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A vida é curta e a arte é longa. E daí?

Foto do escritor: WILSON ALVES DE PAIVA
WILSON ALVES DE PAIVA
há 3 dias
9 min de leitura

Atualizado: há 2 dias


A vida é curta? Para Sêneca, o problema talvez não seja a falta de tempo, mas o modo como o desperdiçamos. Entre a correria, as ambições e as distrações cotidianas, Prof. Paiva nos apresenta um filósofo estoico que nos ensina que viver bem é uma arte que exige aprendizado, sabedoria e tempo para o que realmente importa.



A arte de viver

Versão musical no final do texto



Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva


Estou certo de que alguém já deve ter ouvido ou lido em algum lugar a velha frase de que a vida é curta e a arte é duradoura. Pois trata-se de uma daquelas frases que caem no gosto popular e é repetida em diversos situações, contextos e até significados, inclusive mudando o sentido original. Por exemplo, usa-se às vezes essa frase para dizer que a vida do artista é breve, mas a obra que ele produz é duradoura, se não eterna. É uma adaptação interessante, bem criativa e bastante poética, mas não é o sentido que autor lhe deu.


Então vamos nos deter um pouco e analisar algumas questões pertinentes. A primeira coisa a ser mencionada é que essa famosa expressão vem do latim: Vita brevis ars longa, que é atribuída ao filósofo médico Hipócrates (c. 460–370 a.C.). É claro que ele não escreveu em latim, mas em seu idioma original, o grego, dizendo: Ὁ βίος βραχύς, ἡ δὲ τέχνη μακρή (Ho bíos brachýs, hē dè téchnē makré), que foi colocado logo no início de sua obra Aforismos, cujo trecho e sentido é um pouco mais amplo e não se refere especificamente à obra de arte de algum artista. O autor quis dizer mais ou menos isto:  Que a vida é breve, a arte é longa, a ocasião é fugidia, a experiência é perigosa e o julgamento é difícil.


É importante notar que no original o autor usa a palavra τέχνη (téchnē) para arte, a qual não significa simplesmente “arte” no sentido moderno de belas-artes. Esse termo era usado para designar o artifício, isto é, habilidade, técnica, ofício ou conhecimento especializado que possa produzir determinado resultado. É o caso, por exemplo, de quando falavam de “arte da medicina”, “arte de navegar”, “arte musical”, “artes mecânicas”, “arte de comandar” etc. Nesse sentido, “arte” deve ser entendida originalmente como uma técnica ou disciplina que exige uma vida inteira de aprendizado. Resumido, com ajuda do Dicionário de Filosofia, de Nicola Abbagnano, podemos dizer que a “técnica” ou “arte”: “Compreende qualquer conjunto de regras aptas a dirigir eficazmente uma atividade qualquer”.


No contexto médico, que provavelmente Hipócrates usava, a ideia é que a vida humana é curta diante da extensão e da dificuldade do conhecimento que se precisa adquirir. Nesse sentido, se tomarmos a medicina como uma téchnē, ela se dedicava ao estudo e tratamento do corpo, enquanto a filosofia cuidava da alma (psychḗ). Mas sempre havia quem comparasse uma coisa com a outra. Platão, por exemplo, no Gorgias, aproxima a retórica da medicina e sustenta que uma verdadeira arte de cuidar da alma deveria buscar seu bem, assim como a medicina busca o bem do corpo.


E esse é o sentido que os estoicos vão explorar de maneira ainda mais profunda: se a medicina é uma téchnē destinada a cuidar do corpo, a filosofia pode ser compreendida como uma espécie de téchnē destinada a cuidar da alma.


