Teofrasto e os vícios do interesse

Como a sociedade grega era essencialmente política, na qual o caráter deveria atestar a virtude das pessoas, Teofrasto fala de um perfil que vamos conhecer bem na história da humanidade: o ditador
Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva
Chegamos, finalmente, ao último bloco “carnavalesco” do filósofo grego Teofrasto.
Em seu tempo ele fez desfilar diante dos olhos dos atenienses os caráteres do povo, sem máscara ou fantasia. Sua análise não serviu apenas para aqueles dias, mas de modo atemporal nos ajudam a compreender os comportamentos de hoje. Assim, depois de falar dos vícios do relacionamento, dos vícios da interioridade, encerremos hoje com os vícios do interesse. São muitos! Tome nota, ou rememore para que possa saber com quem está lidando. Melhor, para que medite se esses vícios não estão em sua própria personalidade.
Para começar, falemos do inconveniente — ὁ βωμολόχος ou ὁ παρεμβαίνων (o vomolochos ou o paremvainon) — cujo perfil se parece com outros já aqui comentados, e que incomodam pela agressão moral aos outros, complicando a convivência. Teofrasto dá um exemplo bem brando: “Um sujeito está no primeiro sono, aparece ele e o acorda-o, para lhe dizer meia dúzia de lérias” (Teofrasto, 2014, p. 93). Traduzindo para nossos dias: Você deitado, dormindo profundamente, tarde da noite, e precisa levantar cedo, quando recebe uma mensagem no seu celular: “Tô aqui na sua porta 🙂” Isto é: Zero noção, zero timing e um expert em vergonha alheia.
E o pedante — ὁ σχολαστικός (ho scholastikos)? Esse tipo é execrável! Acha-se superior a todo mundo e vive dando aulas desnecessárias, explicando o óbvio. Mesmo em uma conversa informal, derrama detalhes irrelevantes, como se estivesse num seminário acadêmico. Por exemplo, no bate-papo do bar, o gajo sai com um comentário do tipo: “Tecnicamente, segundo Aristóteles no De Anima, capítulo III…”. Se você comenta: hoje está quente! Recebe como resposta: “Na verdade, segundo a classificação de Köppen-Geiger…” É hilário e patético, não é? Além disso, em suas conversas faz questão de usar palavras difíceis só para mostrar erudição, não para esclarecer. Volta e meia cita autores, regras, datas, mas sem perceber o contexto, por puro exibicionismo e vaidade intelectual. Um chato de galocha com o qual poucos querem se relacionar. Sabe por quê? Porque quase sempre monopoliza conversa; humilha os outros; gosta de se exibir o tempo todo; transforma os bate-papos em disputas de conhecimento; e, por fim, confunde erudição com sabedoria.
Agora vem o forreta — ὁ ἀνελευθέριος (ho aneleutherios) — que os há em abundância. Esse tipo é pão-duro, avarento ao extremo, mesmo tendo posses. É claro que precisamos economizar, evitar gastos desnecessários e pensar no futuro, mas o forreta sacrifica seu próprio bem-estar, a convivência e até a honra e por causa do dinheiro. É incapaz de ser solidário e contribuir co algo social. Sabe aquele colega de trabalho que se esconde no banheiro na hora da contribuição para a festinha? Ou o sujeito que participa de alguma instituição que depende financeiramente de seus membros e nunca contribui? O que pede carona oferecendo-se para dividir o combustível do carro e depois faz-se de despercebido? O exemplo de Teofrastro, de um sujeito que, no casamento da filha, cobrou a comida dos convidados, é um exemplo de “forretagem” que está virando moda!
Como a sociedade grega era essencialmente política, na qual o caráter deveria atestar a virtude das pessoas, Teofrasto fala de um perfil que vamos conhecer bem na história da humanidade: o ditador — ὁ χαλεπός (ho chalepos). Porém, não se trata apenas de um déspota ou um tirano que comete crimes contra o povo ou o Estado, mas aquele que quer controlar tudo, impor sua vontade e ditar suas regras. No meio político sempre há os que desconsideram a vontade a popular, mas no cotidiano da vida há muitos exemplos desse perfil: um pai violento, um professor que não ouve os alunos, um magistrado que julga parcialmente, um patrão que trata seus funcionários como se fossem escravos e por aí vai... Por que é bom evitar esse tipo? Ora, porque ele sufoca a liberdade alheia, envenena o ambiente, só quer dar ordens, convertendo o espaço em palco de dominação, causa medo e humilhação onde deveria haver amizade e respeito e, no caso político, a democracia.
Na sequência temos o remoçado — ὁ γέρων παῖς / ὁ προκατασκευαζόμενος / ὁ ὀψιμαθής (o geron pais / o prokataskevazomenos / o opsimathis) —. Os termos variam conforme a edição da obra, mas o que o autor quis traçar é o perfil daquele que age de modo desproporcional à usa idade. Conhece o cinquentão que quer agir como um adolescente? E o eterno infantil, que nunca amadurece e acaba sendo ridículo nos encontros, nas festas e no convívio em geral? Hoje em dia tem o remoçado virtual, que é aquela pessoa que usa filtros em suas imagens para parecer bem mais nova. Para Teofrasto, o Remoçado é risível porque nega a ordem natural da vida, fugindo da dignidade e sobriedade que deveriam acompanhar a idade madura. Ele encarna a vaidade e o autoengano.
