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Petrarca, Tomás de Aquino e o problema das trevas

Foto do escritor: WILSON ALVES DE PAIVA
WILSON ALVES DE PAIVA
23 de set.
9 min de leitura


Durante séculos, a Idade Média foi acusada de viver nas trevas. Mas será que o verdadeiro obscurantismo não está em nosso próprio tempo? Entre Petrarca e Tomás de Aquino, uma reflexão sobre razão, fé, gratidão e os limites da modernidade


Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva


“Nescius in tenebris liber est quo flectere cursum cogitet, et toto nullum videt aequore portum”.


Entendeu?


Se não entendeu, não se preocupe. Não é uma senha de Wi-Fi medieval nem uma atualização do sistema operacional romano. É apenas latim — que,  infelizmente, não estudamos mais nas escolas. Perdemos, pois trata-se da língua-base de nosso português e um dos idiomas mais belos de todos os tempos. Se a estudássemos, qualquer jovem compreenderia o texto e, com um pouco mais de estudo, que nos falta, saberia que se trata de um trecho do poema épico “África”, de Francesco Petrarca (1304–1374), o grande poeta italiano. Não vou arriscar a explorar o poema em sua estrutura literária, tentando dizer que ele foi escrito em hexâmetro dactílico, que vão pensar que estou falando grego. Não! Meu objetivo aqui é chamar sua atenção para um verso curioso, no qual o autor diz:

“Nescius in tenebris liber est quo flectere cursumcogitet, et toto nullum videt aequore portum”.Tradução aproximada:“Perdido nas trevas, não sabe para onde dirigir seu curso;e, em todo o mar, não vê porto algum”.

Perceberam o uso da palavra “tenebris” (que coloquei em negrito)? Nesse excerto ela aparece no “ablativo”. No “nominativo” a palavra ficaria: “tenebrae”. Mais uma vez, podem pensar que estou falando grego, mas não é, isso é puro latim. Rapidamente, para que entendam, essas mudanças são “declinações” (Declinação é a mudança na forma de uma palavra para indicar sua função na frase) e o ablativo indica lugar, meio, causa, respondendo a perguntas do tipo: onde? com quê? etc. O nominativo é o caso usado para o sujeito, isto é, quem pratica a ação ou de quem se fala. Vamos tomar o exemplo de Petrarca e dizer que vivemos em um período de trevas: no ablativo fica como está no poema: “In tenebris vivimus”; e no nominativo (no qual o termo “trevas” é o sujeito), fica: “Tenebrae regnant”. O que é fácil de deduzir, mesmo sem conhecimento do latim, que significa: “As trevas reinam”.  


Por que toda essa discussão complicada? Porque essa foi a leitura que o poeta fez de seu próprio tempo, vindo a repetir em outros poemas a ideia de que ele e seus contemporâneos viviam em um período de trevas, referindo-se à ignorância, à superstição, ao analfabetismo e à condição geral da cultura europeia. Para Petrarca, depois da queda de Roma a cultura entrou em modo avião durante alguns séculos, inaugurando assim uma era de ignorância. Essa foi a visão que reinou daí para frente e se fortaleceu nos séculos XVII e XVIII, quando os filósofos a elegeram como emblema para classificar a Idade Média, chamando-a de “idade das trevas”, enquanto proclamaram-se os responsáveis para trazer a luz à humanidade. Em outras palavras: eles se apresentaram como a geração que finalmente havia entendido tudo o que as anteriores não entenderam. Nenhuma semelhança com certas discussões das redes sociais é mera coincidência.

Daí o título de “iluministas” a esses intelectuais e o termo “Iluminismo” ao movimento que passou a defender o uso da razão como instrumento para compreender o mundo e melhorar a sociedade. O Iluminismo foi muito importante para nossa história, pois combateu abusos reais e contribuiu com diversas reflexões, mas grande parte dos “philosophes” exagerou ao retratar a Idade Média, principalmente ao defender que os problemas humanos e sociais decorriam da ignorância, da superstição, do fanatismo e de instituições tradicionais que não eram submetidas ao exame crítico das ciências e das artes. 


Terá sido isso mesmo? Na verdade, não, pois trata-se de um preconceito, pois hoje sabemos que essa interpretação é profundamente simplificadora. A Idade Média nunca foi de trevas, como às vezes ainda se estuda nas escolas, mas um período de rica produção artística e intelectual. As pesquisas mais recentes, conduzidas por ponderados historiadores, mostram que o Medievo foi um período muito mais complexo. Além disso, sobram as “testemunhas”, tais como as grandes catedrais, cuja arquitetura nos impressiona até hoje; as primeiras universidades, como a de Bolonha (1088), Oxford (1096), Paris (1150), Salamanca (1218), entre outras; além de grandes debates filosóficos, como os conduzidos por pensadores do nível de Tomás de Aquino (1225–1274), Pedro Abelardo (1079–1142), João Duns Escoto (c. 1266–1308), e Guilherme de Ockham (c. 1287–1347). 


