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O leito de Procusto: quando a medida se torna mais importante que a pessoa

Foto do escritor: WILSON ALVES DE PAIVA
WILSON ALVES DE PAIVA
há 4 dias
10 min de leitura

E se o problema não estiver nas pessoas, mas nas medidas que usamos para julgá-las? Do mito grego à escola e à política brasileira, o leito de Procusto nos alerta para os perigos de impor padrões rígidos a uma realidade diversa. Afinal, devemos adaptar as pessoas às medidas ou repensar as medidas para acolher as pessoas?



O leito de Procusto

Versão musical no final do texto


Autores:

Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva e

Prof. Dr. Ricardo Antônio Gonçalves Teixeira


Caro leitor,

Imagine que você esteja percorrendo uma estrada antiga, daquelas ladeadas por pedras, mato e histórias que fariam qualquer pessoa sensata desconfiar até da própria sombra. Depois de horas de caminhada, eis que surge uma casa. O proprietário vem recebê-lo com um sorriso acolhedor, oferece comida, puxa conversa e, com a generosidade típica de quem parece não ter segundas intenções, anuncia que há uma cama à sua disposição. Que alívio! Finalmente, um teto, um prato de comida e um lugar para descansar os ossos. Mas, como já sabemos que quando a esmola é grande o santo desconfia, essa oferta tem um pequeno inconveniente: a cama não foi feita para acomodar o viajante. É o viajante que tem que se adaptar à cama. Estranho, não é? Bota estanho nisso!


Mas era esse o método de Procusto, personagem meio desconhecido da mitologia grega, que, segundo alguns relatos, vivia próximo ao caminho entre Atenas e Elêusis e oferecia hospedagem aos viajantes que por ali passavam. Quanta bondade! Mas assim que os viajantes aceitavam, esse psicopata obrigava seus hóspedes a se deitarem em um leito. Se a pessoa fosse maior do que a cama, o danado do hater cortava o que sobrava. Se fosse menor, esticava braços e pernas até que o corpo ficasse do tamanho desejado.


Mama mia! que ideia macabra, não? Vai acostumando, pois a cultura clássica tem muito disso. O importante é que esses “causos” estranhos nos advertem e nos ensinam muita coisa. Que ver? O Leito de Procusto significa, figurativamente, forçar pessoas, ideias ou situações a se encaixarem em um padrão rígido, mesmo que, para isso, seja necessário violentar a pessoa ou deformar a própria realidade. E não é difícil descobrir que, fora da mitologia, há quem faça exatamente isso com os outros. O resultado era e sempre será trágico. Sabe por quê? Porque Procusto possuía uma medida e acreditava que todo o mundo deveria corresponder a ela. Ou seja, na cabeça desse maluco, a cama estava certa, as pessoas que estavam erradas e precisavam ser corrigidas.


Mas veja a reviravolta do mito: Teseu, herói conhecido por enfrentar diferentes perigos, estava um dia a caminho de Atenas. Ao chegar à casa de Procusto e perceber a tramoia, capturou o escroto e fez com que ele experimentasse seu próprio método, jogando-o em sua própria cama. Bem feito! Aquele que havia passado a vida medindo os outros, foi obrigado a se ajustar a ela, pois também não cabia nela. Percebe a poderosa ironia que há nesta parte do mito? Procusto acreditava estar acima da medida que criara. Ele julgava os demais sem imaginar que um dia também poderia ser julgado pelo mesmo padrão. Mas uma medida rígida não conhece seu criador. Quando transformamos um padrão em regra absoluta, ninguém está completamente protegido dele. Não esqueça disso!


Depois dessa reflexão, vem a pergunta: o que acontece quando transformamos uma medida em uma verdade sobre as pessoas? Ora, medidas são necessárias, afinal de contas todos nós medimos distâncias, tempos, temperaturas, desempenhos etc. Criamos referências para compreender o mundo e organizar a vida e, inclusive, nossa produção (ave ABNT!). O problema começa quando esquecemos que uma referência é apenas um instrumental, e passamos a tratá-la como se fosse uma verdade absoluta. Nesse momento, já não usamos a medida para compreender as pessoas; começamos a julgar as pessoas pela medida.


