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De Filósofo e Louco todo mundo tem um pouco

Foto do escritor: WILSON ALVES DE PAIVA
WILSON ALVES DE PAIVA
há 2 horas
7 min de leitura

Do velho ditado popular à filosofia do “subsolo” de Dostoiévski, este ensaio mostra como todos carregamos um pouco de médico, poeta, psicólogo, filósofo e louco. Entre razão, liberdade, ressentimento e devaneio, a questão é descobrir como pensar sem se afastar da vida — e escolher sem deixar que outros escolham por nós.


Close-up view of a serene landscape with a winding path
Uma paisagem que nos leva à contemplação e aos diveresos caminhos da alma

Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva


É difícil rastrear a origem desse típico provérbio de sabedoria popular, mas sabe-se que vem das terras ibéricas e que circula há séculos na tradição oral. A frase expressa duas ideias principais: “De médico”: todas as pessoas se sentem aptas a dar conselhos sobre saúde, mesmo sem formação. Isso é algo que hoje reconheceríamos facilmente se déssemos uma “surfada” na Internet. Agora, “De louco”, todos nós possuímos mesmo algum grau de irracionalidade, excentricidade ou comportamento imprevisível que possa ser identificado como “loucura”.


Isso é um fato.


Acontece que o médico goza de certo prestígio, mas o saber médico também já foi parcialmente difuso, principalmente nas épocas (distantes e recentes) em que a medicina se misturava com o saber de magos, curandeiros, receitas populares e outras coisas mais. E o louco sempre foi uma figura ambígua — ao mesmo tempo marginal e, às vezes, portador de uma “verdade” fora da lógica, comum, com foi discutido por alguns filósofos, a exemplo de Michel Foucault, em seu livro A história da loucura.


Embora muito usado nas terras lusitanas, esse ditado não é coisa só de português, pois atravessa fronteiras e nas terras hispânicas vamos encontrar até mesmo uma ampliação poética da frase: “De médico, poeta y loco, todos tenemos un poco” (fácil de compreender, não precisa traduzir). Note-se que aí entra também o “poeta”, ampliando a ideia de criatividade e subjetividade.


Neste ensaio quero ampliar ainda mais o ditado: “De médico, poeta, filósofo e louco, todo mundo tem um pouco” — Isso porque acabei de ler um clássico da literatura universal, que é a obra de Fiódor Dostoiévski: Memórias do Subsolo, de onde tiro a sapiência do personagem que, em monólogo, expressa sua aflição, sentida em um subsolo da consciência. Digo “sapiência” porque um homem comum, mas para quem basta um excesso de consciência, um ressentimento bem cultivado e alguma inaptidão para a vida prática para que, sem pedir licença, acaba virando filósofo — ainda que seja só para si mesmo.


Não desista, continue lendo que vou explicar melhor isso.


Nesse romance curto, o grande escritor russo prenuncia o existencialismo moderno ao apresentar o monólogo angustiante de um funcionário aposentado, que se define como doente, rancoroso e, ao mesmo tempo, hiperlúcido. Contra a perspectiva otimista do século XIX, de que a razão ditaria as ações e os destinos humanos —herança do pensamento iluminista — Dostoiévski sugere que, às vezes, o homem prefere ser livre, opta pelo sofrimento e por ações que não conseguimos dizer os motivos. Isso porque em cada um de nós há um “subsolo”: um espaço de conflito, orgulho e irracionalidade, de onde, não raro, surgem conflitos, inquietações, perguntas e, por que não dizer, um tipo muito peculiar de “filósofo”, ou seja, aquele que aprendeu pelo sofrimento (Marco Aurélio se ouvir isso, lá de seu túmulo, baterá palmas).


Por isso que o personagem vai dizer: “Desculpai-me, senhores, por ter-me enredado em filosofias; isto se deu por causa dos meus quarenta anos de subsolo” (Dostoiévski, 2026, p. 41).


Frase irônica, não? Mas trata-se de uma ironia defensiva: ele sabe que seu discurso é excessivamente abstrato, confuso e até incômodo, mas continua nele porque é sua forma de existir. Difícil de entender? Não, não é. Veja só: Ao explicar que “…isto se deu por causa dos meus quarenta anos de subsolo”, o personagem deixa claro que o “subsolo” não é apenas um lugar físico; é uma condição existencial, que hoje nós entendemos muito bem, sem sermos psicólogos ou psicanalistas (pelo jeito será preciso ampliar o ditado: “De médico, poeta, filósofo, psicólogo e louco, todo mundo tem um pouco”). Vejamos os “subsolos” de hoje: isolamento social, ressentimento acumulado, incapacidade de agir no mundo real, refúgio nas redes sociais, subterfúgio de utopias e metanarrativas, o cinismo, a ironia constante como defesa, a dificuldade de vínculos reais etc.


Quadro escatológico? Não, de jeito nenhum! É o novo tipo de sociedade que temos e com a qual devemos lidar.


