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Sócrates e a rixa com seus discípulos

Foto do escritor: WILSON ALVES DE PAIVA
WILSON ALVES DE PAIVA
há 3 horas
8 min de leitura

Rixa? E qual é a solução? Não é evitar problema. É saber lidar com ele sem surtar completamente. E é aí que entra a filosofia — não como algo distante e chato, mas como um manual de sobrevivência mental


Close-up view of an ancient philosophical text on a wooden table
Close-up view of an ancient philosophical text on a wooden table

Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva

Introdução


Para tanto, vamos aos gregos antigos! E por que não falar do velho Sócrates? Todos o conhecem bem ou já ouviram falar dele. Embora esse filósofo não tenha escrito nada, suas palavras estão tão vivas quanto antes, ou mais vivas do que em seu próprio tempo.


Neste curto ensaio, falarei dele: Para tanto, vamos começar com aquela pergunta meio clichê, mas inevitável: dá para viver bem? Tipo, bem mesmo — sem grandes dramas, sem viver apagando incêndio emocional? A resposta honesta é: até dá, mas não do jeito que você está imaginando. Porque viver, no fundo, é bagunça. É derrota, irritação, frustração, momentos de ódio gratuito (sim, acontece), misturados com algumas alegrias aqui e ali. Não tem como fugir disso. A vida não é um spa — é mais um campo de batalha com o destino, com as coisas e com as pessoas, com intervalos para o café (ou chá).


Então qual é o segredo? Não é evitar problema. É saber lidar com ele sem surtar completamente. E é aí que entra a filosofia — não como algo distante e chato, mas como um manual de sobrevivência mental. Os estoicos já tinham sacado isso há mais de dois mil anos: tem coisa que simplesmente não está sob seu controle. Ficar brigando com isso só piora. Agora, o que está nas suas mãos? Aí não tem desculpa — você faz direito ou faz errado. Simples assim. Aceita o inevitável, capricha no que depende de você e segue o jogo. E, curiosamente, essa vibe já estava presente antes mesmo do estoicismo virar “moda”, e vamos encontrá-la em Sócrates. Por isso, vou comentar um “causo” que aconteceu com ele e dois de seus discípulos.


Sócrates e os “discípulos interesseiros”


Sócrates não andava exatamente com uma galera confiável o tempo todo. Segundo relatos de Xenofonte, dois dos seus “discípulos”, Crítias e Alcibíades, estavam ali não por amor à sabedoria, mas por interesse político. Traduzindo: colavam no mestre pensando em carreira. Nada muito diferente do que acontece hoje, convenhamos. Gente que se aproxima não porque acredita no que você diz, ou porque realmente gosta de você, mas porque você pode ser útil em algum momento. Networking filosófico, basicamente, que aconteceu com esses dois.


E aí surge a dúvida: Sócrates não percebeu isso? Provavelmente percebeu, sim. Mas, em vez de sair expulsando geral, manteve a calma, a postura e talvez o interesse para saber o que ia dar. Continuou ensinando, firme, sem baixar o nível. Meio que no estilo: “vou fazer minha parte, o resto é problema deles”. Só que, claro, isso não deu exatamente certo, e o resultado não foi bom para nenhum dos três.


Vejamos: Alcibíades era aquele clássico sujeito brilhante… e completamente descontrolado. Bebia demais, se metia em confusão, abusava do poder e tomava decisões questionáveis (para dizer o mínimo). Resultado? Um fim trágico, assassinado por inimigos políticos. Nada surpreendente quando você ignora todos os conselhos, mesmo tendo um grande mestre como seu guru. Pobre Alcibíades! Mas, embora ele seja um caso interessante, o foco da treta aqui é outro: Crítias. Se Alcibíades era impulsivo, Crítias era rancoroso, não no sentido filosófico elegante, mas no sentido moderno mesmo: orgulho ferido, zero autocrítica e muita vontade de revidar.


Qual foi a gota da d’água? Bem, acontece que ele achou o “amor de sua vida” e não foi muito prudente nas questões amorosas e se entregou devassamente à pessoa amada, humilhando-se e mendigando sua afeição ao ponto de ser comparado com um porco que se esfregava nas pedras. Essa foi literalmente a interpretação de seu mestre que tentou dissuadi-lo, dizendo que sua ação era vil e não apropriada para um homem de bem.