Era isso que Procusto fazia. Ele não perguntava quem era o viajante, de onde vinha, qual era sua história ou quais eram as características de seu corpo. Havia apenas uma pergunta: cabe ou não cabe? Quando alguém não correspondia ao tamanho esperado, a conclusão era imediata: algo precisava ser corrigido nessa pessoa, modificado, adaptado para uma “reengenharia” do sujeito. E isso aconteceu muito na história da humanidade: veja, por exemplo, as grandes “engenharias” sociais dos regimes totalitários do século XX que procuravam eliminar a subjetividade. Nesses regimes (comunismo, nazismo e fascismo), a igualdade era frequentemente confundida com uniformidade: em vez de reconhecer a dignidade de cada indivíduo, tratava-se de apagar as diferenças, como se a sociedade ideal fosse aquela em que todos pensassem, agissem e até desejassem as mesmas coisas. O problema, portanto, não estava em buscar a igualdade, mas em transformar essa, digamos, nobre ideia numa espécie de leito de Procusto ideológico, no qual toda singularidade que ousasse ultrapassar as medidas oficiais deveria ser cortada — ou esticada — até desaparecer.


Quer exemplos atuais? Pois bem: Na política: tentar fazer com que toda a sociedade se enquadre em uma única ideologia. Pensar, por exemplo, que todos devem ser “progressistas” ou “conservadores” (e que o “outro” deva ser xingado, desprezado e cancelado). Na ciência: selecionar apenas os dados que confirmam uma teoria e descartar aqueles que a contradizem; ou ir atrás apenas dos autores ou argumentos que reforcem o ponto de vista defendido. Na administração: exigir que realidades muito diferentes obedeçam a um modelo único de gestão. Tudo isso só gera problemas, pois oferecer exatamente a mesma coisa a todos nem sempre é justo, pois pessoas diferentes podem precisar de condições distintas para participar de uma mesma experiência. Eis a provocação do mito de Procusto: a violência começa quando deixamos de reconhecer a diferença como parte da condição humana e passamos a tratá-la como defeito a ser corrigido.


Deixando a antiga estrada grega e entrando em um corredor da escola para discutirmos um pouco sobre educação, vemos o velho leito quando se exige que todos os estudantes aprendam no mesmo ritmo e da mesma maneira, ignorando suas necessidades e capacidades. Ou seja, no “espírito” do mito, podemos dizer que no lugar da casa de Procusto, há salas, carteiras, cadernos, avaliações, horários e professores. Evidentemente, não encontramos ali a violência física narrada no mito. Mas isso não significa que o leito de Procusto tenha desaparecido completamente, pois ele pode continuar existindo de maneira simbólica. Isso acontece, por exemplo, quando imaginamos que existe uma maneira correta de ser estudante e, a partir dela, começamos a avaliar todos os estudantes reais.


Podemos chamar essa figura de “estudante ideal” ou, talvez, de “estudante médio”. Ele aprende aproximadamente no tempo previsto pelo planejamento, compreende a explicação depois de algumas tentativas, permanece sentado pelo período esperado, mantém a atenção, lê e escreve de acordo com determinado nível, realiza as atividades dentro do prazo e obtém resultados considerados satisfatórios. Por outro lado, alguns pensam que o “estudante engajado”, de alguma forma “ideal” para alguns, é aquele que veste roupas e cabelos exóticos, mata aula, fuma maconha e sai pelas ruas fazendo protestos e balançando bandeiras ideológicas. Mas... esses estudantes realmente existem? Claro que sim! Muitos podem responder e não temos como discordar, até porque encontramos esses perfis em determinados momentos e lugares. Mas dificilmente alguém corresponda a eles o tempo inteiro e em todas as situações. Além, é claro, de encontrarmos estudantes que não cabem nessas caminhas.


Então, temos que analisar a situação, quando o estudante não cabe no leito programado ou pensado para ele. Uma pessoa pode aprender matemática com rapidez e precisar de mais tempo para escrever um texto. Pode compreender conceitos complexos e sentir dificuldade para falar diante da turma. Pode ter excelente memória e perder a concentração durante uma explicação interminável, sobretudo quando o professor parece empenhado em testar os limites da paciência humana. Somos menos regulares do que as classificações fazem parecer. Ainda bem! Imagine o tédio de uma humanidade em que todos aprendessem no mesmo ritmo, pensassem da mesma maneira e respondessem às perguntas exatamente como previsto no gabarito. Seria o triunfo de Procusto, mas uma tragédia para a diversidade humana.


