Kant e a obsessão pelo relógio

Neste ensaio, a curiosa relação de Kant com o relógio para refletir sobre disciplina, liberdade e nossa obsessão contemporânea pelo tempo. Afinal, estamos organizando a vida ou deixando que o relógio a organize?
Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva
Caro leitor, já ouviu falar que existem pessoas que preferem perder o amigo do que perder a piada? Pois bem, posso perder alguns amigos kantianos, mas não vou perder a chance de contar um “causo” divertido desse baixinho prussiano do final do século XVIII: Conta-se que os habitantes de Königsberg, a atual Kaliningrado e hoje pertencente à Rússia, não precisavam consultar relógios: bastava observar a passagem diária de Kant para acertar as horas. Se ele aparecesse às três em ponto, eram três em ponto. Se aparecesse às três e cinco, alguém provavelmente começaria a desconfiar do relógio — nunca de Kant. E ai de quem o encontrasse fora do horário: ou o mundo tinha saído do eixo, ou Kant estava prestes a escrever outra Crítica.
Na verdade, a piada não teve graça e se essa anedota é verdadeira, pouco importa. O que ela revela é a impressão que o filósofo causava em seus contemporâneos. Em uma época em que os homens ainda se permitiam alguma improvisação, Kant transformou a regularidade em arte e a disciplina em método. Não surpreende, portanto, que o pensador cuja caminhada servia de cronômetro para a cidade tenha também tentado estabelecer os limites, as condições e até os horários de funcionamento da própria razão. Antes de revolucionar a filosofia, Kant já parecia empenhado em colocar o universo inteiro, começando por si mesmo, em ordem.
Mas quem foi ele? Alguém deve perguntar. E já vou responder: Immanuel Kant nasceu em 1724, em Königsberg, na Prússia, e morreu na mesma cidade em 1804. Passou praticamente toda a vida ali. Não foi um filósofo de grandes viagens, aventuras exóticas ou mudanças repentinas de endereço. Seu grande passeio foi outro: uma longa caminhada pelo território da razão humana. E que caminhada! Kant é um daqueles filósofos que aparecem na história para complicar aquilo que parecia simples. Antes dele, a filosofia moderna estava envolvida em uma grande discussão: afinal, de onde vem o conhecimento? Dos sentidos? Da experiência? Da razão? Os racionalistas confiavam fortemente na razão; os empiristas, na experiência. Kant entrou nessa briga como quem chega a uma festa e pergunta: “Vocês já pensaram em organizar essa discussão direito?”
Sua resposta foi, de certa forma, revolucionária.
Para ele, não conhecemos as coisas simplesmente como elas são “em si mesmas”. O conhecimento resulta de uma relação entre aquilo que recebemos pela experiência e as estruturas mediante as quais nossa mente organiza essa experiência. Em outras palavras, não somos espectadores passivos do mundo. A mente participa ativamente da construção daquilo que podemos conhecer. É uma ideia poderosa: não é apenas o mundo que chega até nós; nós também colocamos alguma coisa de nós na maneira como o mundo aparece para nós. Pense, por exemplo, no que acontece quando você recebe uma notícia nas redes sociais. A notícia é a mesma para todos, mas cada pessoa a interpreta de um jeito, conforme aquilo que já sabe, acredita, espera ou teme. Kant nos convida justamente a prestar atenção a esse “filtro” que existe entre o mundo e aquilo que pensamos sobre ele. E talvez aí esteja uma das grandes lições de sua filosofia para a vida: antes de acreditar que estamos simplesmente vendo a realidade, vale a pena perguntar como estamos aprendendo a enxergá-la.
Entendeu? Se não, vamos explicar de forma mais simples ainda: Para Kant, a gente não enxerga o mundo simplesmente como ele é. Nossa mente funciona meio como uma lente: recebe aquilo que acontece lá fora, mas também organiza, interpreta e dá sentido ao que vê. Vamos a outro exemplo: Pense em duas pessoas assistindo ao mesmo show. A música é a mesma, o palco é o mesmo, mas uma pode sair pensando “foi incrível!”, enquanto a outra acha “foi meio sem graça”. O que mudou? O mundo não mudou, o espetáculo não mudou. Mudou a maneira como cada uma o percebe. É mais ou menos isso que Kant quer dizer: não somos câmeras que apenas registram a realidade. Nossa mente participa daquilo que conhecemos. É como se o mundo fornecesse as peças do quebra-cabeça, mas nossa mente fosse responsável por organizá-las. Por isso, quando conhecemos alguma coisa, não é apenas o mundo que chega até nós. Nós também colocamos um pouco de nós na maneira como o mundo aparece para nós.
