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Um diálogo entre guerras: A lição do Bhagavad Gita

Foto do escritor: WILSON ALVES DE PAIVA
WILSON ALVES DE PAIVA
23 de set.
7 min de leitura

Atualizado: 4 de out.


Neste ensaio, o autor comenta a canção do Bhagavad Gita e o diálogo entre Krishna e Arjuna em meio a uma guerra, aproximando a antiga filosofia indiana das “tretas” do mundo contemporâneo



Antes de apertar o botão

Versão musical no final do texto




Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva


Quem já ouviu falar do Bhagavad Gita (pronuncia-se “bágavad guíta”)? Talvez poucos. É sobre esse poema, ou canção, que quero falar neste ensaio. Mas antes, vale uma conversa rápida sobre a “guerra”: A guerra sempre fez parte da história da humanidade. O século XX foi bélico em todos os sentidos e uma de suas últimas grandes disputas foi a chamada “Guerra Fria”: uma briga meio esquisita em que Estados Unidos e União Soviética passaram décadas se encarando, disputando poder, tecnologia e influência pelo mundo, mas sem partir diretamente para um confronto militar entre si. Afinal, ambos tinham armas nucleares suficientes para transformar o planeta em uma espécie de churrasco cósmico. Em vez disso, preferiram disputar espaço na política, na ciência, na corrida espacial, nas Olimpíadas e até na propaganda. Terminada a Guerra Fria, em 1991, surgiu uma pergunta bastante razoável: e agora? Que tipo de conflito teríamos pela frente?

Depois da Guerra Fria, Francis Fukuyama, em O fim da história e o último homem (1992), apostou que o triunfo da democracia liberal e da economia de mercado poderia representar o fim dos grandes conflitos ideológicos. A história, porém, aparentemente não havia recebido o memorando. Em 1993, Samuel Huntington publicou O choque de civilizações?, desenvolvendo depois, em livro (1996), a ideia de que os conflitos poderiam se deslocar das disputas ideológicas para as diferenças culturais e civilizacionais. Hoje, essa disputa também acontece no terreno da cultura: filmes, músicas, redes sociais, tecnologia, religião, língua, costumes e narrativas históricas tornaram-se instrumentos de soft power, isto é, formas de conquistar influência pela atração, e não pela força.

Hollywood e Bollywood são um bom exemplo: mais do que disputar bilheteria, disputam histórias, personagens e modos de imaginar o mundo. Afinal, uma cultura também conquista quando consegue fazer o outro cantar sua música, assistir aos seus filmes e incorporar seus personagens ao próprio imaginário. Nessa guerra, ninguém precisa disparar um tiro — basta, às vezes, dominar a tela.E é aqui que a Índia entra na nossa história.


Muito antes de Hollywood, Bollywood, TikTok ou qualquer outra forma moderna de disputar imaginários, a tradição indiana já produzia textos que atravessaram séculos, línguas e culturas. Um deles é a Bhagavad Gita, que significa canção (Gita) do Senhor (Bhagavan) e faz parte do gigantesco poema épico Mahabharata, o qual dizem conter cerca de cem mil versos. A Gita apresenta uma situação bastante peculiar: dois exércitos (Kauravas e Pandavas) estão prestes a entrar em combate. O guerreiro Arjuna, líder dos Pandavas, está diante do campo de batalha, prestes a lutar contra os Kauravas e, justamente naquele momento, começa uma conversa filosófica com seu guia Krishna, o Baghavan. Sim, você leu direito: antes da batalha começar, eles param para conversar. E não é uma conversa rápida do tipo “vamos nessa?”. Arjuna está tomado pela dúvida. Do outro lado estão pessoas que ele conhece, parentes, mestres e amigos. Ele se pergunta se deve realmente lutar. Krishna, que ocupa a posição de seu guia e interlocutor, começa então a responder às suas dúvidas.


