Um lobo que pode fazer poesia

Se todos têm liberdade para fazer tudo, então todos também podem tomar aquilo que pertence aos outros. Podem enganar, roubar, atacar ou eliminar quem atrapalhe seus interesses. Como ninguém teria garantia de segurança, todos viveriam desconfiando de todos
Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva
O lobo é uma criatura feroz e bela ao mesmo tempo.
Por isso aparece com frequência nas histórias infantis, como a de Chapeuzinho Vermelho, que todos conhecemos. Esse animal já era um símbolo antigo e habitava a imaginação europeia há muito tempo, sobretudo na Idade Média quando as matilhas atacavam rebanhos de ovelhas e até pessoas, especialmente em períodos de fome. Por isso, tornou-se um símbolo do predador, do enganador e da ameaça que espreita fora da segurança da comunidade, assim como a figura da ovelha como símbolo da inocência, da vulnerabilidade e da vida protegida dentro do rebanho, sempre dependente da vigilância e do cuidado coletivo para não sucumbir às forças que a cercam.
Entretanto, na consciência do europeu tudo que é feroz, selvagem e bruto pode ter lá sua beleza. Não é à toa que o mito fundador de Roma é a ideia de Romulo e Remo sendo amamentados por uma loba. E isso abranda um pouco a figura lupina, como vamos desenvolver abaixo. Antes, porém, ao falar dos romanos, lembremos de um sujeito chamado Plauto, que nasceu por volta de 254 a.C. e que se tornou um grande autor de comédias. Foi ele quem escreveu em uma de suas peças uma frase que ficaria famosa no século XVII e depois: “homo homini lupus”, traduzida livremente por “o homem é o lobo do homem”. Como a frase virou meme viral na Internet e expressão de impacto para as discussões políticas, debates sobre violência e até conversas de bar quando alguém quer reclamar da maldade humana, deixemos assim. Porém, a correta tradução seria “o homem é lobo para o homem”. Por quê? Porque “homini” está no dativo e não no genitivo.
Perdoem-me a delonga latina, mas é importante para entendermos a frase. O latim foi por muito tempo a língua internacional dos estudiosos europeus, sendo o idioma da filosofia, da teologia, do direito e das universidades, tal como hoje é o inglês (se não quer aprender latim, meu jovem, aprenda inglês!). Você deve se lembrar das aulas de português na educação básica... Se não, vou fazê-lo lembrar: Enquanto em português usamos preposições e a ordem das palavras para indicar funções sintáticas, o latim usa terminações (desinências) nas palavras. Então a palavra homo (homem) vira homini porque ela é o destinatário e responde à pergunta: para quem? Isso é o caso dativo. Vides? Muito bem, se conseguiu ver (enxergar, entender), seguiremos nosso “causo” para explicar como a frase ficou tão conhecida e qual a importância dela.
Por volta de 1642, ao escrever o livro Do Cidadão (De Cive), o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679) repetiu a frase de Plauto bem no começo da Epístola Dedicatória. Originalmente escrito em latim, o livro traz a frase ampliada: “Homo homini Deus, homo homini lupus”. Essa ampliação é significativa porque revela que Hobbes era um tiozão desconfiado: daqueles que conferem duas vezes se a porta está trancada, mas que ainda acreditam que regras de civilidade ajudam todo mundo a dormir mais tranquilo.
Antes de julgá-lo pessimista demais, vale entender seu tempo. Ele nasceu justamente no ano em que a Invencível Armada Espanhola ameaçava invadir a Inglaterra. Ele próprio dizia que sua mãe dera à luz gêmeos: ele e o medo. Talvez fosse exagero, mas não deixa de ser uma boa descrição de sua vida e do que sua sociedade sentia. Hobbes viveu em uma época de guerras religiosas, conflitos políticos, revoltas e, principalmente, da sangrenta Guerra Civil Inglesa. Viu compatriotas matarem compatriotas, vizinhos se tornarem inimigos e reis perderem a cabeça — literalmente.