Kant chamou esse movimento de uma verdadeira “revolução copernicana” na filosofia. Assim como Copérnico havia deslocado o centro da explicação astronômica, Kant deslocava o foco da teoria do conhecimento: em vez de perguntar somente como a mente se adapta aos objetos, era preciso investigar também como os objetos da experiência são estruturados pelas condições de nossa própria mente. Não é pouca coisa.
Sua obra mais famosa, a Crítica da Razão Pura, publicada em 1781 e ampliada em 1787, investiga justamente os limites e as possibilidades do conhecimento. Depois vieram obras fundamentais como a Crítica da Razão Prática, dedicada à moral, e a Crítica da Faculdade de Julgar, na qual aparecem questões relacionadas à estética, ao belo, ao sublime e à finalidade na natureza. E aqui começa uma curiosidade interessante: Kant passou boa parte da vida tentando descobrir até onde a razão podia chegar. Ele queria saber o que podemos conhecer, o que devemos fazer e o que podemos esperar. Parece quase um manual de instruções para ser humano, só que escrito por alguém que provavelmente teria colocado o manual em ordem alfabética.
Mas o que tudo isso tem a ver com relógios? Talvez não tanto quanto parece, e justamente por isso a comparação pode resultar interessante. O relógio é uma das grandes invenções da humanidade porque transforma o tempo em medida. O tempo passa, mas o relógio nos permite dizer quanto passou: Uma hora, dez minutos, trinta segundos etc. O relógio transforma o fluxo da existência em números e isso muda nossa relação com a vida. Uma criança brincando no quintal não pergunta se já passaram quarenta minutos, mas um adolescente conversando com os amigos pode descobrir, horrorizado, que são duas da manhã quando tinha certeza de que ainda eram onze. Já o adulto começa a viver cercado de horários: hora de acordar, hora de trabalhar, hora de estudar, hora de comer, hora da reunião, hora do ônibus, hora da academia, hora de dormir. E, em algum momento, começa a marcar até o tempo de seu descanso, dizendo: “Tenho vinte minutos para relaxar”.
Ora, se você precisa marcar no relógio até mesmo o tempo destinado a não fazer nada, talvez tenha transformado o relógio em seu chefe. É claro que existe um enorme valor na regularidade. Sem algum tipo de organização temporal, a vida coletiva seria um pequeno desastre. Imagine uma universidade em que cada professor chegasse quando tivesse vontade, cada aluno fizesse a prova em um dia diferente e cada reunião começasse mais ou menos depois do almoço, sem uma hora definida. Seria uma experiência interessante, mas dificilmente uma experiência acadêmica ou profissional, e algo que pudesse dar certo. Não é apenas a hora que é importante; a pontualidade também desponta como uma forma de respeito por si mesmo e pelos outros.
Ponto para Kant!
Quando marcamos um encontro para determinado horário, estamos estabelecendo uma espécie de pacto silencioso: “Meu tempo importa, mas o seu também”. Chegar pontualmente significa reconhecer que o outro organizou a própria vida em função daquele compromisso. Nesse sentido, pontualidade não é apenas uma mania kantiana ou de gente que olha o relógio a cada cinco minutos, mas uma pequena ética da convivência. E como o povo brasileiro precisa ter consciência disso, mein Gott! Todos nós conhecemos a cultura do atraso, não apenas nos casamentos, mas nas reuniões, nas comemorações e em todo tipo de evento. Não quero aqui dizer que a pontualidade deva ser transformada em tirania, mas que ela deveria ser, antes de tudo, uma questão de consciência e respeito.
Kant provavelmente não teve problemas com isso. Nós, pobres mortais do século XXI, temos, principalmente nós, brazucas.
Mas deixemos de lado a pontualidade e voltemos ao “tempo”: Vivemos em uma sociedade que descobriu uma coisa assustadora: é possível ocupar cada segundo do dia. Antigamente, perder tempo era simplesmente... perder tempo. Hoje, precisamos “otimizá-lo”, uma vez que o aplicativo promete produtividade, o relógio inteligente mede nossos passos, o celular contabiliza nossas horas de sono, a agenda avisa que temos uma reunião, outra notificação avisa que temos uma mensagem, outra pergunta se queremos responder à primeira e por aí vai. Assim seguimos, perfeitamente organizados e, às vezes, completamente atrasados para a própria vida.