O que poderia parecer uma péssima hora para uma aula de filosofia acaba se transformando em um dos textos mais importantes da tradição filosófica e religiosa da Índia. O diálogo é o coração da Bhagavad Gita. Ao longo de seus dezoito capítulos, Krishna e Arjuna discutem temas que continuam bastante atuais: ação e responsabilidade, dever, liberdade, conhecimento, desejo, sofrimento, autocontrole, espiritualidade e a relação do ser humano com o mundo. Arjuna quer saber, em outras palavras, o que fazer quando não sabemos o que fazer. E essa talvez seja uma pergunta bem mais contemporânea do que parece. Afinal, quem nunca ficou diante de uma decisão pensando: “E agora? Faço isso ou aquilo? Sigo o que esperam de mim ou o que considero certo? E se eu escolher errado?”

Vale aqui um parêntese para lembrar aos leitores não tão jovens que a história do Bhagavad Gita também ultrapassou os limites da tradição indiana. Em 1965, um mestre indiano chegou aos Estados Unidos e, no ano seguinte, iniciou um movimento que encontrou um terreno particularmente receptivo entre jovens que questionavam os padrões culturais tradicionais e experimentavam novas formas de espiritualidade, música, comunidade e comportamento. Por algum tempo, a imagem do Hare Krishna ficou fortemente associada à contracultura dos anos 1960: roupas coloridas, canto de mantras, instrumentos musicais, exercício da yoga, vida comunitária e uma espiritualidade bastante diferente daquela que muitos jovens haviam aprendido em casa. Muitos vão se lembrar disso... tenho certeza! Quem não se lembra (entre os mais velhos, claro) de George Harrison, dos Beatles, que se aproximou da espiritualidade indiana e teve contato com o movimento Hare Krishna? Depois da separação dos Beatles, em 1970, Harrison lançou My Sweet Lord, música que combina “Hallelujah” com o mantra “Hare Krishna, Hare Rama”. A filosofia e a espiritualidade indianas, que para muitos jovens ocidentais pareciam distantes e exóticas, começavam a ocupar espaço na música popular e na cultura de massa.


Bom, voltemos ao ponto que realmente nos interessa. A Bhagavad Gita, embora sendo um tratado de yoga, começa com uma guerra, mas seu assunto principal não é simplesmente a guerra. É o conflito interior de uma pessoa diante de uma decisão difícil. Arjuna está no campo de batalha, mas, antes de enfrentar os outros, precisa enfrentar suas próprias dúvidas. Krishna não lhe entrega simplesmente uma resposta pronta; o diálogo percorre diferentes caminhos para pensar a ação, o conhecimento, o dever e a maneira como devemos nos posicionar diante da vida. Os dois estão ali, literalmente, no meio da maior treta possível: dois exércitos prontos para começar uma batalha. E o que fazem? Conversam. Filosofam. Questionam. Tentam compreender o que está acontecendo antes de agir.


Convenhamos: talvez essa seja uma ideia bastante revolucionária para os nossos tempos. Antes de entrar numa discussão na internet, responder àquele comentário provocador ou cancelar alguém em quinze segundos, talvez pudéssemos experimentar o método de Arjuna e Krishna: parar um pouco, respirar e conversar. Afinal, se dois sujeitos conseguiram filosofar no meio de um campo de batalha, talvez nós consigamos pelo menos fazer isso antes de apertar o botão “enviar”. Já pensou em chamar seu opositor, seu inimigo para conversar? Não para convencê-lo a qualquer custo, muito menos para preparar aquela resposta perfeita que você já está formulando enquanto ele fala, mas simplesmente para tentar compreender o que ele está pensando. Talvez seja essa uma das grandes lições do diálogo entre Krishna e Arjuna: antes de partir para a batalha, precisamos aprender a conversar sobre aquilo que nos coloca em lados diferentes. E, convenhamos, em tempos de redes sociais, polarizações e tretas que começam por causa de uma opinião sobre futebol e terminam em uma guerra civil nos comentários, isso já seria um enorme avanço civilizatório. Krishna e Arjuna nos lembram de algo aparentemente simples, mas que frequentemente esquecemos: conversar não significa deixar de discordar; significa tentar compreender antes de atacar. Talvez a verdadeira batalha, afinal, não seja contra o outro, mas contra nossa própria incapacidade de ouvi-lo.Há um trecho do Segundo Capítulo que é muito interessante. Diz ele: 

“Na serenidade deste (homem)surge a destruição de todos os sofrimentos,Por causa da consciência serena, A inteligência (buddhi)Rapidamente encontra sua firmeza”.

