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O que uma pedra lançada tem a ver com nossa existência?

Foto do escritor: WILSON ALVES DE PAIVA
WILSON ALVES DE PAIVA
23 de set.
7 min de leitura


A pedra apenas cai. O ser humano, além de cair, pergunta por quê. É dessa diferença aparentemente simples que nasce uma das reflexões mais profundas da filosofia de Martin Heidegger.


Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva


Todos nós já lançamos uma pedra, seja no ar, na água ou até mesmo, como peraltice antiga, em algum animal ou numa janela. Vamos pensar agora na pedra, que não é o sujeito da ação, mas o pobre objeto arremessado, condenado a cumprir um destino que jamais escolheu e a levar a culpa pelo estrago que, convenhamos, foi obra de outra mão. Parece maluquice refletir sobre isso, mas não é. Continuemos: agora imaginemos essa pedra atravessando o ar depois de ser lançada. Ela não escolheu a mão que a arremessou, não decidiu a direção do voo, não sabe de onde veio nem para onde vai. Simplesmente segue sua trajetória, obedecendo às forças que a empurram. A pedra não questiona seu destino, não se inquieta com sua origem e não perde o sono tentando descobrir o significado de sua existência.


Ela apenas cai.


A maior maluquice vem agora: vamos tomar o lugar da pedra.  Imagine que você, como a pedra, foi arremessado no meio de um jogo sem receber o manual, sem escolher o personagem, sem decidir o mapa e, pior ainda, sem poder apertar o botão de reiniciar ou cancelar o voo. Se isso lhe parece loucura, prepare-se: um filósofo alemão chamado Martin Heidegger se dedicou a pensar sobre isso e ele dizia que essa é, em boa medida, a nossa condição. Nós não caímos no mundo porque quisemos; simplesmente nos descobrimos aqui, no meio da partida, tentando entender as regras enquanto o cronômetro já está correndo. Ou seja, Para ele, os seres humanos são "lançados" na existência. Ninguém escolhe quando nascer, onde nascer, em que família viver, qual língua falar ou em que época da história aparecer. Quando percebemos, já estamos no meio do caminho, cercados por circunstâncias que não escolhemos, tentando descobrir quem somos e o que fazer com a vida.


Creio que todo jovem já teve esse sentimento, não é verdade? Mas não se assuste, meu caro, nem se desespere, pois crescer também é estranhar o mundo em que, sem aviso, fomos colocados. E foi mais ou menos assim que Heidegger enxergou a condição humana. Para ele, nenhum de nós pediu para nascer nesta época, nesta família, neste país ou com o sobrenome que temos; simplesmente fomos lançados no mundo, como uma pedra que alguém atira sem consultar sua opinião.


Mas há uma diferença fundamental: a pedra não briga com os irmãos ou com os pais, não reclama no X, não posta vídeos no TikTok e não passa madrugadas tentando descobrir o sentido da vida. Já o ser humano, que Heidegger chamou de Dasein, além de perceber que foi lançado, insiste em perguntar por que foi lançado, para onde está indo e o que deveria fazer enquanto a queda continua. Talvez toda a filosofia comece exatamente aí: no instante em que a pedra ganha consciência e começa a fazer perguntas e até sente uma certa angústia em tudo isso.

Se você pensa e sente assim, parabéns! Você é um filosofo!

E, como todo filósofo, você precisa lidar com termos, com palavras difíceis. Vamos lá: o que é mesmo o Dasein? Bom, o Dasein é marcado pela Geworfenheit, cuja palavra é geralmente traduzida como "ser-lançado", "lançamento" ou "facticidade". A palavra alemã Dasein significa literalmente "ser-aí" (Da = aí; Sein = ser). O Dasein não escolhe as condições fundamentais de sua existência. No entanto, Heidegger não usa o termo simplesmente como sinônimo de "homem" ou "ser humano". Ele o emprega para destacar uma característica singular: o ser humano é aquele ente que se pergunta pelo próprio ser. Uma pedra existe, uma árvore existe, um animal vive, mas não podem questionar nada. O ser humano pode questionar e questionar-se: "Quem sou eu?", "Qual o sentido da minha existência?", "O que significa ser?".


A diferença entre a pedra e o Dasein não está no fato de um ser lançado e o outro não. A diferença está em como cada um existe. A pedra apenas cai. O Dasein, além de cair, percebe que caiu, pergunta por que caiu e, enquanto ainda está em pleno voo, precisa decidir o que fará com a própria trajetória. É isso que Heidegger diz em sua obra principal, “Ser e Tempo” (Sein und Zeit), ao definir o Dasein como o ente para o qual o seu próprio ser está em questão. Isso significa que nossa existência não é algo pronto e acabado; somos constantemente chamados a decidir o que fazer de nós mesmos.


