazendo projetos. E talvez seja também por isso que a educação brasileira precise de mais projetos — não porque sejam uma moda pedagógica, mas porque essa era, desde o início, a intuição de John Dewey. Para ele, aprender não significava abandonar o conhecimento acumulado pela humanidade, mas colocá-lo em movimento diante dos problemas concretos da vida. Um projeto não substitui o conteúdo; ele lhe dá sentido. Quando a escola consegue unir tradição intelectual e investigação, teoria e prática, memória e criatividade, ela deixa de formar apenas alunos que respondem corretamente às provas e passa a formar pessoas capazes de responder, com inteligência e responsabilidade, aos desafios do mundo. Afinal, viver sempre foi o maior projeto de todos — e a escola deveria ser o lugar onde aprendemos a construí-lo.

 
 
 

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