Pigmalião e Galatéia no teatro filosófico
Atualizado: 4 de out.

Neste ensaio o autor revisita os mitos de Pigmalião na tradição grega e romana, entre a criação artística e a destruição pelo poder. Com humor e reflexão, mostra como esses antigos dramas continuam a ecoar na vida contemporânea

Entre a pedra e o sangue
Versão musical no final do texto
Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva
Preâmbulo
Talvez poucos tenham ouvido falar de Pigmalião, ou Pigmaleão, ou Pygmalion, como queira, não importa a grafia, o que importa é a figura e sua obra perfeita, chamada de Galateia. Vários filósofos de diferentes épocas comentaram, analisaram ou utilizaram esse mito para refletir sobre várias coisas, como arte, forma, idealização, eros, técnica e criação. Aliás, essa discussão é mesmo bem antiga e remonta a Platão, o qual não aborda o mito diretamente, mas discute o poder das imagens e a relação entre o ideal e o sensível — questões que depois se tornaram centrais nas interpretações dessa história. O simbolismo de Pigmalião, especialmente a busca do ideal perfeito da arte, seja da escultura, da pintura, da linguagem ou de qualquer outra que ajuda no processo civilizatório, tem origem no pensamento platônico sobre a mimesis, o eros e o ideal de beleza. Pode-se dizer, portanto, que Pigmalião encarna o drama eterno do criador diante da própria obra: o momento em que a arte deixa de ser apenas forma e passa a exigir vida, confundindo desejo, ideal e realidade. E é sobre isso que vamos conversar hoje, usando dois “causos” em forma de encenações teatrais.
Imagine-te, caro leitor, em um teatro, no qual diversas cenas serão apresentadas. No livro que vou lançar, discutirei várias delas, mas neste pequeno ensaio, apenas duas delas (em um só ato) e, por fim, comentá-las. Vejamos:
Ato 1 – O mundo antigo
Ao abrir as cortinas, quem fala são os principais ancestrais de nossa cultura e civilização: os gregos e os romanos.
Cena I – Os gregos
O narrador entra em cena, acompanhado por um discreto tocador de lira, observa o público, sorri de canto, dá sinal ao músico e começa
ALGUM POETA GREGO (falando de modo eloquente):
Em uma ilha chamada Chipre, bem no meio do Mediterrâneo, reinou por muito tempo uma deusa poderosa: Afrodite.
O discurso do poeta é longo e não vou reproduzir aqui. Resumidamente, disse que todos adoram a deusa do amor, do desejo e da beleza, pois é ela que faz os humanos perderem o juízo… e, convenhamos, até alguns deuses. Ele informou que nessa ilha vivia um escultor, devoto fervoroso da magnífica deusa: Pigmalião. Há muitas controvérsias, pois alguns juram que ele foi rei de Chipre, outros garantem que não passou de um régulo ou um artesão. Embora o poeta não dê detalhes, isso pouco importa. O que importa mesmo é que esse artista esculpiu a figura nua de uma mulher — porque, claro, tinha que ser nua — caprichando em cada detalhe. O resultado? Uma estátua tão bela, tão perfeita, que o escultor se apaixonou por ela. Loucura? Sem dúvida. Mas não uma loucura qualquer: uma loucura mitológica, daquelas que entram para a história. O artista ficou tão vidrado com sua obra que até lhe deu um nome: Galateia.
Continuemos a narrar e a discutir esse “causo” sem o poeta: Tomado por esse amor improvável, o escultor foi aos pés de Afrodite e rogou que a deusa desse vida à sua obra. E não é que Afrodite ouviu mesmo o sujeito, dando corda à sua pinoia, e concedeu o pedido? A arte virou carne, a estátua virou mulher. Pigmalião uniu-se a ela e dessa união nasceu Pafos, que gerou Cíniras, fundador da cidade de Pafos, que se tornaria um grande santuário dedicado, claro, à própria Afrodite.
