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Mounier, a vida anônima e a pessoa

Foto do escritor: WILSON ALVES DE PAIVA
WILSON ALVES DE PAIVA
23 de set.
6 min de leitura


Em tempos de redes sociais, conexões instantâneas e identidades prontas, ainda sabemos quem somos? A filosofia de Emmanuel Mounier nos provoca a sair do anonimato e assumir a autoria da própria existência


Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva


Suponhamos que nossa vida seja um teatro. Como atores, temos nossos papeis a desempenhar, um roteiro a seguir, diretores a nos dar ordens e o público que nos assiste e julga nossa atuação. Epicteto, um filósofo estoico romano, chegou a dizer que não passamos de atores que procuram agradar aos autores do drama de nossa existência. Mas nessa comparação da vida como uma peça teatral, ele chega a uma conclusão interessante: cabe a cada um desempenhar bem o papel que lhe foi atribuído, seja ele de pobre, rico, governante, cidadão etc. Dessa forma, refletindo sobre a condição humana, ele quis dizer mais ou menos assim: “Meu jovem, você não escolhe necessariamente o personagem que recebeu; mas pode escolher como interpretá-lo”.


Para a palavra “personagem” ele usa o termo grego Prosōpon (πρόσωπον), que significa literalmente “rosto” ou “face”, mas que adquiriu vários sentidos ao longo da filosofia e da cultura grega: aparência, personagem, papel, figura pública e, posteriormente, pessoa. Daí é quem vem o sentido da palavra “pessoa”, do latim persona, que originalmente significava a máscara usada pelos atores no teatro romano. A máscara permitia que a voz do ator “ressoasse” (per-sonare = soar através) ao público. Aos poucos, o termo passou a designar a personagem representada e, depois, o próprio indivíduo, e não apenas a máscara: a pessoa é o ser que se projeta a partir do eu e de suas ações com o mundo.

Ao longo da história, diferentes filósofos tentaram compreender o que significa ser pessoa. Boécio destacou sua dimensão racional, em várias obras, afirmando sempre: “Persona est rationalis naturae individua substantia”. Na “A consolação da filosofia”, Boécio não diz nada, diretamente, mas já desde o Livro I ele mesmo aparece como indivíduo concreto, abatido pela prisão, pela perda da posição social e pela Fortuna, preocupado com sua pessoa. A personagem Filosofia começa justamente fazendo-o reconhecer quem ele é para que possa recuperar sua condição racional. Além dele, outros tantos, como Kant que, como muitos já sabem, insistiu que a pessoa jamais deve ser tratada apenas como meio, mas como fim. Entretanto, foi com Emmanuel Mounier que esse termo ganhou uma dimensão decisiva para esta reflexão: a pessoa se realiza na relação com os outros.


Mesmo conhecendo pouca coisa desse filósofo, posso dizer que a história da palavra “pessoa” ganhou um novo capítulo após suas reflexões e publicações: se, no teatro, o personagem precisa vestir uma máscara para entrar em cena, na vida, segundo Mounier, precisamos fazer quase o contrário: retirar as máscaras que nos foram dadas para finalmente descobrir quem somos, assumir nossa liberdade e entrar em relação verdadeira com os outros. Uma “virada copernicana” na teoria da pessoa humana.

É bem provável que você nunca tenha ouvido falar de Emmanuel Mounier. Eu mesmo só recentemente tive a oportunidade de folhear um volume de suas Oeuvres, publicado em 1961 pelas Éditions du Seuil, de Paris, graças à generosidade de um colega. Uma rápida pesquisa já revela o essencial: Mounier foi um filósofo, jornalista e escritor francês da primeira metade do século XX que enfrentou os regimes totalitários, especialmente o fascismo e o nazismo. Foi também um dos fundadores da revista Esprit e o principal formulador do personalismo, uma corrente filosófica que coloca a dignidade da pessoa humana acima de qualquer ideologia, Estado ou interesse econômico.


Pode parecer apenas mais um nome esquecido da filosofia, mas suas ideias continuam surpreendentemente atuais. Nosso tempo é marcado pelas redes sociais, pela pressão para seguir a multidão, a galera descolada, a “comunidade”, o partido e tantos grupos identitários; assim como pela dificuldade de construir uma identidade própria. Mounier nos convida a fazer uma pergunta simples e profunda: quem sou eu quando deixo de apenas repetir o que todos dizem e começo a pensar e agir por mim mesmo? Aqui a coisa fica boa, pois talvez seja exatamente por isso que ainda valha a pena conhecê-lo e refletir sobre suas ideias. E, ao meu ver, uma das mais significativas é seu conceito de “pessoa”.