Talvez seja aqui que dois velhos possam nos ajudar: Kant e Dalí. Primeiro, é preciso dizer que há uma diferença enorme entre ter disciplina e ser escravo da disciplina. A regularidade pode nos libertar. Um estudante que organiza seu tempo consegue estudar melhor. Uma pessoa que estabelece horários consegue cuidar de seus compromissos. Quem aprende a planejar não precisa viver apagando incêndios. Mas existe também o mecanicismo: aquela ideia de que tudo precisa funcionar como uma máquina, cada peça ocupando seu lugar, cada movimento obedecendo a uma sequência previsível. Uma máquina é eficiente justamente porque não pergunta se está com vontade. Nós perguntamos. E talvez seja aí que esteja nossa humanidade. Se a vida fosse perfeitamente previsível, provavelmente seria muito eficiente... e absolutamente sem graça. Pense em uma máquina. Ela não se atrasa porque ficou conversando com um amigo. Não perde a hora porque ficou olhando a chuva pela janela. Não muda de caminho porque encontrou alguém que não via há dez anos. Não abandona um compromisso porque descobriu, de repente, que precisava ajudar alguém. A máquina funciona. O ser humano vive. E isso é uma diferença importante.
Não me entenda mal, não estou voltando atrás, recuando e dizendo que a pontualidade seja ruim. Não é. Não podemos absolutizar o tempo, uma vez que ele se esvai, escorrega entre nossos dedos...
Talvez ninguém tenha percebido isso de maneira tão poética quanto Salvador Dalí e, na expressão artística de seu surrealismo, questionou isso. Em A Persistência da Memória, de 1931, aparecem aqueles famosos relógios moles, derretendo sobre galhos, superfícies e objetos. Já viu, não? É uma das imagens mais conhecidas da arte do século XX. Dalí parece fazer com o relógio aquilo que um sonho faz com a realidade: desmonta sua rigidez. O relógio, que deveria ser duro, preciso e confiável, aparece mole. O tempo, que imaginamos como uma sequência matemática perfeitamente organizada, parece derreter diante de nossos olhos. Muito poderia ser dito desse quadro, mas limito-me a dizer que ele sugere a flexibilidade e a experiência subjetiva. É possível dobrar, derreter e até esquecer o tempo?
Esta pergunta não nos induz a sair correndo para “aproveitar a vida” como se tivéssemos de transformar cada minuto em uma experiência extraordinária. Isso também seria uma forma de escravidão. A obrigação de ser feliz o tempo inteiro é tão cansativa quanto a obrigação de ser produtivo sempre. Às vezes, aproveitar o tempo significa simplesmente sentar em algum lugar, conversar, ler, olhar para o céu, ou sair caminhando como fazia o filósofo Jean-Jacques Rousseau, cujos escritos Kant leu bem.
Kant tinha seus horários. Nós temos aplicativos. Ele caminhava sempre na mesma hora. Nós recebemos notificações dizendo que está na hora de levantar, beber água, trabalhar, responder, produzir, descansar e dormir. No fundo, a obsessão continua. Só mudou de tecnologia.
Mas há algo em Kant que merece ser levado muito a sério: a ideia de que a liberdade não significa simplesmente fazer tudo o que dá vontade. Liberdade também exige autonomia, isto é, a capacidade de orientar a própria vida por princípios que reconhecemos como nossos. Isso vale também para o tempo. Organizar o tempo é, em certo sentido, organizar a própria existência. Quem não sabe dizer “não” para os outros acaba entregando o próprio tempo sem perceber. Quem não estabelece prioridades permite que as urgências alheias determinem sua agenda. Quem passa o dia inteiro reagindo a notificações talvez esteja vivendo de acordo com uma programação que não escreveu.
E aqui o relógio pode voltar a ser nosso amigo, mas não precisamos transformá-lo em divindade, como se cada minuto desperdiçado fosse um pecado. Precisamos apenas recolocá-lo no lugar certo. O relógio deve servir à vida, não a vida ao relógio. A pontualidade importa, assim como importam a organização, a disciplina e a precisão. Sem elas, dificilmente conseguimos construir uma vida coletiva minimamente justa e funcional, mas também importa saber quando o relógio deve ser esquecido.
Talvez Kant nos ensine a organizar o tempo; talvez Dalí nos ensine a desconfiar dele. Entre os dois, existe uma sabedoria possível, um meio-termo. Precisamos de relógios para não transformar a vida em caos. Mas precisamos também de liberdade para não transformar a vida em uma planilha. No final das contas, a pergunta não é apenas “Que horas são?” A pergunta mais difícil é: “O que estamos fazendo com as horas que temos?” Se a vida é curta, isto é, se não temos muito tempo, o que estamos fazendo para aproveitar o que nos resta? Boas coisas? Ou simplesmente perdendo o tempo (e a oportunidade) de deixar nosso legado? Essa pergunta nenhum relógio consegue responder. Só nós mesmos.



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