Pode parecer uma daquelas frases antigas que a gente lê, acha bonita e passa para o próximo post. Mas vale a pena parar um pouco nela. Para os jovens — e, convenhamos, também para os adultos — a serenidade pode ser uma espécie de superpoder. Vivemos em um mundo que parece exigir uma reação imediata para tudo: responda agora, opine agora, escolha agora, compartilhe agora, indigne-se agora! Se alguém provoca, respondemos; se alguém discorda, atacamos; se alguma coisa dá errado, entramos em desespero. Krishna parece sugerir justamente o contrário: primeiro encontre serenidade; depois, pense e aja. Serenidade não significa ficar parado, aceitar tudo ou fugir dos problemas. Significa não permitir que a ansiedade, a raiva ou o medo assumam o volante enquanto nossa inteligência vai no banco de trás. Quando estamos muito agitados, até uma pequena dificuldade parece gigantesca; quando recuperamos a calma, conseguimos enxergar melhor as possibilidades e tomar decisões menos impulsivas.


O texto diz que na consciência serena, a “buddhi”, a inteligência ou capacidade de discernimento, encontra sua firmeza. Em linguagem bem atual: não tome decisões importantes no auge da treta. Respire, espere, pense e aja com cuidado. Às vezes, a melhor resposta para uma mensagem provocadora é simplesmente não responder imediatamente. E, quando finalmente responder, talvez você descubra que nem precisava escrever ou responder de alguma forma. É claro que A serenidade não resolve magicamente o conflito; ela cria as condições para que possamos enfrentá-lo com discernimento. 


Creio, caro leitor, que seja essa a grande lição de Krishna e Arjuna para os nossos dias: em um mundo cheio de guerras, disputas e pequenas tretas cotidianas, nem sempre precisamos responder imediatamente ao conflito com outro conflito. Podemos parar, conversar, ouvir, pensar e só então decidir o que fazer. Arjuna estava diante de uma guerra; nós estamos diante de notificações, comentários, opiniões e escolhas que, às vezes, parecem pequenas, mas mexem profundamente conosco. Entre o impulso de reagir e a decisão de agir existe um pequeno espaço chamado serenidade.


Enfim, a Bhagavad Gita nos deixa uma lição a partir desse estranho diálogo no meio da guerra: antes de escolher de que lado lutar, precisamos aprender a conversar; antes de responder ao mundo, precisamos aprender a ouvir; e, antes de entrar em qualquer batalha, talvez seja bom descobrir se ela realmente precisa ser travada. Afinal, diante da velha pergunta de Arjuna: o que fazer quando não sabemos o que fazer? talvez a primeira resposta seja justamente esta: parar, respirar, conversar e pensar.


Para concluir, você percebeu que usei “talvez” demais? Repeti dez vezes essa palavra. Sabe por quê? Porque, neste texto, eu não quero entregar todas as respostas prontas. O “talvez” é justamente um convite para você pensar. Afinal, se a Bhagavad Gita começa com Arjuna perguntando o que fazer diante de uma situação difícil, vale a pena então citar essa preciosa palavra mais duas vezes: talvez a resposta não esteja comigo, nem com Krishna, nem sequer neste texto, mas talvez ela esteja com você: no fim das contas, é você quem está diante do campo de batalha, com a decisão nas mãos. E, em tempos de botões, telas e “torpedos”, talvez seja melhor pensar muito bem antes de apertar qualquer um deles.



 
 
 

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