E aqui quero lhes apresentar um sujeito pouco conhecido: Sêneca (4 a.C.-65 d.C.), o qual foi filósofo, escritor e político romano, tendo sido um dos principais representantes do estoicismo romano. Para ele, a filosofia não deveria ser apenas um exercício teórico, mas um conhecimento capaz de orientar concretamente a vida. Afinal, se a vida é breve, a questão não é simplesmente lamentar sua brevidade, mas aprender a viver bem o tempo que temos. E é nesse ponto que a velha frase de Hipócrates ganha um novo sentido: não basta saber que a vida é curta; é preciso aprender a não desperdiçar o pouco tempo que temos.


Esse é, portanto, o assunto principal discutido no seu livro De brevitate vitae (Sobre a brevidade da vida). Apesar do título, a tese de Sêneca não é simplesmente que a vida é curta. Para ele, temos uma quantidade de tempo que pode ser suficiente para uma vida plena, mas a desperdiçamos com ocupações tolas, ambições, preocupações exageradas e atividades que nos afastam de nós mesmos. Diz ele, logo no início de seu tratado:


Não é que tenhamos um curto espaço de tempo para viver, mas o desperdiçamos demais. A vida é longa o bastante e foi concedida em medida suficientemente generosa para permitir a realização de coisas maiores, se o tempo for bem investido. (...) Assim é: a vida que recebemos não é curta, mas a tornamos desse modo; tampouco a temos de sobra, mas desperdiçamos. Do mesmo modo como a grande e principesca riqueza é dissipada quando chega às mãos de um mau proprietário, enquanto a riqueza, embora limitada, se for confiada a um bom guardião, aumenta com o uso, nossa vida é suficientemente longa para aquele que a ordena corretamente. (Sobre a brevidade da vida, cap. 1, p. 18. Garnier Editora, 2023).


Para parafrasear Hipócrates, podíamos dizer: Textus brevis, sensus longus. Quanta sabedoria em um trecho tão curto! Pois, de fato, no geral, não temos um tempo tão curto, excetuando aqui, obviamente, aquelas pessoas que têm sua vida ceifada mais cedo, seja por acidente, por enfermidades e por tantas outras causas. Sim, no geral, vive-se muito, mas, para todo esse tempo, como diz o filósofo, não temos tempo de sobra. E aqui aparece a bela metáfora de Sêneca que se resume nisto: a vida é como uma riqueza que recebemos para administrar. Uma grande fortuna pode desaparecer rapidamente nas mãos de um mau administrador (como acontece muito), enquanto recursos mais modestos podem se multiplicar quando estão sob os cuidados de alguém prudente (isso também acontece). O problema, portanto, não está apenas na quantidade de tempo que recebemos, mas na maneira como o administramos. Podemos passar muitos anos ocupados e, ainda assim, ter vivido pouco; podemos preencher os dias de compromissos e chegar ao fim sem saber exatamente o que fizemos de nossa própria vida. Para Sêneca, viver não é simplesmente deixar o tempo passar, mas dar-lhe direção, finalidade e sentido. É preciso, portanto, aproveitar o que temos enquanto temos tempo e transformar esse patrimônio que recebemos — limitado, precioso e irrecuperável — em uma boa vida: repleta de realizações, alegria, aprendizado e momentos significativos. Afinal, o tempo não é uma riqueza que podemos guardar para depois; gastá-lo já é viver, e a questão é saber em quê estamos gastando nossa vida. Entende?


Para que entendamos bem seu ponto de vista, o próprio Sêneca dá alguns exemplos: aquele que luta tanto em fortificar suas propriedades a fim de evitar roubos e invasões, mas deixa que qualquer pessoa invada sua vida e o prejudique; aquele que viaja muito, mas não aproveita os momentos importantes da viagem, nem vivencia as experiências. Ele diz: “Ele não viajou muito; apenas se movimentou muito”. Quer um exemplo? Muita gente viaja e visita diversos lugares importantes, mas só com o objetivo de tirar fotos e postar em suas redes sociais. A preocupação está na imagem, na demonstração de sua experiência para os outros e não na experiência em si.