Dá para imaginar a cena: um grupo reunido ao redor de uma mesa com um farto banquete, clima social rolando, e de repente o mestre solta uma reprimenda pública. Não tem como isso terminar bem. E não é como se isso fosse uma novidade na história. Existe até uma anedota atribuída a Pitágoras sobre um aluno que, após ser humilhado em público, acabou se matando. Pode não ser fato histórico, mas a mensagem é clara: vergonha pública é uma arma perigosa. E foi nisso que o discípulo se apegou para depois armado, investir contra seu mestre.

E aqui começa o problema, porque, convenhamos: mesmo errado, ninguém gosta de ser exposto. E muito menos na frente dos outros. A crítica até podia ser justa, mas o formato pode ser questionável!


Então fica a pergunta inevitável: Sócrates, o cara da prudência, vacilou?


Talvez.


Mas também não é tão simples assim.


Quer entender isso melhor? Então preste atenção: Antes de expor Crítias, Sócrates já tinha conversado com ele em particular. Tentou resolver discretamente, no famoso “papo no ouvido”, mas não funcionou e Crítias ignorou completamente seu conselho. Penso que, com esse fato, o mestre partiu para o plano B: correção pública. A expectativa dele era, certamente, que o discípulo tivesse maturidade para reconhecer o erro. Afinal de contas, ouvir o que a gente não quer é difícil, mas é essencial.


Não foi o caso, pois o moço não gostou do puxão de orelha e ficou com o rancor acumulado. Anos depois, Crítias chega ao poder durante o governo oligárquico conhecido como a Tirania dos Trinta. E o que ele faz? Basicamente tenta censurar a “arte do discurso”. Isso mesmo! O ex-discípulo do filósofo mais conhecido, justamente por fazer perguntas inconvenientes, decide limitar exatamente isso. Coincidência? Difícil acreditar. Na prática, isso afetava diretamente Sócrates, que passou a ser proibido de conversar com os jovens. E, naquela época, “jovem” era quase todo mundo com menos de 30. Ou seja: uma censura bem direcionada (como vemos hoje em nossa sociedade, em distintas formas).


Assim, chamado para se explicar, Sócrates faz o que melhor sabia fazer: perguntar e transformar a situação num diálogo quase cômico, expondo as contradições da regra com uma calma irritante. Vou reproduzir aqui um trecho do diálogo que Sócrates teve com seus censores:

Sócrates perguntou: “Tenho vossa permissão para vos perguntar sobre qualquer ponto de vossas ordens que eu não tenha entendido?”“Tens,” responderam. “Bem,” ele começou, “disponho-me a obedecer as leis. Mas para não transgredi-las não intencionalmente por ignorância, desejo claras instruções de vós. Pensais que a arte do discurso que me mandais deixar de praticar está associada à argumentação correta ou incorreta? Pois se à correta, fica claro que devo abster-me da argumentação correta; mas se pensais que está associada à incorreta, fica claro que devo tentar argumentar e raciocinar corretamente.”“Como és ignorante, Sócrates,” Cáricles observou em tom irritado, “formulamos nossa ordem em linguagem de fácil compreensão: não te é permitido manter qualquer conversação que seja com os jovens.”“Se é assim”, replicou Sócrates, “para que não se possa suscitar nenhum problema quanto à minha obediência, por favor fixai o limite de idade abaixo do qual um homem deve ser considerado jovem.”“Enquanto”, replicou, por sua vez, Cáricles, “não lhe for permitido ter assento no Conselho, pois até então falta-lhe sabedoria. Não conversarás com quem quer que seja que tenha menos de trinta anos.”“Suponhais que eu queira comprar algo... não posso sequer perguntar o preço se o vendedor tiver menos que trinta anos?”“Ah, sim,” respondeu Cáricles, “podes nesses casos. O problema, Sócrates, é que tens o hábito de fazer perguntas para as quais já sabes a resposta: é isso que não é permitido que faças.”“Devo então deixar de responder, se um jovem perguntar-me algo que sei? Por exemplo, ‘Onde mora Cáricles?’ ou ‘Onde está Crítias?’”“Sim,” respondeu Cáricles, “podes, em tais casos.” (Xenofonte, 2006, p. 31)

Percebe-se facilmente que Sócrates se divertia com o colóquio e escarnecia de seus interlocutores, embora numa situação de constrangimento que, certamente, poderia ter sido evitada. Dá até para especular: e se Sócrates não tivesse exposto Crítias? Teria evitado problemas? Talvez. Mas também talvez não. Porque o ponto central não é o evento em si — é como cada um reage. Crítias poderia ter aprendido com a crítica. Poderia ter amadurecido. Escolheu o contrário.