Logo vem o maledicente — ὁ ψόγος / ὁ καταλαλών (ho o psogos / ho katalalon) — que é o crítico difamador, que piora tudo com suas palavras. Além disso, gosta de falar dos outros, como diz Teofrasto: “Diz horrores dos amigos, dos parentes e até dos mortos” (Teofrasto, 2014, p. 114), muitas vezes por inveja, ressentimento ou simples malícia, tentando se beneficiar de alguma forma. Todo mundo conhece alguém que diz: “Não quero falar mal, mas…”, antes de falar mal; alguém que espalhava comentários maldosos em grupos de Whatsapp; e tem prazer em cancelar os outros nas redes sociais, sem nem checar a veracidade das coisas. Um pulha! — como diziam Machado de Assis, Lima Barreto e outros tantos.
Mas há outros que jogam nesse time. É o caso do padrinho do vigarista — ὁ συκοφάντης (ho sukophantēs) — que é pior que o maledicente, pois apadrinha a vigarice. O termo grego é bem apropriado: o sicofanta, isto é, o mestre da intriga, um caluniador profissional que vive de acusar falsamente os outros, explorando a lei para ganhar dinheiro ou prestígio. A diferença deste com o maledicente é que o vigarista prejudica ativamente: usa acusações falsas para extorquir, chantagear ou ganhar vantagem (como fazem alguns pseudojornalistas, blogueiros, hakers em acusar sem analisar os fatos). O maledicente prejudica passivamente: fala mal por inveja ou maldade, mas não age juridicamente para destruir alguém.
Em uma versão mais sutil, mas também prejudicial, temos o explorador — ὁ αἰσχροκερδής (ho aischrokerdēs) — que é o sujeito que vive às custas dos outros, aproveitando-se da bondade alheia. Diz o autor: “Se acolhe um hóspede, pede-lhe dinheiro emprestado” (Teofrasto, 2014, p. 117). Isso mesmo! — explora amigos, vizinhos, parentes e conhecidos da forma mais descarada possível. Um parasita sem caráter!
Vamos agora ao enredador — ὁ μικρολόγος ou ὁ συκοφάντης (ho sukophantēs) —, que também é uma espécie de sicofanta, que é o cretino assassino de reputações. Como diz Teofrasto, essa figura gosta de uma fofoca, inventa coisas e espalha os boatos. Para esse sujeito, não importa o contexto, nem a veracidade dos fatos, mas costura conflitos, mesmo de forma astuciosa, só para ver o circo pegar fogo. Um tipo desprezível e, segundo Teofrasto, um verdadeiro flagelo. Esse perfil é mais problemático que o maledicente, pois não se limita a falar mal, difamar, caluniar e espalhar rumores, como o faz o maledicente, mas age para criar armadilhas sociais e trama situações para colocar uns contra os outros. Ou seja, enquanto o primeiro é só um linguarudo, o último é realmente um sujeito mal, um filho da puta que não merece nossa amizade de jeito nenhum.
E, por fim, o mesquinho — ὁ μικρολόγος (ho mikrologos) — cujo traço é bem conhecido. Imagine uma pessoa que deixa as mangas apodrecerem no quintal e não dá nenhuma. Parente próximo do forreta, proíbe a mulher de dar ou emprestar alguma coisa, não gasta nem quando é necessário, não divide nada, faz conta de tudo e ainda passa a perna nos outros. Imagine você marcar um encontro com uma pessoa que só vai a lugares onde “não precisa consumir”. Enquanto o forreta é um pão-duro “racional”, pois economiza porque não quer gastar, calculando, comparando e evitando despesas de modo frio e metódico, o mesquinho é um avarento caricato e humilhante, chegando ao ridículo. Economiza em coisas tão pequenas que se torna constrangedor — e muitas vezes injusto com os outros. Caspisce?
Pois é, meus amigos, Teofrasto pensou que estava analisando e catalogando tipos atenienses, retratando os vícios das pessoas de sua época, mas na verdade o que ele fez foi escrever um manual secreto da humanidade, válido para qualquer tempo. Os Caracteres (ou Caráteres) de Teofrasto continuam tão atuais que quase parecem uma crônica da sociedade atual, principalmente se olharmos nas redes sociais. Os “vícios” morais apontados por esse escritor grego não desapareceram e estão por aí, vivinhos da silva! O Mesquinho agora cobra PIX dos 50 centavos do amigo no racha da conta do restaurante; o Sicofanta virou especialista em espalhar fakenews e prints fora de contexto; o Maledicente é comentarista profissional de reputações alheias e cancela quem não concorda com ele; o Enredador também, mas pior do que isso, administra grupos de WhatsApp como quem conduz guerras civis.
Mas, por favor, depois de ler este meu “causo” em quatro partes, não vá virar paranoico e desconfiar de todo mundo. Minha intenção foi de mostrar os padrões humanos que, apesar de milhares de anos depois, repetem-se nas pessoas com as quais relacionamos. O que fazer? Ora, apenas ser mais prudente, mais lúcido e fique esperto! Além disso, escolha melhor seus amigos, cara! Afinal de contas, precisamos prestar mais atenção no que as pessoas fazem do que no que elas falam, porque palavra bonita qualquer um solta. Também é bom não se empolgar logo de cara, para não cair em cilada emocional, ilusão e alienação. Pessoas que sugam nossa energia, tiram nossa paz ou mexem com nossa dignidade não merecem espaço — é melhor deixar fora de nosso círculo de amizade. Em vez disso, vale ficar perto de quem traz leveza, lealdade e bons sentimentos, porque é esse tipo de gente que realmente faz nossa vida andar pra frente e que carrega as virtudes necessárias para uma boa convivência, tanto hoje quanto nos tempos de Teofrasto.



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