Foi nesse contexto que ele escreveu outro livro que também ficou famoso: O Leviatã. O título faz referência ao gigantesco monstro bíblico, símbolo de uma força capaz de impor ordem ao caos. E era justamente disso que ele queria falar: como impedir que os seres humanos destruam uns aos outros? É preciso uma força que os controle. Mas atenção: ele não estava dizendo que as pessoas são más o tempo todo, nem que todos são criminosos em potencial. O que ele queria mostrar era algo mais sutil: Imagine que não exista governo, polícia, leis, tradições, tribunais ou qualquer autoridade. Imagine que cada pessoa seja completamente livre para fazer o que quiser. A princípio isso pode parecer maravilhoso. Nenhuma regra. Nenhuma obrigação. Liberdade total. O sonho de muitos jovens...
Só que aí surge um problemão: se todos têm liberdade para fazer tudo, então todos também podem tomar aquilo que pertence aos outros. Podem enganar, roubar, atacar ou eliminar quem atrapalhe seus interesses. Como ninguém teria garantia de segurança, todos viveriam desconfiando de todos. O resultado seria o que Hobbes chamou de estado de natureza: uma condição de permanente insegurança, uma “guerra de todos contra todos”. Sei que estou simplificando, mas basta abrir as redes sociais. Ali encontramos pessoas brigando por opiniões, atacando desconhecidos, espalhando boatos, humilhando adversários e transformando qualquer divergência numa guerra. E, para simplificar mais ainda, meu velho pai, que nunca leu Hobbes, talvez explicasse isso de outro jeito. Ele tinha dois cachorros na fazenda. Quando estavam alimentados e tranquilos, conviviam em paz. Mas bastava jogar um único pedaço de carne entre eles para começarem a rosnar. “Tá vendo?”, dizia ele. “O problema não é o cachorro. É como a gente alimenta eles”.
Mas talvez a imagem do lobo ainda não seja suficiente para expressar toda a profundidade do problema. Há momentos em que o homem não é apenas lobo para o homem — ele se torna algo ainda mais inquietante: um lobisomem. Diferente do lobo, que é o que é, o lobisomem é uma criatura da oscilação, da instabilidade, da ruptura interior. Durante o dia, conserva aparência humana, fala a linguagem da civilidade, participa das regras e da convivência; mas sob certas condições — o medo, a violência, a humilhação, a multidão, a guerra, ou mesmo o anonimato das massas — algo se rompe, e aquilo que estava contido emerge. O humano não desaparece, mas se contamina de selvageria, como se a cultura fosse uma pele frágil que pode ser rasgada.
Hobbes não descrevia o lobisomem, nem uma selva cheia de animais ferozes, como uma alcateia alucinada. Está falando de seres humanos comuns que podem se perder nas três motivações: competição, desconfiança e glória. Mas ele não defendia uma ordem por capricho: um rei, porque amava reis; um Estado forte, porque adorava governantes; e a força de uma “espada”, porque era autoritário. O que ele defendia era a existência de uma autoridade capaz de impedir o caos. Seu raciocínio era simples: Prefiro suportar uma autoridade forte do que viver em um mundo onde qualquer pessoa pode me matar enquanto durmo. Faz sentido, não?
É claro que muitos discordaram de Hobbes.
Alguns o acusaram de justificar o autoritarismo, outros disseram que ele exagerava a maldade humana, como vai fazer, um século depois, o filósofo franco-genebrino Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) ao criticar duramente essa visão, contrapondo-lhe sua famosa tese da bondade natural. Para Rousseau, o homem nasce bom e não há uma maldade originária inscrita em seu coração. Isso porque, como escreveu no início de seu grande livro Emílio ou Da Educação, tudo é certo ao sair das mãos de Deus, mas tudo degenera nas mãos do homem.
Embora ambos discordem profundamente sobre a natureza humana e sobre o estado de natureza, Hobbes e Rousseau compartilham uma preocupação fundamental: compreender por que os homens acabam produzindo formas de convivência marcadas pela corrupção, pelo conflito e pela desigualdade. Talvez por isso a imagem de Hobbes seja mais complexa do que normalmente se imagina. Como vimos, antes mesmo de afirmar: “homo homini lupus” — o homem é lobo para o homem —, ele escreveu também: “Homo homini Deus”. Interessante, não? É justamente nessa tensão entre o lobo e Deus que se encontra uma das questões mais importantes da filosofia política moderna. Talvez o lobo não esteja apenas nas florestas imaginárias ou nos contos. Talvez ele apareça toda vez que deixamos de reconhecer o outro como alguém digno de respeito.
