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Por que duvidar de tudo?

Foto do escritor: WILSON ALVES DE PAIVA
WILSON ALVES DE PAIVA
23 de set.
7 min de leitura


Depois de descobrir que ele próprio existe enquanto ser pensante, ele investiga o conteúdo da sua mente e encontra a ideia de um ser infinito, perfeito e absolutamente bom


Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva


Para recorrer às velhas anedotas, dizem que até um relógio parado acerta a hora duas vezes por dia. O problema é confiar nele o tempo todo. Com as nossas certezas acontece algo parecido: às vezes elas estão corretas, mas isso não significa que sempre correspondam à realidade e nunca nos enganem. Talvez por isso alguns filósofos tenham defendido que, antes de aceitar qualquer coisa como verdadeira, vale a pena examiná-la com cuidado e até desconfiar dela por um instante. Todos os filósofos fazem isso.


Então, será se foi a dúvida que deu início à filosofia? Não necessariamente. Para os primeiros filósofos, a filosofia nasceu mesmo foi do espanto, da admiração e do maravilhamento do homem para com os fenômenos da natureza. Aristóteles, por exemplo, diz no Livro I da Metafísica que  “foi pela admiração que os homens começaram a filosofar, tanto no princípio como agora". E a ideia já estava em Sócrates e Platão, como podemos ver no diálogo Teeteto, onde aparece a seguinte afirmação: "A admiração é a verdadeira característica do filósofo. Não tem outra origem a filosofia". Desculpem meu preciosismo linguístico, mas a palavra usada, τὸ θαυμάζειν (tò thaumázein), é um verbo que significa, literalmente, admirar-se, maravilhar-se, espantar-se ou ficar tomado de assombro diante de algo.


A ideia é que os seres humanos, ao se admirarem diante dos fenômenos do mundo e perceberem sua própria ignorância, começam a buscar explicações. O espanto não é mero susto, mas uma perplexidade intelectual diante do mistério das coisas. Mas também não é uma mera dúvida. Ou seja, embora os filósofos gregos valorizassem a dúvida, eles não colocavam a dúvida no centro da filosofia.  Quem fará isso, muitos séculos depois, é o pensador francês René Descartes (1596-1650), ao estabelecer a dúvida metódica como pontapé da investigação. E por que seu modo de duvidar é diferente? Porque não é uma dúvida espontânea, psicológica ou permanente, como uma resposta ao espanto. É uma dúvida voluntária, provisória e ordenada, utilizada como método de investigação.


Como isso funciona? Vou tentar esclarecer: Descartes (pronuncia-se Decarte) propõe: "Considerarei falso tudo aquilo que possa ser posto em dúvida". Não porque realmente acredite que tudo seja falso, mas porque deseja eliminar qualquer possibilidade de erro. Ele examina o problema e tenta argumentar que os sentidos às vezes nos enganam. Por exemplo: um bastão parece quebrado dentro da água, objetos distantes parecem menores, ou para exemplo de hoje, uma fotografia publicada nas redes sociais pode parecer autêntica, mas pode ter sido editada por filtros ou inteligência artificial, levando-nos a acreditar em algo que não corresponde à realidade.


Em resumo, a dúvida metódica cartesiana é basicamente o “modo paranoico filosófico” ativado por René Descartes: ele decide desconfiar de tudo o que possa, de algum jeito, enganar — sentidos, sonhos, certezas óbvias e até contas simples de matemática, como quem desconfia até do próprio Wi-Fi ou dos algoritmos antes de uma reunião ou decisão importante. A ideia não é viver achando que nada é real, mas fazer uma “limpeza geral” nas crenças, jogando fora tudo o que não for absolutamente seguro, para ver se sobra alguma certeza que aguente o tranco. E, depois de desconfiar de tudo como um fiscal extremamente rigoroso da própria mente, ele descobre que pelo menos uma coisa não dá para cancelar: se estou duvidando, é porque eu estou pensando — e se estou pensando, logo, eu existo.


Essa perspectiva de Descartes costuma ser interpretada como inauguradora da filosofia moderna porque inverte o ponto de partida da reflexão filosófica: em vez de começar pelo mundo, admirando a natureza e seus fenômenos (como em Aristóteles e a tradição antiga), Descartes começa pelo sujeito que pensa. Isso fica claro na Meditações Metafísicas, quando ele aplica a dúvida metódica e chega ao famoso: “Penso, logo existo” (cogito, ergo sum). A partir daí, o conhecimento passa a ser reconstruído com base na dúvida e na certeza do “eu que pensa”. Dizer que ele “inaugura” a filosofia moderna é um exagero, mas uma simplificação útil, e até repetida por muitos. Entretanto, outros pensadores também foram decisivos nesse processo, como: Francis Bacon, que ajudou a fundar o método científico empírico; Galileu Galilei, cuja matematização da natureza favoreceu avanços na física, entre outros, porque o que chamamos de “modernidade” ou “filosofia moderna” é um processo histórico mais amplo, não obra de um único autor.


Não vou entrar nessa discussão. Continuemos. Como vimos, Descartes propõe duvidar de tudo não porque queira viver em modo “nada é real”, mas porque deseja eliminar qualquer possibilidade de erro e encontrar uma certeza que resista até à dúvida mais radical. Depois de colocar em suspeita os sentidos, os sonhos e até certezas aparentemente óbvias, ele chega ao famoso cogito: se estou duvidando, então estou pensando — e, se estou pensando, existo. A dúvida, portanto, não é o destino final, mas um método para reconstruir o conhecimento sobre bases absolutamente seguras.