Se ampliarmos nossa lupa, vamos descobrir pensadores que defendiam coisas de arrepiar os cabelos. Por exemplo, imagine descobrir que um pensador do século XV já especulava sobre vida em outros planetas. Muita gente que considera a Idade Média atrasada acredita em extraterrestres; Nicolau de Cusa (1401–1464) pelo menos tentou construir um argumento filosófico para isso, antes mesmo de Copérnico e Galileu, sugerindo que extraterrestres poderiam existir ao especular que o universo poderia ser muito maior do que se imaginava e que outros mundos poderiam ser habitados. Ou seja, para quem vive na era dos filmes de ficção científica e da busca por exoplanetas habitados e OVNIs, é impressionante pensar que um filósofo há quase 600 anos já refletia sobre a possibilidade de vida em outros mundos. 


Mas entre todos esses pensadores, um deles me chama a atenção por um motivo especial: não por ter discutido as estrelas, mas por ter refletido sobre algo aparentemente simples e profundamente humano: a gratidão. Refiro-me a Tomás de Aquino, o doutor da Igreja que ousou incorporar a filosofia de Aristóteles ao pensamento cristão, construindo uma das sínteses intelectuais mais impressionantes da história ocidental. Em vez de rejeitar a razão, procurou mostrar que ela poderia dialogar com a fé. Ora, por que esses domínios não podem dialogar? Talvez porque nos acostumamos a imaginar que a história do pensamento é uma espécie de ringue em que fé e razão devem se enfrentar até que uma delas seja declarada vencedora. Há quem proclame, com a solenidade dos antigos profetas, que a ciência finalmente decretou a morte da fé. Curiosamente, essa afirmação costuma ser feita com uma fé admirável na própria ciência. Trocam-se os dogmas, mudam-se os sacerdotes, substituem-se os altares pelos laboratórios, mas permanece intacta a convicção de que uma única chave explicará todos os mistérios do universo. A diferença é que os antigos sacerdotes usavam túnicas; os modernos costumam usar jalecos, planilhas, estatísticas e gráficos em PowerPoint.


Tomás de Aquino jamais concordaria que viviam em trevas e provavelmente olharia para essa disputa com certa estranheza — talvez até com um leve suspiro medieval de quem já viu esse filme antes. Para ele, a razão não era coisa pequena demais para ser descartada, nem a fé algo tão estreito que pudesse ser confundido com superstição de ocasião. No fundo, a questão parece escorregar por um equívoco recorrente: explicar como algo funciona não é o mesmo que dizer por que isso existe — ou, pior ainda, fingir que a pergunta pelo sentido é um erro de método. A ciência pode dissecar as lágrimas e listar sua composição química com precisão impecável. O que ela não consegue, e talvez nem se proponha a isso, é medir saudade, esperança ou o peso silencioso de uma vida que se pergunta por si mesma. O problema não está na ciência, que continua sendo uma das maiores conquistas humanas, mas na fantasia um pouco apressada de que ela, sozinha, daria conta de todas as perguntas que insistem em escapar do microscópio.


Em sua magna obra, a Suma Teológica, há uma discussão sobre a Gratidão, apresentada na Questão 106: Do reconhecimento ou gratidão, o qual parte de um conjunto maior de questões que os comentadores costumam chamar de tratado das virtudes anexas à justiça, na Segunda Parte da Segunda Parte (Secunda Secundae ou IIa-IIae). Aqui, no seu habitual estilo que mistura rigor lógico com um certo gosto por dissecar problemas morais até o osso, ele opera como um filósofo que conversa com Sócrates e Aristóteles ao mesmo tempo. Como de costume, ele começa pela porta da dúvida: levanta uma objeção aparentemente simples e incômoda: a de que a gratidão não pareceria uma virtude propriamente distinta das demais. Se é assim, por que exatamente seríamos moralmente obrigados a agradecer pelos benefícios que recebemos? Afinal, não basta reconhecer o bem recebido sem transformar isso em dever? Uma pergunta e tanto, não é? A questão, disfarçada de detalhe técnico, é na verdade bem mais espinhosa do que parece: o que torna o “obrigado” algo mais do que um gesto educado — e menos do que uma obrigação estritamente jurídica?


