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Platão e a rinha com os poetas

Foto do escritor: WILSON ALVES DE PAIVA
WILSON ALVES DE PAIVA
28 de set.
10 min de leitura

Atualizado: 4 de out.


Platão entrou em uma verdadeira rinha com os poetas. Para ele, a poesia podia encantar, mas também influenciar a alma e a educação.E a pergunta continua atual: quem está pensando por você — você ou o algoritmo?



Ô Platão, Platão...

Versão musical no final do texto


Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva


No auge da filosofia grega, cujo epicentro foi a cidade de Atenas entre os séculos V e IV a.C., os desentendimentos eram comuns. Sócrates, o grande filósofo inventou uma forma de dialogar com as pessoas, que as provocava com infindáveis questionamentos e, certamente, causava incômodo e raiva. Ele chamou esse método de maiêutica, cuja significação vem da palavra maieutiké (μαιευτική), que significa “arte da parteira”, inspirado em sua mãe que auxiliava as mulheres em seu trabalho de parto. Olhando aquilo, Sócrates pensou: “Pô, eu também faço isso! Não com bebê, mas com ideias”. Ele se referia, obviamente, ao “parto” das ideias e da compreensão da realidade. O problema é que ao questionar a todos, ele tentava aplicar seu método provocando as pessoas, inclusive os figurões da época. E isso criava frequentemente desconforto, irritação e até hostilidade entre seus contemporâneos que eram abordados por ele e colocados no canto da parede, revelando sua ignorância.


Platão, o discípulo mais fervoroso de Sócrates, registrou bem essa situação. Um exemplo disso está no diálogo Hípias Maior, quando perambulando pelas ruas de Atenas, eis que Sócrates e seus discípulos dão de cara com Hípias de Élis, que era um sofista muito conhecido por sua enorme erudição, autoconfiança e habilidade retórica  — ou seja, um figurão. Sem perda de tempo, o filósofo engata um diálogo, iniciando com efusivos elogios à pessoa de seu interlocutor e à sua atividade pública (esperto, não?). Conversa vai, conversa vem, logo o sofista deixa soltar a palavra “bela” para qualificar sua ocupação. Fatal! Caiu na armadilha! Sócrates interroga o sujeito o que significava ser bela, ou seja, o que era a natureza do belo, e se ele existia, certamente também existia o feio. Sócrates, claro, fez aquela cara de quem não sabia e queria aprender — era essa sua mania, a qual advinha da famosa frase: “só sei que nada sei”.


Não percebendo a tramoia, o sofista tentar responder com exemplos e não com conceitos, que era o que Sócrates esperava ouvir. Não satisfeito, Sócrates estica a conversa e o papo se alonga até que o pobre sofista desiste e vai embora. O coitado até que tentou, ao longo do debate, apresentar algumas respostas: “o belo está em uma distinta jovem”; “o belo é o ouro”; “o belo é uma panela excepcional”, “o belo é o útil”; etc. Mas suas respostas foram todas refutadas por Sócrates. Não é difícil imaginar a cena (que não está no livro): o figurão, aparentemente irritado, diz ter um compromisso importante, já está atrasado e vai embora sem responder à questão. Em outras palavras, o diálogo termina em uma aporia: uma espécie de impasse filosófico, pois eles não chegaram a uma definição final do que seria o Belo. Uma treta e tanto, não é? Mas era assim que vivia Atenas, repleta de conversas, debates e rinhas.


No entanto, a rinha que quero discutir aqui não é de Sócrates, mas de seu aluno Platão, que está em A República. Essa obra é basicamente uma maratona de debates em torno de uma questão aparentemente simples, mas capaz de destruir amizades em qualquer mesa de bar filosófica: “o que é a justiça?”. A partir daí, o diálogo vira uma mistura sofisticada de teoria política, metafísica, pedagogia, psicologia e crítica social, onde o autor sugere que a maioria das pessoas vive presa num grande teatro de aparências — o famoso “Mito da Caverna” — enquanto o filósofo é aquele sujeito inconveniente que insiste em sair da escuridão cavernosa, ver a luz e depois voltar para libertar os demais, ao contar-lhes que estão confundindo sombra com realidade. No fundo, o que Platão deixa transparecer é que era exatamente isso que Sócrates tentava fazer ao perambular pelas ruas e arredores de Atenas.