O problema começa quando a escola transforma o estudante médio (ou um dos dois acima citados) em medida absoluta. Então aparecem aqueles que sobram e aqueles que parecem faltar. Os primeiros aprendem rapidamente, fazem perguntas inesperadas, estabelecem relações entre ideias e desejam avançar para assuntos que ainda não chegaram ao planejamento. Nem sempre a escola sabe o que fazer com eles. Quando terminam uma atividade antes dos colegas, recebem mais exercícios iguais aos que acabaram de resolver. Afinal, se já terminaram, por que não aproveitar a ocasião para fazê-los trabalhar um pouco mais? Imagine uma estudante que resolve um problema de matemática e descobre uma segunda maneira de chegar ao resultado. Entusiasmada, levanta a mão para explicar seu raciocínio, mas escuta que deve esperar: a turma ainda não terminou. Uma vez, tudo bem. Acontece. Mas, se a situação se repete, ela pode aprender uma lição que não aparece no currículo: pensar além da conta pode ser inconveniente. Diante disso, o professor precisa planejar, replanejar e adaptar.


Entretanto, quando o planejamento se converte em lei imutável, pouco importa o ponto de partida. O conteúdo precisa ser aprendido naquela data, a avaliação será aplicada naquele dia e todos deverão apresentar resultados aproximadamente iguais. Começa, então, o esticamento de Procusto: mais pressa, mais cobranças, mais comparações. “Todo mundo entendeu, só você não”. “Você precisa acompanhar a turma”. “Não posso parar a aula por causa de um estudante”. São frases aparentemente banais, mas que podem produzir consequências profundas. O estudante deixa de pensar que precisa encontrar outro caminho para aprender e começa a acreditar que ele próprio é o problema. Em vez de questionar a medida, passa a questionar o próprio valor. Eis uma das maiores crueldades de certos padrões: convencer quem não cabe neles de que a culpa é exclusivamente sua.


Naturalmente, não se trata de imaginar que todo estudante que encontra dificuldades seja vítima de uma escola injusta, nem de supor que toda exigência pedagógica represente uma violência. Aprender requer esforço, disciplina e enfrentamento de desafios. A questão é saber se estamos oferecendo desafios que favorecem o desenvolvimento ou apenas exigindo que todos se ajustem a um modelo previamente estabelecido. Criticar o leito de Procusto não significa defender uma escola sem critérios, sem avaliações ou sem compromisso com o conhecimento. Significa perguntar se os critérios adotados cumprem sua finalidade educativa ou se, em algum momento, passam a valer mais do que as próprias pessoas para as quais foram criados.


Pensemos em uma situação bastante simples. Um prédio público anuncia que sua entrada é permitida a todos, mas possui apenas uma escadaria. Formalmente, ninguém está proibido de entrar. Na prática, porém, uma pessoa com mobilidade reduzida pode encontrar obstáculos que os demais sequer percebem. Seria justo afirmar que nada precisa mudar, pois a escada é a mesma para todos? A instalação de uma rampa ou de um elevador não concede a algumas pessoas um privilégio. Cria condições para que possam exercer um direito que, em princípio, já era de todos. Na educação, ocorre algo semelhante. Oferecer a mesma atividade, o mesmo tempo e os mesmos recursos a todos pode parecer perfeitamente igualitário. Mas será que essa igualdade formal garante, por si só, oportunidades reais de aprendizagem?


Talvez precisemos distinguir duas coisas: reconhecer a todos a mesma dignidade e oferecer condições adequadas às diferentes necessidades. A primeira exigência não elimina a segunda; pelo contrário, pode torná-la necessária. Isso não significa que cada estudante deva receber uma educação inteiramente individualizada, como se a escola pudesse funcionar com um professor exclusivo para cada pessoa — isso não acontece em nenhum lugar do mundo. Significa reconhecer que a igualdade de direitos nem sempre se realiza pela uniformidade dos procedimentos. Às vezes, para garantir oportunidades equivalentes, precisamos agir de maneiras diferentes.


