Plutarco e a piração do Navio de Teseu
Os atenienses ficaram tão apegados ao barco desse herói que o preservaram e passaram séculos fazendo manutenção nele como quem tenta salvar um aparelho antigo, trocando peça por peça

Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva
Vou fazer aqui uma pergunta direta: Você é a mesma pessoa que era quando nasceu? Ou melhor, para ser menos radical: é a mesma pessoa que era há 20 anos? Ou há 10 ou 5? Ou considera-se alguém totalmente diferente? Provavelmente já tenha pensado nisso, não é? Se sim, você pensou filosoficamente, pois essa é uma questão que a filosofia tem lidado ao longo de sua história e aparece, pela primeira vez de modo mais elaborado, com Plutarco em seu livro Vidas Paralelas. Pura piração, não é? Mas vamos falar sério e chamar isso de “paradoxo” e vamos corrigir o título, o qual traz uma palavra meio prosaica e falada apenas pela linguagem informal: “piração”. É óbvio que o título fica melhor assim: “Plutarco e o paradoxo do navio de Teseu”. Não ficou? Mais sério, mais clássico e mais acadêmico, embora, no fundo, muitos achem que não passa mesmo de uma piração.
Então falemos um pouco sobre esse paradoxo pirado a partir da obra Vidas Paralelas e de seu autor. Comecemos pelo autor: Plutarco foi um filósofo, historiador e biógrafo grego, que nasceu em 46 d.C. em Queroneia, onde não ficou por muito tempo e logo quis ganhar o mundo para além dela. Para tanto, mudou-se para Atenas, onde estudou filosofia e matemática. Depois, circulou pelo Egito e encontrou em Roma um segundo lar intelectual, onde ensinou, pesquisou e acabou se tornando cidadão romano. Por fim, virou sacerdote de Apolo em Delfos em sua idade avançada e morreu por volta de 120 d.C. Um aventureiro e tanto, não?
Esse deslocamento constante entre Grécia e Roma marcou profundamente sua obra, sobretudo seu opus magnum, no qual buscou comparar os grandes vultos da Grécia e de Roma, sempre interessado menos nos fatos em si do que no que eles possam revelar sobre o caráter humano, uma vez que a escrita de suas biografias preza pelo passado como espelho das permanências e transformações do humano.
Explicando melhor, o livro intitulado Vidas Paralelas é um conjunto de biografias de figuras célebres da Grécia e de Roma, colocadas lado a lado não tanto para contar a história como ela foi, mas para observar o que há de comum — virtudes, falhas, grandezas e desvios — na natureza humana. Pode até ser que ele tenha escrito mais, mas dessas Vidas que chegaram até nós, restam 23 pares completos, além de quatro biografias isoladas, que escapam a esse jogo de espelhamento. Ao aproximar um grego de um romano, Plutarco busca menos a cronologia dos fatos e mais o caráter que atravessa as épocas e o que essas figuras podem auxiliar em nosso caráter. Ele começa, inclusive, com figuras míticas: Teseu e Rômulo, passando por nomes bem conhecidos, como Péricles, Licurgo, Alcibíades, Tibério, Demóstenes e outros tantos.
Bem na primeira biografia, falando da vida e dos feitos de Teseu, o autor comenta o paradoxo. Se esse herói só existiu nos mitos gregos ou de fato, isso pouco importa aqui. Há historiadores que acreditam que ele tenha governado Atenas entre 1.234 e 1.204 a.C. e cuja existência foi de 1249 até ao ano de 1199 a.C. Sua história é longa e o autor das Vidas Paralelas caprichou nos detalhes, mas vou resumir tudo isso a dois parágrafos:
Primeiro: No prólogo da vida de Teseu, Plutarco explica que, ao tratar de tempos muito antigos, mistura-se inevitavelmente história e lenda, pois os relatos antigos estão cercados de fábulas e incertezas. Por isso, decide comparar Teseu a Rômulo, vendo entre ambos há várias semelhanças: origem semi-divina, fundação e organização de grandes cidades, coragem extraordinária e conflitos trágicos com os próprios parentes e cidadãos. Em seguida, narra a origem de Teseu, filho de Egeu e Etra, educado em Trezena sob a influência do sábio Piteu, e descreve como o jovem, inspirado pelos feitos de Hércules, escolheu viajar por terra até Atenas para enfrentar bandidos e monstros, realizando sucessivas façanhas heróicas. Após ser reconhecido por Egeu em Atenas, Teseu derrota inimigos políticos, captura o touro de Maratona e, por fim, oferece-se voluntariamente para partir a Creta com os jovens destinados ao tributo imposto por Minos, iniciando a célebre aventura do Minotauro (já ouviu falar disso, não?).
Segundo: Sobre sua grande viagem, Teseu partiu de Atenas com os jovens destinados ao tributo de Creta, após realizar ritos de súplica a Apolo e pedir a proteção de Afrodite para a travessia. Em Creta, venceu o Minotauro com a ajuda de Ariadne, que lhe deu o fio para escapar do Labirinto, libertando assim os jovens atenienses e retornando com eles pelo mar. Na viagem de volta, passou por Delos, onde ofereceu sacrifícios a Apolo e celebrou uma dança em memória dos caminhos do Labirinto. Isso muitos conhecem, pois são “causos” reproduzidos em livros e filmes que, com certeza, alguns de vocês já devem ter lido ou assistido.