Conclusão (ou quase isso)


Mesmo que Crítias jamais tivesse dado as caras na Atenas do século V, Sócrates teria arrumado inimigos de sobra: ele adorava cutucar sofistas, políticos, poetas, demagogos — enfim, qualquer um que se achasse sábio demais para ser questionado. Portanto, ainda que um dia — agora abandonemos qualquer pudor intelectual e entremos de cabeça na ficção científica — alguém inventasse uma máquina do tempo e surgisse no exato instante do banquete para puxar Sócrates pelo manto e sussurrar: “Não critique Crítias, isso pode lhe trazer problemas”, o viajante rapidamente descobriria que falar de futuro com Sócrates seria perda de tempo. O mestre o deixaria tão zonzo com perguntas que ele mesmo concluiria que ninguém deve agir por medo do que virá, mas pela justiça do que se é no momento.

No final, Sócrates provavelmente encerraria a conversa com aquele ar de quem sabe que não sabe, mas sabe o suficiente para incomodar: “Se é incorreto corrigir Críticas, não estaria eu deixando-o no erro? Mas se é correto repreendê-lo, por que não o faria? Dizes que vou morrer… mas não é muito pior cometer a injustiça de deixar meu amigo perdido sem virtude?”


Imagine, então, que não se trate mais de Sócrates, mas de um professor, um intelectual, desses que insistem em fazer perguntas inconvenientes em tempos de opiniões muito certeiras e certezas muito frágeis. Ele certamente iria criticar muitas ideias, metodologias, questionar estatísticas e previsões sociológicas, desmontar discursos prontos e muitas metanarrativas consagradas, tanto por autores, políticos, jornalistas e influenciadores do tipo “lacradores” e, de quebra, expor a ignorância de figuras bastante influentes. Ou seja: mesmo que não existisse um “Crítias” moderno para se sentir ofendido, inimigos não faltariam para esse professor — bastaria um livro, um curso, um seminário, um artigo ou um simples ensaio, como este, para a lista crescer.


Agora levemos a imaginação ao absurdo: suponhamos que uma pessoa bem-intencionado, vindo de um futuro distante, podendo ser o mesmo viajante do tempo que tentou convencer Sócrates, mas que desta vez, por algum problema técnico, a máquina não teve potência para lançá-lo à Grécia antiga, mas aos tempos de hoje, fazendo-o aparecer minutos antes de uma conferência do intelectual aqui imaginado, ou antes da publicação de uma de suas obras para avisá-lo: “Professor, por favor, não toque nesse assunto. Vai dar problema, vai viralizar para o lado errado e o senhor será cancelado!”.


Se esse professor for meio “socrático”, é claro que reagirá com muitas indagações até que o viajante perceba que tentar convencer alguém com previsões futuras, e não com argumentos adequados, resulta em perda de tempo (e tecnologia). Por fim, o professor vai agradecer pela a preocupação do viajante do tempo, mas concluir, com aquela ironia calma que só irrita mais quem tenta salvá-lo de si mesmo: “Se é certo dizer o que precisa ser dito, por que eu me calaria? Se o futuro é tão frágil que depende de minha coragem, talvez o problema não esteja no que digo, mas no mundo que você viu nesse seu futuro. E, afinal, pior que sofrer as consequências é deixar que a mentira passe impune — ou permitir que meus alunos permaneçam confortáveis no erro”.


“Mas você será cancelado!” — poderia insistir o viajante, ao qual o professor, já visivelmente perdendo a paciência, responderia: “foda-se!”. E assim ele entraria na sala, ajeitando o microfone, ou enviaria o texto para editora, pronto para ser criticado, vaiado com honra e até banido das suas redes sociais, sofrendo morte virtual pela cicuta do ódio contra quem pensa diferente. Se for o mesmo viajante que fora à Grécia, vai concluir que a natureza do homo sapiens é ser mesmo homo rixens, pois é de rixa em rixa que vamos tocando a humanidade.


 
 
 

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