Outro exemplo: aqueles que passam o dia todo no “fórum”. Mas o que significa isso para Sêneca? O fórum era o centro da vida pública romana, onde se concentravam atividades políticas, jurídicas e comerciais. Passar o dia no fórum significava estar continuamente envolvido em negócios, disputas judiciais, reuniões, negociações e assuntos alheios. Não se trata, portanto, simplesmente de trabalhar ou de ocupar-se com alguma atividade útil, mas de viver permanentemente à disposição das demandas dos outros, sem reservar tempo para si mesmo e para sua família. É possível passar o dia inteiro ocupado, seja na empresa ou em qualquer outro lugar, resolver dezenas de problemas e, ainda assim, não ter vivido propriamente aquele dia. Para Sêneca, esse é um dos grandes paradoxos da existência: estar muito ocupado não significa necessariamente estar vivendo muito.


E qual é a alternativa? Alguns podem perguntar. Ora, para Sêneca, a alternativa à vida desperdiçada é uma vida ordenada pela razão, pela filosofia e até mesmo pelo otium. Isso não significa abandonar toda atividade, mas deixar de ser escravo das ocupações que nos roubam o tempo. Resumindo suas ideias, ele propõe: viver no presente, em vez de deixar a vida sempre para o futuro; dedicar-se à filosofia, entendida como exercício de formação e aperfeiçoamento da vida; aprender com o passado: para Sêneca, quem lê e dialoga com os grandes pensadores pode, de certo modo, tornar-se contemporâneo deles e aproveitar uma experiência que ultrapassa sua própria vida; moderar os desejos e as ambições, especialmente a busca incessante por riqueza, poder, prestígio e reconhecimento; dar finalidade ao tempo, em vez de simplesmente preenchê-lo com atividades; e, por fim, valorizar o otium — o tempo livre para si, para a reflexão, o estudo e aquilo que realmente importa.


Deixei o otium para comentar um pouco mais. A palavra ócio, em português, tem um significado positivo, de tempo livre, tempo de descanso e reflexão; mas tem também o sentido negativo, de ociosidade, indolência, preguiça e falta do que fazer. No sentido estoico, nada tem a ver com preguiça, mas com o tempo retirado das ocupações externas para dedicar-se à própria formação, à reflexão, à filosofia e ao cultivo da vida interior. O verdadeiro otium é o tempo deliberadamente reservado para aquilo que realmente importa. É claro que no mundo atual, e conforme as prioridades de cada um, muita coisa pode ser acrescentada nessas atividades, mas para os estóicos o cultivo da vida interior era prioritário.


Isso não significa, evidentemente, fugir do mundo ou abandonar tudo em nome da filosofia. O ócio de Sêneca não é isolamento, mas a recuperação de um tempo que possa ser verdadeiramente nosso. Trazendo para os nossos dias, estar com os filhos, conversar com a família, cultivar amizades, ler, estudar, contemplar ou simplesmente desfrutar de uma conversa sem pressa também podem fazer parte de uma vida bem vivida. O problema não está em ocupar o tempo, mas em permitir que todo o nosso tempo seja ocupado por aquilo que não escolhemos. Afinal, podemos estar cercados de pessoas que amamos e, ainda assim, nunca lhes oferecer verdadeiramente nossa presença. Precisamos reservar um tempo de nossas vidas para eles, numa profunda amizade. Sim, amizade! Os estoicos valorizavam fortemente a amizade e os vínculos com outras pessoas. Inclusive, Sêneca dedica várias de suas Cartas a Lucílio à amizade e à convivência.