A cidade existe até hoje. Há disputas sobre quem, afinal, a fundou. Mas uma coisa parece certa: Afrodite perdeu essa batalha. Porque séculos depois, já sob domínio romano, passou por ali um homem chamado Paulo, apóstolo. Ele pregou o evangelho, colocou o mago Elimas em seu devido lugar, converteu o procônsul e, simbolicamente, passou a perna na deusa. Onde reinava Afrodite, passou a dominar outra forma de ver as coisas: não mais a do Eros divinizado, mas a da fé em Cristo.
E assim, senhoras e senhores (percebam, leitores, que já tomei o lugar do poeta), chegamos ao presente: hoje, quase ninguém se lembra dela. Afinal, a ilha mudou de deusa… e de história.
(Luzes diminuem. Fim da cena)
Cena II – Os romanos
Momento primeiro
(Luzes se acendem lentamente. Entra em cena VIRGÍLIO, com um rolo de pergaminho nas mãos. Ele olha o público como quem já conhece o fim da história, mas vai contar mesmo assim.)
VIRGÍLIO
Após a queda de Troia, senhores e senhoras, não sobra glória, mas sobra o mar. Eneias, com seus companheiros, vaga pelas águas em busca da terra prometida, o tão falado Lácio, onde sonha refundar Troia com outro nome e outro destino. Mas os deuses… ah, os deuses não facilitam. Juno, que não suporta os troianos, levanta uma tempestade feroz. Os navios se espalham, rangem, quase afundam. E Eneias, exausto, vai dar não se sabe onde.
(Pausa. Virgílio aponta para o chão do palco)
Aqui. África. E ali nasce Cartago.
Enquanto os mortais lutam para não morrer, no alto do Olimpo a conversa é outra. Vênus, mãe aflita, queixa-se a Júpiter: “É esse o destino do meu filho?”. Júpiter, sereno, responde com autoridade: o destino não se discute. Eneias chegará à Itália. Seus descendentes fundarão Roma e governarão o mundo. Juno que reclame, o destino que manda. Manda quem pode, obedece quem tem juízo (esta frase é minha, não é de Virgílio).
(Com leve ironia)
Júpiter decreta: Rômulo acolherá os troianos, Remo ajudará nas leis, e dessa mistura nascerá César, “troiano de bela origem”. Está dito. Está decidido.
(O tom escurece)
Mas destino não vem sem sangue. Ao chegar à Itália, Eneias entra em conflito com os povos locais, sobretudo com Turno, chefe dos rútulos. Há batalhas, alianças frágeis, mortes demais. No fim, Eneias vence Turno em combate singular. Hesita… e mata. Porque o destino exige. A epopeia termina sem festa: Roma ainda não existe, mas seu futuro já está garantido — à custa de violência, renúncia e sofrimento.
(Virgílio fecha o pergaminho, dá alguns passos e encara o público)
E o que tudo isso tem a ver com Pigmalião? Boa pergunta. No Livro I da Eneida, eu cito esse nome — mas não o do escultor apaixonado pela própria obra. Nada disso. Este Pigmalião é rei de Tiro, homem sagaz e cruel, que chega ao poder matando Siqueu, esposo de sua própria irmã, Dido. É esse crime que empurra Dido para o exílio, a qual parte chefiando a expedição com tesouros surrupiados do novo rei, ajudados pelo vento Euro (quem diria que depois ele viraria dinheiro) e que faz Cartago existir.
(Pausa)
E vejam só: sem Pigmalião (o mais célebre de todos os homens), não há Dido (cuja liderança feminina se destaca). Sem Dido, não há Cartago (e não Pafos) e nem o templo que ela mandou edificar a Juno (que corresponde a Hera, esposa de Zeus), onde recebe os navegantes de Eneias e ouve falar de Hespéria, na região do Lácio. É por isso que sem Cartago… a história de Roma seria outra.