A República é a descrição de um desses diálogos maiêuticos, em cujo diálogo se desenvolve uma obra na qual é possível prospectar um projeto radical de sociedade ideal que seja governada por filósofos. O que até hoje faz muita gente pensar, por um lado, que é genial; mas por outro, que esse tipo de coisa, colocada na prática, daria um problema enorme, por diversas razões. Uma delas é que ele diz claramente, no Livro X dessa obra, que nessa utópica sociedade os poetas não teriam vez, pois não seriam admitidos ou então seriam expulsos dela — ou ainda, na linguagem maiêutica, abortados para não nascer, crescer e dar trabalho. Ora, por que esse filósofo falou isso? Por que quis criar problemas com os poetas? A poesia não era uma arte valorizada?


Bem, para entender seu ponto de vista, precisamos explicar a coisa por partes: Platão ia muito bem, conduzindo a escrita do diálogo entre Sócrates e seus interlocutores, quando resolveu mexer em um vespeiro que, convenhamos, já era antigo: a relação entre a poesia, a educação e a verdade. Afinal, os gregos não brincavam em serviço quando o assunto era poesia. Homero e Hesíodo eram praticamente os professores culturais dos gregos e mestres da civilização. Seus versos ensinavam sobre os deuses, os heróis, as guerras, as virtudes, os vícios e até sobre como se comportar diante das dificuldades da vida. Era por meio dessas narrativas que muitas crianças aprendiam a reconhecer o certo e o errado. Em outras palavras, antes de existir uma disciplina chamada Filosofia, já havia muita gente aprendendo a pensar, ou, pelo menos, a repetir versos de Homero e de outros poetas.


O problema, para Platão, é que nem tudo o que os poetas contavam era necessariamente verdadeiro ou bom para a formação dos cidadãos. Por exemplo, em seus poemas, os deuses frequentemente apareciam mentindo, enganando, brigando, traindo e cometendo todo tipo de barbaridade. Ora, se os deuses deveriam ser os modelos de perfeição, como poderiam servir de exemplo para comportamentos tão pouco exemplares? Platão olha para isso e parece dizer: “Peraí, vocês estão ensinando as crianças que os deuses fazem essas coisas e depois querem que elas sejam virtuosas? Assim fica difícil!”.


A questão, portanto, não era simplesmente uma implicância pessoal com Homero ou com os poetas de plantão. Platão estava preocupado com o poder educativo das narrativas. Ele sabia bem que aquilo que ouvimos, lemos e imaginamos não passa por nós sem deixar marcas. As histórias formam hábitos, sentimentos, desejos e maneiras de compreender o mundo. Se uma criança cresce ouvindo que a injustiça é vantajosa, que os bandidos se saem bem, que os heróis são movidos pela vingança ou que os deuses são tão trapaceiros quanto os homens, talvez acabe incorporando essas imagens como referências para sua própria vida. E Platão, que queria construir uma cidade justa, não estava disposto a deixar a educação moral nas mãos de qualquer contador de histórias. Entendeu?


É nesse contexto que chegamos ao Livro X de A República, onde a discussão sobre a poesia ganha contornos bem radicais. Sócrates retoma a questão da mímesis, ou imitação, e apresenta um argumento que parece simples, mas que provocou séculos de debates: o poeta imitador não produz necessariamente a verdade sobre as coisas; ele produz imagens delas. E, para Platão, há uma diferença enorme entre conhecer aquilo que algo é e simplesmente apresentar uma aparência convincente desse algo. O poeta pode falar sobre cavalos sem saber cuidar de um cavalo, sobre medicina sem ser médico e sobre política sem jamais ter governado uma cidade. Pode até descrever uma batalha com tanta emoção que o leitor se sinta no meio dela. Mas será que isso significa que ele conhece verdadeiramente a guerra?


Platão recorre então ao famoso exemplo das três camas. Existe, primeiro, a ideia de cama, que pertence ao domínio inteligível e serve de modelo para todas as camas possíveis. Depois, existe a cama concreta, fabricada pelo artesão, que procura realizar essa ideia na matéria. Por fim, existe a cama pintada pelo artista, que não é uma cama utilizável, mas apenas a imagem de uma cama. O pintor, portanto, está três vezes distante da verdade, segundo a lógica platônica. Ele não fabrica o objeto nem conhece necessariamente sua essência: apenas reproduz sua aparência. É como fotografar um prato de comida e depois tentar matar a fome olhando para a fotografia. A imagem pode ser bonita, mas não alimenta ninguém (pode parecer radical esse exemplo, mas é isso mesmo!).