Depois de descobrir que ele próprio existe enquanto ser pensante, ele investiga o conteúdo da sua mente e encontra a ideia de um ser infinito, perfeito e absolutamente bom. O ponto central do argumento é: como um ser finito e imperfeito (ele mesmo) poderia ter criado sozinho a ideia de algo absolutamente perfeito? “Descartes conclui que essa ideia só poderia ter sido causada por um ser realmente perfeito, identificado por ele como Deus. Assim, Deus não aparece como uma crença religiosa inicial, mas como uma peça filosófica essencial para garantir que nossas ideias claras e distintas não são um engano: se Deus é perfeito, ele não engana, e isso permite confiar novamente no conhecimento e no mundo.

Nesse ponto, o leitor curioso pode pensar: Mas se ele chega a essa certeza, por que duvidou no início? Porque, para Descartes, a dúvida não é o destino final, mas o caminho necessário para encontrar algo que não possa ser colocado em dúvida. Ela funciona como uma “varredura total” das crenças: elimina fundamentos frágeis para que apenas aquilo que resiste ao exame mais rigoroso permaneça de pé. É por isso que ele começa duvidando de tudo: não porque queira permanecer na dúvida, mas porque acredita que somente assim é possível alcançar um conhecimento verdadeiramente sólido.


Olha só, meu brother, a virada que esse filósofo dá na filosofia: antes, os gregos começaram pelo encantamento, tipo “uau, que universo incrível é esse?”, tentando entender a natureza e seus mistérios. Já com Descartes, a coisa muda geral: em vez de confiar no que o mundo mostra, belo ou feio, ele começa a desconfiar de tudo, até do próprio pensamento, como quem pensa “será que isso que eu vejo ou sinto é real mesmo ou estou sendo enganado?”. No primeiro caso, o mundo é um grande enigma fascinante para a gente desvendar; no segundo, o enigma passa a ser a própria forma como a gente conhece as coisas. No fim das contas, tanto o espanto dos gregos quanto a dúvida de Descartes têm algo em comum: a filosofia começa quando a gente para de engolir tudo de primeira e começa a questionar o óbvio.


Uai, diria meu pai em sua mineirês, se ele questiona o óbvio, por que não questiona Deus? É porque para ele, Deus não entra no mesmo “nível de suspeita” dos sentidos ou das opiniões humanas. Na lógica da Meditações Metafísicas, ele primeiro aplica a dúvida metódica a tudo o que pode enganar: sentidos, mundo externo, imaginação e até matemática levada ao extremo. Mas quando chega à ideia de Deus, que é um ser perfeito e, portanto, não pode enganar, ele a trata de outro modo: não como algo duvidoso, mas como a ideia de um ser perfeito e infinito que ele encontra dentro da própria mente. A tese dele é que uma ideia tão “grande” não poderia ter vindo de um ser limitado como o humano, então ela exigiria uma causa igualmente perfeita — isto é, Deus. Por isso, em vez de colocar Deus no banco dos réus da dúvida, Descartes o transforma no “garantidor da verdade”: se Deus existe e é perfeito, então não engana, e isso permite confiar novamente nas ideias claras e distintas. Em outras palavras, ele não começa duvidando de Deus porque Deus, no sistema cartesiano, é justamente a peça que vem para encerrar a dúvida, não para ser mais uma vítima dela.


Isso talvez porque, em matéria de Deus, o espanto, a admiração e o maravilhamento ainda continuem na filosofia moderna, seja para negá-lo, como fizeram Nietzsche, Marx e outros, seja para afirmá-lo, como fizeram Søren Kierkegaard, Friedrich Schleiermacher, Louis Lavelle, Jacques Maritain e Emmanuel Mounier, que, cada um a seu modo, transformam a dúvida e a inquietação em caminho para a fé e para a interioridade, além de outros (são tantos!) que recolocam o mistério no centro da experiência humana. No fim, parece que a filosofia nunca escapa totalmente desse ponto de partida: alguma forma de espanto diante do mistério, seja ele o mundo, o pensamento ou o próprio Deus. Isso porque a transcendência faz parte de nossa natureza.


Talvez, então, a pergunta não seja se devemos duvidar de tudo o tempo inteiro. A lição de Descartes parece ser outra: antes de aceitar uma ideia como verdadeira, vale a pena examiná-la com cuidado. Porque, no fundo, a dúvida cartesiana termina por repousar sobre duas certezas: a do cogito e a de Deus. O que é isso? Certeza da dúvida ou dúvida da certeza? Pode-se perguntar, contudo, se não permanece aqui uma espécie de aporia, isto é, uma dúvida bloqueada, um tipo de “beco sem saída intelectual” que obriga o pensamento a repensar seus próprios fundamentos, como fazia Sócrates com seus interlocutores com perguntas incomodantes. Afinal, pensar filosoficamente talvez comece justamente quando deixamos de repetir respostas prontas e passamos a fazer boas perguntas. Se essa busca nos conduzirá à certeza ou à incerteza, talvez importe menos do que o próprio exercício de pensar. Admirar os fenômenos, espantar-se diante da natureza, refletir e buscar seus sentidos: é isso que faz a vida valer a pena.


Já passou da hora de começar!

 
 
 

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