Neste ponto, é claro, você deve estar se coçando para perguntar: Como??? Bem, para responder a essa pergunta, vamos recorrer ao “filósofo” anônimo de Dostoiévski, que aqui vou lhe dar o nome de “A” (seguindo a tendência kafkiana). Esses “quarenta anos” sugerem uma vida inteira vivida para dentro, ruminando pensamentos, mágoas e contradições. Mesmo que sua filosofia não surja de um sistema racional organizado, mas de uma vida enclausurada, ressentida e excessivamente consciente, no fundo, essa experiência existencial pode ter-lhe proporcionado a condição de dizer algo meio louco, mas que pode fazer sentido: nem sempre a razão deve ser empregada. Assim A completa, dizendo: “Permiti-me fantasiar um pouco. Pensai no seguinte: a razão, meus senhores, é coisa boa, não há dúvida, mas razão é só razão e satisfaz apenas a capacidade racional do homem, enquanto o ato de querer constitui a manifestação de toda a vida, isto é, de toda a vida humana, com a razão e com todo o coçar-se”. Viu só? Você continuar se coçando... indagando, pensando, sonhando, poetando, divagando, viajando nas imaginações e nos devaneios – isso é próprio da condição humana.


Que me desculpem os amigos matemáticos, mas concordo com A quando ele diz que “embora a nossa vida, nessa manifestação, resulte muitas vezes em algo bem ignóbil, é sempre a vida e não apenas a extração de uma raiz quadrada” que pode nos dar o tom, que pode nos satisfazer nas horas de nossas angústias, aflições e necessidades. E, às vezes, contra a própria lógica, a pessoa pode escolher algo “muito estúpido, sem estar comprometido com a obrigação de desejar apenas o que é inteligente”, diz ainda A. — porque, no fim das contas, é justamente nessa liberdade meio absurda de errar que a vida escapa dos cálculos e insiste em ser mais do que um problema bem resolvido.


Muito bem, se o ser humano não quer apenas o que é racionalmente vantajoso, como defende o filósofo A, não se pode deixar de considerar que mesmo que o homem seja livre até para agir contra si mesmo, mas essa liberdade não o salva automaticamente, e pode, inclusive, aprofundar sua miséria. Ou seja, Dostoiévski parece dizer:não somos máquinas racionais — porém, quando usamos essa “liberdade irracional” sem medida, acabamos produzindo consequências que nós mesmos não conseguimos suportar.


Понимаешь? (Entende?).


Então, meu jovem, antes de chamar qualquer impulso de “minha escolha”, vale checar se é você mesmo que está escolhendo… ou só agindo conforme a influência da mídia, dos colegas, ou só reagindo tempestivamente contra vários tipos de “subsolos”, sem lembrar que, depois, terá que bancar o preço. Porque é fácil, por exemplo, postar algo no calor do momento para ganhar aprovação, entrar numa discussão só para “vencer”, ou tomar uma decisão importante só para contrariar alguém; difícil é lidar depois com as consequências: relações desgastadas, oportunidades perdidas, arrependimento silencioso — e aí já não dá para culpar o algoritmo, o grupo ou o impulso, porque quem assina a fatura, no fim, é você.


Lembre-se que você, como todos nós, tem um pouco de louco; mas temos também um pouco de filósofo. Mas não se preocupe com esta afirmação, não se angustie e nem se preocupe em queimar neurônios demasiadamente. Afinal é isso que Dostoiévski acaba sugerindo em sua obra filosófica: pensar, refletir, discutir... tudo isso é necessário, mas pensar em excesso, sem vida concreta, pode adoecer. Afinal de contas, um racionalismo extremado ou ingênuo, pode reduzir o ser humano a puro cálculo.


Acho que é nesse sentido que o filósofo espanhol Ortega y Gasset, em sua obra O que é filosofia? vai dizer que filosofia não é fuga da vida, mas uma forma radical de enfrentá-la. Isso indica que o sujeito não pode se fechar em si mesmo: ele só existe em relação ao mundo. Assim, o filósofo espanhol vai dizer que filosofia é um modo de ser e viver. E o que ele entende por vida? Recorramos às suas palavras: “vida es lo que somos y lo que hacemos” (vida é o que somos e o que fazemos).


Por um lado, como diz Ortega y Gasset (2007, p. 11), “todo esfuerzo intelectual que lo sea en rigor nos aleja solitários de la costa común, y por rutas recónditas que precisamente descubre nuestro esfuerzo nos conduze a lugares repuestos, nos sitúa sobre pensamientos insólitos” (todo esforço intelectual rigoroso nos afasta, solitários, da costa comum e, por rotas recônditas que o nosso esforço precisamente descobre, conduz-nos a lugares remotos, situando-nos diante de pensamentos insólitos).


Isto é, cria “subsolos” que nos afastam do mundo real. Mas, por outro lado, conforme a escolha da pessoa, as reflexões empreendias e as memórias desse “subsolo” pode fazê-la um “filósofo” e, ao compreender que a verdadeira filosofia é buscar o sentido da vida, tal pessoa pode reagir e conseguir fazer escolhas melhores, escolhas significativas, escolhas virtuosas (para si e para os outros) e “curtir” a vida não apenas pelo lado da razão, mas pelo lado da emoção. Daí, o filósofo espanhol completa, ao final da obra, quase chutando o balde (e que vou deixar em espanhol mesmo, sem tradução): “La filosofía, es, antes, filosofar, y filosofar es, indiscutiblemente, vivir – como lo es correr, enamorarse, jugar al golf, indignarse en política y ser dama de sociedade. Son modos y formas de vivir” (Idem, p. 173).


E, no fim das contas, voltamos ao velho ditado — agora ampliado e um pouco mais consciente — para reconhecer, sem muita cerimônia, que de médico, de louco, de psicólogo, de filósofo e também de palpiteiro (que é meu papel neste ensaio), todo mundo tem um pouco, mas viver bem depende de saber quando ouvir cada um deles.

 
 
 

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