O poeta imitador estaria em situação semelhante. Ele representa paixões, conflitos, sofrimentos e comportamentos humanos, mas não necessariamente compreende a natureza daquilo que representa. E o problema se agrava quando a poesia não apenas mostra as paixões, mas também as desperta e as fortalece no público. Para Platão, assistir a uma tragédia pode nos levar a sentir prazer com o sofrimento, a admirar a vingança ou a dar espaço excessivo às emoções que deveriam ser governadas pela razão. O espectador chora, vibra, sofre junto com o personagem e, ao sair do teatro, talvez leve consigo um pouco daquela desordem interior. E aqui está o ponto central da crítica: a poesia pode ser artisticamente bela e, ao mesmo tempo, prejudicial à formação moral. Uma obra pode encantar os ouvidos, provocar lágrimas e arrancar aplausos, mas isso não garante que ela conduza a alma para a verdade ou para a justiça. Platão desconfia justamente desse poder de sedução. O poeta sabe tocar as emoções, mas nem sempre sabe orientar a razão. E, para quem pretende construir uma cidade governada por filósofos, isso é um problema e tanto.


Agora imaginem quando suas ideias vieram a público! Não é difícil imaginar a reação dos poetas. Afinal, depois de séculos contando histórias, cantando façanhas e emocionando multidões, chega um sujeito dizendo que eles deveriam ser expulsos da cidade ideal. É quase como se alguém aparecesse hoje em uma reunião de escritores ou cantores e anunciasse: “Senhores, agradeço o trabalho de vocês, mas a partir de agora a literatura e a música estão suspensas por motivos de saúde pública da alma”. A ringue estaria armado, não é mesmo?


Mas Platão não termina a discussão simplesmente decretando que toda poesia é inútil. Ele reconhece o encanto da poesia e admite que ela possui uma força extraordinária sobre os seres humanos. O que ele exige é que essa força seja submetida ao exame da razão. Se a poesia puder demonstrar que é útil à formação dos cidadãos e que contribui para a verdade e a justiça, poderá reivindicar seu lugar. Caso contrário, deverá permanecer fora da cidade ideal.


E aqui chegamos a uma das grandes ironias da história da filosofia: Platão critica os poetas, mas escreve filosofia como quem compõe literatura. Seus diálogos têm personagens, cenas, conflitos, discursos, metáforas, mitos e até momentos de suspense. Sócrates não aparece apenas como um professor que apresenta conceitos; ele é um personagem que caminha, conversa, provoca, ironiza e conduz seus interlocutores por uma verdadeira encenação filosófica. O que acontece é que Platão não abandona a arte de contar histórias, mas a transforma em instrumento de investigação filosófica. Então, bem aí é que a treta fica bem interessante. Platão não está simplesmente dizendo que a arte deve desaparecer, mas que ela não pode ocupar o lugar da verdade sem ser questionada. O poeta pode criar imagens poderosas, mas o filósofo quer saber o que existe por trás delas. Pode ser que a poesia nos ajude a compreender a condição humana; pode ser também que nos encante a ponto de nos fazer esquecer de pensar.


Quem passou pelo Ensino Médio e estudou o romantismo talvez se lembre de alguns de seus grandes poetas: John Keats, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Castro Alves e Fagundes Varela. Muitos deles morreram muito jovens, em uma época em que a medicina ainda não dispunha de antibióticos, de tratamentos eficazes contra a tuberculose ou dos recursos modernos de diagnóstico. É claro que não morreram jovens simplesmente porque eram românticos, mas, em alguns casos, suas doenças, suas condições de vida e a própria sensibilidade melancólica que marcou parte dessa geração ajudam a compreender o contexto de suas vidas e de suas mortes. E aqui está o ponto que nos aproxima de Platão: se a poesia não apenas expressa aquilo que sentimos, mas também pode influenciar nosso modo de pensar, sentir e até de enxergar a própria vida, então ela deixa de ser um simples passatempo. Para ele, a poesia, sobretudo a poesia imitativa, atua sobre a alma: desperta paixões, intensifica emoções, oferece modelos de comportamento e pode enfraquecer a capacidade racional de julgar. Por isso, sua preocupação com os poetas é, ao mesmo tempo, psicológica e política. A questão central nessa rinha, não é simplesmente a de expulsar ou acolher os poetas, mas perguntar: o que a arte faz conosco quando nos deixamos levar por ela?