XXVII. O navio no qual Teseu partiu e regressou era uma galeota de trinta remos, que os Atenienses guardaram até ao tempo de Demétrio de Falero, retirando sempre as velhas peças de madeira, à medida que apodreciam, e colocando outras novas em seus lugares; de maneira que depois, nas disputas dos Filósofos sobre as coisas que aumentam, a saber, se permanecem unas ou se fazem outras, essa galeota era sempre alegada com exemplo de dúvida, porque uns mantinham que era um mesmo barco, enquanto outros, ao contrário, sustentavam que não.
Quer que eu traduza o trecho? Vamos lá: os atenienses ficaram tão apegados ao barco desse herói que o preservaram e passaram séculos fazendo manutenção nele como quem tenta salvar um aparelho antigo, trocando peça por peça. A madeira apodrecia? Trocava. O casco rachava? Reformava. No fim, não sobrou praticamente nada do barco original — mas insistiam em dizer: “é o mesmo navio”; enquanto outros diziam: “trata-se de outro navio”. E foi aí que os filósofos entraram em crise existencial coletiva: se você substitui todas as partes de uma coisa, ela continua sendo aquela coisa?
O paradoxo retoma uma velha questão, inaugurada por Heráclito e Parmênides, lá pelo final do século VI e início do século V a.C. que é a discussão sobre o estatuto ontológico do ser diante da mudança, isto é, a mudança pertence ao ser ou apenas à aparência? Como diz Ernst Cassirer, no livro O mito do Estado, essa contraposição entre a filosofia do “ser” e a filosofia do “devir” vai fundar mesmo a filosofia grega. Heráclito defendia que tudo está em fluxo contínuo, isto é, em constante mudança. Acho que quase todos conhecem a frase: “Ninguém entra duas vezes no mesmo rio”. Já Parmênides dizia o contrário, ou seja, de que a realidade era o que era, sem nenhuma mudança, a não ser nas aparências. Ele sustenta que o ser é uno, eterno, imóvel e necessário, enquanto que Heráclito, embora não negue o ser, o pensa como processo, como algo que é sendo, isto é, como devir regulado pelo logos.
Não vamos entrar nessa briga, mas considerar que nenhum dos dois está totalmente errado ou totalmente certo, pois a realidade se mantém e se altera, de alguma forma, exigindo uma compreensão que dê conta, ao mesmo tempo, da permanência e da mudança. Até porque a trajetória pessoal também se constrói assim: não como ruptura absoluta nem como identidade rígida, mas como um processo em que algo permanece enquanto outra coisa se transforma. O rio de Heráclito podia mudar suas águas, mas o leito era o mesmo, sua posição geográfica também, além de outros elementos que podem ser considerados constantes. Pois o rio é fruto de uma combinação de coisas, tal como somos enquanto pessoas. No sentido filosófico, “pessoa” não é apenas um ser humano qualquer, mas um ente reconhecido como portador de identidade, uma história, uma consciência, de relações, de conexões com pessoas e até de sonhos.
Mesmo assim, muitos se perguntam: “Se meu corpo, minhas ideias e minhas memórias mudam, em que sentido continuo sendo eu?” Bom, ainda que as células mudem, para a filosofia a “pessoa” não significa apenas um organismo biologicamente vivo, mas um sujeito que possuiu identidade, consciência, história e reconhecimento humano. Machado de Assis, por exemplo, continua sendo uma pessoa mesmo após sua morte, porque sua pessoalidade não desaparece do plano simbólico, histórico e racional.
Como argumenta o filósofo e sociólogo alemão Georg Simmel, em A tragédia da cultura (2020), no ápice de sua consciência, a vida incorpora de modo imediato o próprio passado, mantendo-o vivo em seu conteúdo e não apenas como causa mecânica de mudanças posteriores. E é isso que fica e nos faz a mesma “pessoa”, embora com tantas mudanças. Ou seja, o “eu” vira a “pessoa” e se torna o legado de todos, após o fim da “viagem”. Daí perguntar: Ficará algo que vão querer manter e reformar, como fizeram com o navio de Teseu? Ou vão preferir deixar esse legado ao léu para que se deteriore e desapareça?
Não sou couch filosófico, mas, de boa, meu brother: Cuide bem do seu navio, porque, no fim das contas, todo mundo troca peças ao longo da vida — muda de ideias, de corpo, de desejos, de amigos, de amores, de senha, de foto de perfil, de personalidade e hoje em dia de partes do corpo (próteses) e até de sexo. Talvez seja exatamente isso que assuste no paradoxo de Teseu: descobrir que não basta continuar existindo; é preciso continuar sendo alguém que mereça ser lembrado quando já não restar quase nenhuma madeira original. Já pensou nisso? É um assunto sério, não é piração. Trata-se do paradoxo de nossa existência: enquanto o “eu” vai embora aos poucos — dissolvido nas mudanças, nas perdas, nos esquecimentos e nas versões antigas de nós mesmos — a “pessoa” permanece, mesmo após o sumiço do “eu”. Fica o nome, a memória, os afetos, os rastros, aquilo que os outros ainda reconhecem como sendo “você”, mesmo quando quase nada do antigo permanece intacto. Talvez seja isso, afinal, uma pessoa: não aquilo que nunca muda, mas aquilo que continua fazendo sentido apesar de todas as mudanças.
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