Vamos analisar isso um pouco melhor? Veja algumas características fundamentais que esse filósofo dá ao Dasein: ele é “Ser-no-mundo” (In-der-Welt-sein), pois o ser humano não existe isolado, mas já nasce inserido em um mundo de relações, objetos, linguagem, cultura e história. De modo que ele, então, um “Ser-com-os-outros” (Mitsein), uma vez que a existência humana é sempre coexistência. Vivemos entre outros seres humanos. E aqui entra um elemento importante: ele possui “Temporalidade”. É isso aí, meu amigo, você se compreende a si mesmo a partir do passado, do presente e, sobretudo, das possibilidades futuras. Mas, ao falar de futuro, é preciso também saber que o Dasein é feito de uma “Finitude”: a consciência da morte é central. A morte não é apenas um acontecimento biológico futuro, mas uma possibilidade permanente que confere seriedade e singularidade à existência. Já pensou nela? Nunca? Então precisa pensar... caso contrário, podemos acabar sendo inconsequentes. Por isso que Heidegger nos lembra que outro elemento importante do Dasein é a “Autenticidade e inautenticidade”: podemos viver de forma autêntica, assumindo nossas próprias possibilidades, ou de forma inautêntica, simplesmente seguindo o que "todo mundo faz", sem pensar nas consequências de nossos atos. Não podemos esquecer que estamos no “horizonte das ultimidades”, como disse Julián Marías, em seu belo livro de introdução à filosofia. Diz ele: “Temos que nos ocupar das ultimidades, isto é, das questões últimas com as quais o homem tem que se haver, daqueles últimos planos de perspectiva vital que constituem seu horizonte escatológico” (1960, p. 343).


Isso porque, em uma formulação sintética, e bem simplista, o que Heidegger quer nos dizer é que o Dasein é o ente que existe compreendendo-se a si mesmo e interrogando o sentido do seu próprio ser. Traduzindo para o português do dia a dia: você entrou num jogo sem tutorial, mas, diferente da pedra, tem a missão de descobrir quem é o jogador e como quer jogar a partida. Mais o do que isso, é preciso deixar de pensar somente nos “entes” e pensar profundamente no “ser”. É aí que aparece uma das palavras mais importantes de Heidegger: o cuidado (Sorge). Não se trata apenas de "cuidar" no sentido de ser gentil ou prestativo. O cuidado é a própria maneira como existimos no mundo. Estamos sempre envolvidos com alguma coisa: preocupados com o futuro, ocupados com tarefas, ligados às pessoas, fazendo escolhas, assumindo responsabilidades e tentando dar algum sentido à vida. Existir é cuidar. Enquanto a pedra apenas ocupa um lugar no mundo, o ser humano vive cuidando do que faz, do que ama, do que teme, do que perdeu e, principalmente, do que ainda pode vir a ser. Em Heidegger, o cuidado não é uma virtude; é a estrutura da existência. Antes mesmo de cuidar de alguém, o ser humano já é cuidado, preocupação, projeto e responsabilidade. Em outras palavras: viver é estar inevitavelmente comprometido com alguma coisa — a questão é escolher com o quê.


A essa altura, uma dúvida pode aparecer: o que o "ser" tem a ver com o "cuidado"? Tudo! Para Heidegger, o modo de ser do ser humano é o cuidado. Isso significa que não existimos como uma pedra largada no chão ou como um objeto esquecido numa prateleira. Estamos sempre envolvidos com alguma coisa: terminando um trabalho, pensando na prova da semana que vem, preocupados com um amigo, sonhando com uma viagem, lamentando um erro do passado ou imaginando quem gostaríamos de ser. Mesmo quando dizemos "não estou nem aí para nada", já estamos nos importando... com o fato de não nos importarmos. Não há como escapar. Existir é estar comprometido com o mundo.

Para finalizar esse bate-papo “cabeça”, meu jovem, imagine uma mochila que você nunca consegue tirar das costas. Dentro dela estão sua história, seus sonhos, seus medos, suas escolhas, seus relacionamentos e suas responsabilidades. Você pode reclamar do peso, fingir que ela não existe ou aprender a carregá-la melhor. Essa mochila é o cuidado. Para Heidegger, viver é caminhar com ela.


Então, meu chapa, saia do tempo, do tempo dos objetos, que não passa de uma mera sucessão de fatos, linearidade sucessiva do viver, e entre na temporalidade, que é o tempo do Dasein: sinta-se o próprio tempo, que traz em si o passado, o presente e o futuro como bem reais. E aqui vem uma realidade assustadora: Ser é tempo e tempo é limitado, pelo menos para nós. Pensar nisso traz angústia? Ótimo! É esse sentimento que vai lhe empurrar e fazer com que você se importe um pouco mais consigo mesmo.


Para concluir, quase no final de “Ser e Tempo”, Heidegger diz: “O fenômeno existenciário do ser-descoberto, fundado na abertura do Dasein, torna-se propriedade subsistente, ainda abrigando em si um caráter-de-relação que como tal se desfaz, numa relação subsistente. A verdade como abertura e como ser-descobridor do ente descoberto, torna-se verdade como concordância entre subsistentes do interior-do-mundo” (2012, p. 620). Traduzindo o filosofês, imagine que você entra em um quarto completamente escuro. Enquanto não acende a luz, não faz sentido perguntar se a cadeira está "no lugar certo". Primeiro, ela precisa aparecer. Para Heidegger, a verdade começa exatamente aí: quando o mundo se mostra. Só depois é que podemos fazer afirmações sobre ele e verificar se estão certas ou erradas.


E aqui voltamos à pedra do início da conversa. Ela continua caindo, indiferente ao mundo e incapaz de perguntar qualquer coisa. Você, não. Mesmo que tenha sido lançado como ela, no entanto recebeu um privilégio — e um fardo — que ela jamais terá: o de pensar, de escolher, de errar, de recomeçar e de dar sentido à própria existência. Talvez essa seja a maior lição de Heidegger: não podemos escolher o fato de termos sido lançados no mundo, mas podemos escolher como atravessaremos esse voo. Afinal, enquanto a pedra apenas cai, o ser humano pode transformar a queda em um caminho e, nele, buscar uma vida extraordinária.

 
 
 

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