Essa pergunta, caro leitor, continua bastante atual. Afinal, hoje também vivemos cercados de imagens, narrativas, filmes, vídeos, canções, personagens e discursos que disputam nossa atenção e, de quebra, vão moldando nossos desejos. Platão talvez não reconhecesse uma rede social, mas certamente reconheceria o poder de uma imagem, de um vídeo ou de uma postagem capaz de nos convencer de que a aparência é a realidade.


Portanto, o “poeta” de hoje não precisa escrever sonetos nem andar por aí suspirando para a Lua. Talvez seja mais interessante pensar em quem, como os poetas da época de Platão, produz imagens, narrativas e modelos capazes de influenciar a maneira como as pessoas pensam, sentem e enxergam o mundo. Nesse sentido, o sujeito do TikTok, a influencer do Instagram, o youtuber, o memeiro ou qualquer outro criador de conteúdo podem desempenhar, em parte, uma função semelhante àquela que Platão atribuía aos poetas: não porque sejam literalmente poetas, mas porque suas criações também podem mexer com a cabeça de milhares de pessoas. A diferença é que, na Atenas de Platão, o poeta precisava de uma lira, de uma praça e de uma plateia; hoje, basta um celular, uma boa edição e alguns segundos para fisgar nossa atenção. A rinha, portanto, não acabou: apenas ganhou uma conexão mais rápida. E talvez Platão tivesse uma última pergunta para nós: quem está pensando e definindo sua pessoa? você ou o algoritmo que escolheu a próxima postagem?


Mas calma!


Isso não significa que precisamos sair por aí expulsando poetas, cancelando artistas ou proibindo vídeos. A imagem platônica da expulsão pode ser lida menos como um programa político para ser aplicado ao pé da letra e mais como uma provocação filosófica sobre o poder da arte. O que importa não é banir quem cria, mas perceber o que suas criações fazem conosco. Toda narrativa carrega uma força “poética”: pode despertar desejos, provocar sentimentos, criar modelos, mudar nossa maneira de olhar e até nos fazer acreditar que aquilo que aparece diante dos olhos é a própria realidade. No fim das contas, Platão talvez não esteja pedindo que acabemos com a poesia, mas que não sejamos ingênuos diante dela. Podemos rir, chorar, curtir, compartilhar e até viciar naquele vídeo de três minutos — mas, de vez em quando, convém perguntar: o que tudo isso está fazendo comigo? Afinal, se a arte tem o poder de mexer com nossa alma, pensar sobre ela talvez seja a melhor maneira de não deixar que ela pense por nós.






 
 
 

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DIOGO  DE ASSIS MOREIRA
DIOGO DE ASSIS MOREIRA
há 5 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Interessante reflexão filosófica sobre o problema da poesia imitativa a qual o pensamento socrático platônico faz um contraponto em defender que ela não se reduz ao fato de o poeta não possuir necessariamente conhecimento verdadeiro daquilo que imita. Há uma segunda questão, ou seja, a imitação atua sobre a parte emocional da alma e pode habituá-la a determinados modos de sentir e agir. Por isso, a poesia possui neste viés uma dimensão formativa que não é moralmente neutra.


Sócrates que foi acusado de “impiedade”, acusação genérica especificamente de corromper a juventude e de introduzir novos deuses em detrimento dos antigos. As acusações foram formalmente apresentadas por Ânito (em nome dos artífices), Meleto (em nome dos poetas) e Lícon (em nome…


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Agla Davila
Agla Davila
há 7 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Muito interessante como as ideias de Platão estão tão presentes na nossa realidade atual, e fazem conexão com diversas formas de inspiração, principalmente na maneira como produzimos comportamentos, ideais, ideologias... uau um tema que é aberto para muitas discussões filosóficas na atualidade.

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Paulo Sergio
29 de set.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Parabéns Dr Wilson. O texto faz refletir o momento atual "POLÍTICA" a arte de convencer, não sei como mais prometo que vou fazer. A grande discussão não está no pensamento mais como conseguimos manipular a imaginação alheia.

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WILSON ALVES DE PAIVA
WILSON ALVES DE PAIVA
29 de set.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Espaço para comentar, acrescentar e até discordar.

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Sebastiana Cristina
28 de set.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Excelente !

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