Então, meu caro, você já reservou isso? Um tempo de “ócio”? Um tempo para: ler os grandes os clássicos da literatura e dos pensadores; ouvir uma boa música; pintar, desenhar, escrever; refletir sobre a própria vida; examinar os próprios desejos e paixões; cultivar a virtude e a sabedoria; compreender a natureza e o lugar do ser humano nela; compreender o sentido mais profundo da amizade (incluindo a família); e, por fim, preparar-se para morrer sem arrependimento. Tudo isso não é “matar tempo” e viver de modo ocioso (no sentido negativo), mas usar o tempo para uma atividade que, para Sêneca, é superior às ocupações mundanas: a formação de si mesmo. Hoje pode-se, inclusive, incluir um tempo para se dedicar à espiritualidade (no sentido cristão e contemporâneo), embora isso não tenha a ver exatamente com a “espiritualidade” estoica, mesmo que guarde com ela algumas semelhanças. Para os estoicos, tratava-se sobretudo de um exercício interior de transformação: examinar a si mesmo, ordenar os desejos e paixões, viver de acordo com a razão e com a natureza e alcançar uma liberdade interior diante das circunstâncias externas. Em Sêneca, essa dimensão assume também um caráter de elevação da alma, de aproximação do logos e de compreensão da ordem racional do universo. Não era, portanto, uma espiritualidade religiosa no sentido que hoje atribuímos ao termo, mas uma prática filosófica de formação e aperfeiçoamento de si.


Assim, Sêneca apresenta a filosofia como uma forma de aprender a viver. Quando nos libertamos da correria, das ocupações excessivas e das preocupações que consomem nosso tempo, abrimos espaço para aquilo que realmente pode nos transformar: cultivar as virtudes, compreender a nós mesmos, lidar melhor com nossas paixões e encontrar uma tranquilidade que não depende da quantidade de anos vividos. Diz ele, ao final do livro:


“Nesse tipo de vida, você encontrará o que é bom saber – o amor e a prática das virtudes, o esquecimento das paixões, o conhecimento da vida e da morte e uma vida de profundo repouso” (Ibidem, p. 89).


Mas aí voltamos à pergunta inicial: e daí? Se a vida não é necessariamente curta, por que continuamos tendo a sensação de que o tempo escapa entre os dedos? Talvez porque ainda nos falte uma téchnē do viver. Sabemos construir, navegar, administrar, curar e produzir tantas coisas, mas nem sempre sabemos o que fazer com o tempo que recebemos. Sêneca nos convida justamente a pensar nisso: viver bem também é uma arte que se aprende. E talvez seja esse o verdadeiro sentido de ars longa: não há promessa de que nossas obras durarão para sempre, mas a lembrança de que aprender a viver é uma tarefa que pode ocupar a vida inteira. Afinal, repetindo a frase hipocrática, a vida é curta, a arte é longa — e o tempo não volta.



 
 
 

3 comentários

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Geraldo Márcio
Geraldo Márcio
há 2 dias
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Se o dia tivesse 70 horas seria pequeno para tantas coisas que faço na minha ociosidade. Tenho tempo pra ler, correr, cantar, estudar música, filosofia, cuidar dos cabelos, ir na feira, falar 50 linguas e dançar... ultimamente estou tocando castanholas também. Se eu pudesse descrever tudo que eu faço, ou que vou fazendo e praticando na vida (...). Esses dias ando fazendo reflexões do passado e dos sonhos que tenho durante a noite. Acredito que meu cérebro não para durante o sono, tenho estas experiências desde quando decorava aquelas grandes óperas. E quando estou em casa, o tal Sêneca é também uma leitura regular, mesmo que eu pense que ele não constribua em nada, na realidade essa parte da filosofia…

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Dourivan Abreu
Dourivan Abreu
há 2 dias
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Texto fantástico. Um curso de seis meses em tão poucas linhas. Cumpri o otium de hoje lendo este artigo. "Afinal, se a vida é breve, a questão não é simplesmente lamentar sua brevidade, mas aprender a viver bem o tempo que temos". Essa frase vale para a vida. Parabéns!!!

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Sebastiana Cristina
há 3 dias
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Viver ao seu lado é o meu maior bem viver.

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