Isso me faz lembrar de um vídeo do professor português António Nóvoa, em uma de suas inúmeras palestras, na qual se reporta aos três níveis da gratidão de Tomás de Aquino e o exemplifica nas expressões do agradecimento, o qual resumirei aqui: O primeiro nível é o mais superficial, que é o nível do reconhecimento cognitivo, como dizem os anglofônicos: Thank you; o nível intermediário é o de dar graças a alguém, como dizem os hispânicos: Gracias, e os franceses com seu Merci (de mercês) ; e, por fim, o nível mais profundo, que é o nível do vínculo, como dizemos nós, os povos lusitanos: Obrigado. Isto é, estando nós no terceiro nível da gratidão, podemos entender que ao agradecer, ficamos vinculados e comprometidos (obrigados) com a pessoa que nos fez um favor, deu-nos uma atenção, fez-nos um convite ou uma graça qualquer. Interessante que a palavra gratia, em latim, significa “favor”, “benevolência”, mas também “reconhecimento” e “gratidão”, por isso damos graças por algo e os hispânicos dizem “gracias”. 


Por que tudo isso é importante? Ora, porque nunca se falou tanto em gratidão quanto se fala hoje em dia. Ela aparece em camisetas, canecas, vídeos motivacionais e legendas de Instagram, TikTok e outros aplicativos. Curiosamente, quanto mais a palavra circula, mais difícil parece encontrar a coisa em si. Fruto de uma cultura massificada, o termo não passa disso: um produto da indústria cultural, como diria Theodor Adorno, cuja expressão é repetida irrefletidamente e dá muito lucro a quem a explora. À maneira de Tomás de Aquino, é preciso perguntar: há de fato gratidão, em qualquer nível que seja? Talvez a verdadeira gratidão seja justamente aquilo que não aparece nas redes sociais. Ela se manifesta na memória fiel dos benefícios recebidos, no reconhecimento sincero de quem nos ajudou a crescer e na disposição de retribuir o bem que recebemos. É fácil estampar a palavra em uma camiseta; mais difícil é reconhecer que não nos fizemos sozinhos, que somos devedores de nossos pais, mestres, amigos e de tantos outros que contribuíram para aquilo que somos, sem esquecer do Criador (diria o Aquinate), o doador da vida. A gratidão autêntica não é um slogan, mas uma forma de compreender a própria vida. Ela nos lembra que a existência humana não é construída apenas pela autonomia, mas também pelos vínculos que nos sustentam e pelas graças que recebemos ao longo do caminho.


No entanto, ao olharmos ao redor, vemos sinais preocupantes de ingratidão em nossa época, quando os filhos não são gratos a seus pais, quando alunos entram em sala sem sequer dar um “bom dia” aos colegas e ao professor, quando o “obrigado” vira uma palavra mecânica pronunciada por hábito e não por gratidão. Acostumamo-nos a receber tudo como se tudo nos fosse devido. Esquecemos que ninguém chega sozinho a lugar algum, que toda existência humana é tecida por benefícios recebidos, sacrifícios alheios e gestos de generosidade que não podem ser pagos na mesma moeda. Talvez a maior pobreza de nosso tempo não seja material, mas moral: a incapacidade de reconhecer que somos devedores de inúmeros dons e que a gratidão, longe de ser uma formalidade social, é uma das bases da convivência humana e de nossa transcendência. Afinal, como ensinava Tomás de Aquino, quando desaparece o reconhecimento do bem recebido, enfraquecem-se também os vínculos que sustentam a amizade, a justiça e a própria vida em comunidade. E isso é tão sério que ele considerava a ingratidão como um “pecado”, como discute em sua Questão 107.


De modo que, para concluir, com tamanha discussão, é impossível concordar com Petrarca e classificar essa era de tenebrosa. Talvez o verdadeiro obscurantismo não esteja em admitir que existem mistérios, mas em acreditar que tudo o que não cabe em uma planilha ou em uma lâmina de microscópio simplesmente não existe. Se chegamos a esse ponto, então a obscuridade já não é medieval — é contemporânea. O paradoxo de nosso tempo talvez seja justamente este: dispomos de mais luzes do que nunca e, ainda assim, nem sempre sabemos para qual porto dirigir o curso (como diz o poema de Petrarca).

Em outras palavras, talvez as trevas não sejam a falta de informação — afinal, nunca tivemos tanta —, mas a perda de critério para orientá-la. As trevas começam quando já não sabemos o que fazer com a luz. Um navio perdido não precisa apenas de claridade: precisa de direção. E, para além da metáfora, talvez precise também de memória — isto é, da capacidade de reconhecer o que recebeu ao longo do caminho e de deixar algo digno de gratidão à sua própria posteridade, como no velho enigma do navio de Teseu. Por isso, talvez não baste iluminar o mundo; é preciso também aprender a habitá-lo. E isso inclui, em múltiplos níveis e formas, aquilo que Tomás de Aquino chamaria de reconhecimento do bem recebido: a gratidão.

 
 
 

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