Na leitura que fiz de algumas de suas obras, pude perceber que o fio condutor de sua filosofia é a pessoa como realidade central e irredutível da existência humana, mas entendida não como um indivíduo isolado, e sim como um ser livre, responsável, relacional, comunitário e capaz de transcendência. Esse “toque” foi bem significativo, pois ao dizer que a pessoa não é um indivíduo isolado, mas um ser que se realiza na relação com os outros, na comunidade, no amor e na responsabilidade, o filósofo acaba valorizando o indivíduo sem o individualismo e a vida social sem o coletivismo. Até porque, como ele diz: “O individualismo abstrato, jurídico, egoísta e reivindicador não nos oferece senão uma caricatura da pessoa. O capitalismo e os Estados totalitários não nos propõem senão uma sociedade opressiva, sem verdadeira comunhão. Contra essas duas formas de enfraquecimento, devemos reencontrar as forças profundas da personalidade e da comunidade e instaurar esse regime personalista e comunitário que desenvolve uma pela outra” (Révolution Personnaliste et Communautaire, p. 216).


E aqui Mounier dá uma espécie de “puxão de orelha” filosófico em dois tipos bastante conhecidos. De um lado, está o sujeito que diz: “Eu faço o que eu quiser, ninguém tem nada a ver com a minha vida”, como se liberdade fosse simplesmente poder fazer qualquer coisa sem dar satisfação a ninguém. Do outro, aparece aquele que pensa: “O importante é o grupo; eu que me vire para caber nele”, como se, para viver em sociedade, fosse necessário entregar a própria consciência na portaria. Mounier não aceita nenhum dos dois extremos, pois, para ele, ser pessoa é justamente não cair nessa armadilha. Não somos ilhas autossuficientes, mas também não somos peças de reposição de uma máquina social, que anula a subjetividade. A pessoa precisa do outro para se realizar, mas não deixa de ser ela mesma por causa disso. Ao contrário: é na relação que ela se descobre, se constrói e se responsabiliza por aquilo que faz de si e do mundo.


Isso parece especialmente atual numa época em que somos convidados, o tempo inteiro, a construir uma “identidade” para mostrar aos outros, de preferência com boa iluminação, filtro e uma legenda impactante. Podemos ter centenas de seguidores e, ainda assim, não saber muito bem com quem estamos realmente falando. Mounier provavelmente perguntaria: quantas conexões são necessárias para que alguém deixe de estar sozinho? E talvez acrescentasse uma provocação ainda maior: ter muitos contatos é o mesmo que estabelecer relações? Já pensou nisso, meu jovem?


Para Mounier, a resposta seria um evidente “não”. Sabe por quê? Ora porque conectar-se não é necessariamente comunicar-se; estar junto não significa necessariamente conviver. Entendeu? Se não, pense bem: você pode ter dez mil seguidores (ou mais), milhares de amigos e participar de dezenas de grupos no WhatsApp, mas continuar sendo um completo anônimo para si mesmo, esquecendo de viver como uma Pessoa (sim, com letra maiúscula).


Daí ele diz: "O primeiro ato de iniciação à Pessoa é a tomada de consciência da minha vida anônima" (Idem, p. 186). Entendendo aqui, “vida anônima” como aquela existência vivida sem reflexão, conduzida pelos costumes, pelos impulsos ou pela opinião dos outros, sem contribuição nenhuma à coletividade. E ele completa no mesmo trecho: “O primeiro passo, correlativo, de iniciação à vida comunitária é a tomada de consciência de minha vida indiferente: indiferente aos outros” (Id. Ibid.). Assim, uma “pessoa” é aquele ser que se reconhece no anonimato ao fazer a pergunta a si mesmo: o que estou fazendo de bom neste mundo? Nada? Meu nome não virou referência de nada? Então sou um anônimo. Depois disso, esse ser desperta para si mesmo, assume sua liberdade e começa a responder pelo que faz com a própria vida, buscando contribuir com a coletividade, de alguma forma. Só assim vira uma “pessoa”, ou melhor, uma “Pessoa”.


E aqui está o detalhe: essa liberdade não significa fazer tudo o que der na telha, pois isso seria anarquia e pura espontaneidade. Somos condicionados pela natureza, pela história, pela sociedade, pela economia, pela família, pelas crenças e por tantas outras coisas; mas não somos prisioneiros definitivos delas. Ser pessoa é poder ultrapassar, transformar e dar sentido às condições que recebemos, para agir com consciência e satisfação. Por isso, Mounier fala em “imergência” e “emergência”: estamos mergulhados no mundo, sujeitos aos seus limites, mas também somos capazes de emergir deles, mediante a condição de seres livres. A pessoa, portanto, é um ser livre, consciente, criador e aberto ao outro, que não se contenta em simplesmente “ir levando a vida”. É aquele que acorda do “sono vital” e percebe que viver não é apenas existir, mas assumir a autoria da própria existência.


Ser uma pessoa não é ser um ator, como dizia Epicteto, mas um autor. Não necessariamente “o autor” da peça que representamos, ou um autor de livros ou de obras artísticas, mas autor de sua própria existência que o arranca do anonimato e o insere na autoria de sua vida, dando-lhe sentido. Se isso ainda é teatro, que seja para a honra e glória da humanidade, e, diria Mounier, como um cristão que foi, para honra e glória de Deus.

 
 
 

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