E o que isso diz aos jovens de hoje? Primeiro, que a convivência humana não acontece automaticamente. A paz exige construção. Exige regras, diálogo, responsabilidade e autocontrole. Segundo, que a liberdade sem responsabilidade pode destruir a própria liberdade. É curioso: muita gente deseja liberdade — e com razão. Mas Hobbes lembraria que uma liberdade sem limites pode acabar produzindo exatamente o contrário daquilo que promete. Quando ninguém respeita ninguém, o mais forte acaba impondo sua vontade. Terceiro, Hobbes nos convida a desconfiar de uma ilusão muito comum: a de que os problemas sempre estão nos outros. O filósofo diria que todos nós carregamos dentro de nós um pequeno lobo. Não um monstro permanente, mas a tendência ao egoísmo, ao orgulho, à inveja e à agressividade. O desafio da vida em sociedade não é fingir que esse lobo não existe. É aprender a controlá-lo, pois a civilização existe justamente porque aprendemos — ainda que imperfeitamente — a conter nossos lobos interiores.
Afinal, Hobbes quis dizer que o ser humano pode assumir duas faces opostas, dependendo das circunstâncias em que vive e das escolhas que faz. Se me permitem uma licença interpretativa, assim como abusar do dativo latino, retomemos a frase que antecede o “homo homini lupus”: se o homem é um deus para o homem (Homo homini Deus), isso quer dizer que ele pode cooperar, ajudar ao outro, desenvolver-se na cultura nos modos civilizacionais e tornar-se melhor, a depender de quem e de como se alimenta, como dizia meu pai. Ou seja, depende do dativo: da pessoa a quem ele dedica suas ações: ao lobo ou a Deus.
Quando Hobbes usa a palavra "Deus", não está afirmando que os homens sejam literalmente divinos. O que ele sugere é que os seres humanos podem ocupar, uns para os outros, o lugar das maiores bênçãos ou das maiores desgraças. Afinal, nenhum lobo real, nenhuma tempestade ou terremoto exerce sobre a vida humana uma influência tão profunda quanto aquela que os próprios homens exercem entre si. Somos capazes de educar ou corromper, salvar ou destruir, acolher ou perseguir. Por isso, para Hobbes, o maior perigo do homem é o homem, mas também sua maior esperança. Entre o lobo e Deus, a humanidade oscila continuamente, e é nessa escolha que se decide o destino da vida comum. E aí fica a pergunta: você está alimentando o lobo da rivalidade, da raiva e da desconfiança? Ou está ajudando a construir aquilo que Hobbes mais desejava proteger: a possibilidade de vivermos juntos sem nos destruirmos? A resposta não está apenas nas grandes decisões políticas ou nos rumos da história, mas também nos pequenos gestos cotidianos, nas palavras que escolhemos, na maneira como tratamos aqueles que estão ao nosso lado. O lobo pode usar sua força para ferir, dominar e espalhar medo; mas o ser humano, quando escolhe o caminho da cultura e da convivência, pode transformar essa mesma força em criação.
Concluindo, talvez a pergunta mais importante não seja se o ser humano é naturalmente lobo (mau) ou ovelha (bom) — para usar aqui a figura de outro animal que aparece muito nos contos e na imaginação popular. Talvez seja outra: que tipo escolhemos nos tornar quando convivemos com os outros? Por isso, em vez de rosnar, ameaçar e atacar os outros, vale mais a pena empregar sua coragem lupina e combinar com a sensibilidade ovina para construir, dialogar e fazer poesia. Sim, poesia! Por que não? Afinal, é na poesia — entendida como criação de beleza, sentido e humanidade — que o homem deixa de ser lobo para o homem e se aproxima de sua condição e ovelha. Mas, mais do que isso, o homem se aproxima daquilo que Hobbes chamou, não sem ousadia, de um “deus” para o homem. Pura “poiesis” divina, a qual pode ser traduzida na poética do nosso viver, no fazer poesia enquanto encantamento e embelezamento do mundo, adestrando o lobo que às vezes rosna no interior de nosso ser. Caso contrário, pode até virar lobisomem, sobretudo em noite escura de lua cheia.
Cruz credo, vade retro!



Comentários