(Luzes diminuem. Fim da cena)
Análise:
Os dois Pigmaliões representam extremos quase opostos do imaginário antigo. O Pigmalião escultor encarna o poder criador da arte e do desejo: ele dá forma ao ideal e, movido pelo amor, pede aos deuses que a obra ganhe vida. Já o Pigmalião da Eneida, rei de Tiro, não cria, mas destrói; não move-se pelo amor, e sim pela ganância e pelo poder, assassinando o cunhado e rompendo os laços familiares. Um transforma a matéria em vida; o outro transforma a família em ruína — e ambos, curiosamente, acabam colocando a história em movimento. Concorda, meu caro leitor?
E o que isso tem a ver conosco, nos dias de hoje? Muita coisa, certamente. Vejamos: Os dois Pigmaliões, colocados lado a lado nesse “teatro dos filósofos”, não são apenas figuras do passado; são arquétipos, modelos, que continuam a habitar o nosso presente. Eles revelam duas forças fundamentais da condição humana: a capacidade de criar, que é algo fantástico que, inclusive, os gregos chamavam de poiesis; mas, por outro lado, a tentação de destruir e/ou de alienar-se à própria criação — todas movidas por desejos profundos, nem sempre conscientes.
O Pigmalião escultor nos fala de um impulso que permanece vivo hoje: o desejo de dar forma ao ideal. Em tempos contemporâneos, isso se manifesta de múltiplas maneiras, como na arte, certamente, mas também na tecnologia, nas redes sociais, na construção de identidades e até nas relações afetivas. Nunca foi tão fácil “esculpir” imagens (principalmente com ajuda da IA): perfis, avatares, corpos idealizados, vidas editadas. Como o escultor de Chipre, o ser humano atual continua apaixonando-se por suas próprias criações. A diferença é que, agora, a “Galateia” não é apenas uma estátua de marfim, mas pode ser uma imagem digital, um projeto de vida, ou até a expectativa irreal depositada sobre outra pessoa.
E aqui surge um ponto decisivo: o mito nos adverte sobre o risco de confundir o ideal com o real. Quando aquilo que criamos, podendo ser uma obra, uma ideia ou uma imagem, um blog/vlog etc., passa a ser mais vivo do que nós, exigindo mais tempo, perfeição, projeção... aí, eu caro, entramos em uma zona perigosa. Quantas frustrações contemporâneas não nascem exatamente desse desencontro entre o que idealizamos e o que o mundo efetivamente é? O amor de Pigmalião pode ser lido, hoje, como metáfora de relações marcadas por projeções, onde o outro deixa de ser outro e passa a ser apenas suporte de nossas fantasias, projetadas, principalmente, nas redes sociais. Essas redes viram uma Galateia nefasta, sugadora de vidas.
Por outro lado, o Pigmalião da Eneida nos lembra que nem toda força que move a história é criadora. Há também impulsos de dominação, ruptura e violência que estruturam o mundo social e político. Sua ação — o assassinato, a traição, a ruptura dos vínculos — ecoa em dinâmicas que ainda reconhecemos: projetos de poder que se constroem sobre a destruição de laços, a instrumentalização do outro e a negação de qualquer ética que limite a ambição. Se o primeiro Pigmalião sofre por amar demais o que cria, o segundo revela o que acontece quando o desejo se separa completamente de qualquer forma de cuidado.
Entre esses dois polos — criação idealizante e destruição interessada — situa-se o ser humano contemporâneo. Somos, ao mesmo tempo, capazes de produzir beleza e sentido, mas também de romper, explorar e reduzir o outro a objeto. Talvez a grande questão que o mito nos deixa não seja escolher entre um e outro, mas reconhecer em nós a presença de ambos e que não podemos ser dominadas por nenhuma Galateia, seja ela produto de nossas mãos ou da de outros.
Nesse sentido, o antigo drama entre art
e, desejo e realidade permanece atual: como criar sem se iludir? Como desejar sem destruir? Como reconhecer a beleza sem perder de vista a imperfeição constitutiva da vida? O teatro se fecha, mas a peça continua — agora, não mais no palco dos gregos ou dos romanos, mas no cotidiano de cada um de nós.



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