Encaminhando para a conclusão, não precisamos colocar professores, gestores e famílias no leito de Procusto para fazê-los experimentar a mesma violência (Não é esta a mensagem do mito, embora Teseu tenha feito isso). A questão não é inverter os papéis, mas desmontar a cama. Precisamos examinar as medidas adotadas, perguntar a quem servem e quem fica de fora quando são transformadas em regras absolutas. Afinal, é mais cômodo adaptar as pessoas às estruturas existentes do que rever as estruturas. A primeira opção preserva os procedimentos; a segunda exige reflexão, criatividade e mudanças. Mas a educação não existe para preservar procedimentos por mera conveniência: existe para favorecer a formação humana. Isso não significa abandonar objetivos, conhecimentos, avaliações ou exigências. Uma escola comprometida com a aprendizagem precisa de critérios e de compromisso com o ensino. Precisa, porém, compreender que os caminhos podem variar e que uma dificuldade não é uma sentença definitiva. Padronizar é confortável; lidar com a diversidade dá trabalho. Exige observar, escutar, rever certezas e admitir que uma solução eficiente para alguns pode ser insuficiente para outros.


Educar, afinal, não é fabricar pessoas em série, como peças de uma linha de montagem. É criar condições para que cada estudante desenvolva suas possibilidades, amplie seus conhecimentos e conquiste autonomia. Portanto, quando alguém não couber na cama, talvez seja hora de fazer a pergunta que Procusto jamais fizera: o problema está na pessoa ou na medida que escolhemos para julgá-la? Talvez não haja uma resposta simples para todas as situações. Mas há uma certeza: quando a educação se dedica a aparar diferenças para preservar padrões, corre o risco de transformar oportunidades de crescimento em instrumentos de exclusão. E então, em vez de ampliar horizontes, a escola passa a reproduzir a velha crueldade do mito e amplia o disparate na vida social.


Na política brasileira atual, por exemplo, parece que Procusto resolveu duplicar a cama: de um lado, a dos lulistas; de outro, a dos bolsonaristas. No meio, um país dividido não apenas por ideias, mas também por afetos, ressentimentos e paixões que, às vezes, transformam adversários em inimigos e qualquer tentativa de diálogo em sinal de fraqueza ou traição. Se você não cabe em uma cama, logo tentam empurrá-lo para a outra, como se não houvesse espaço para pensar com autonomia, concordar em alguns pontos e discordar em outros. Mas será que precisamos mesmo escolher entre dois leitos ou seria mais sensato repensar ambos? Afinal, uma sociedade democrática não deveria exigir que todos se ajustassem a uma só visão ou a dois modelos políticos prontos, muito menos que sacrificassem a própria consciência para caber neles.


Talvez a verdadeira maturidade política comece quando deixamos de perguntar a qual cama o outro pertence e passamos a discutir se essas camas, afinal, dão conta da complexidade do país e do mundo em que vivemos.


Nesse sentido, educar é também formar pessoas capazes de pensar por conta própria, sem se deixarem aprisionar por camas ideológicas prontas. É cultivar, no sentido kantiano, a autonomia: a coragem de fazer uso do próprio entendimento, examinar criticamente as ideias que recebemos e não aceitar como verdade tudo aquilo que um grupo defende. Educar não é trocar uma cama por outra, nem ensinar o estudante a escolher o lado supostamente correto, mas ajudá-lo a pensar sem muletas, a argumentar sem ódio e a discordar sem transformar o outro em inimigo. Afinal, a autonomia não consiste em caber melhor em uma cama, mas em ter liberdade intelectual para questionar por que precisamos escolher entre elas. Educar é fazer o estudante entender que a medida deve servir à pessoa, e não a pessoa à medida. Afinal, se alguém não cabe na cama, antes de cortar ou esticar o corpo, que tal começar examinando o tamanho do leito?

 


 
 
 

3 comentários

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Paulo Sergio
há 4 dias
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Incluir não é exigir que todos sejam iguais para pertencer. É transformar as condições de ensino para que todos tenham a oportunidade de aprender, cada qual na sua medida. Uma medida que, para uns, exigirá mais apoio e, para outros, menos, respeitando as necessidades, os ritmos e as potencialidades de cada estudante. O essencial é que todos se sintam acolhidos, respeitados e confortáveis em seu processo de aprendizagem. Parabéns Dr. Wilson

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helena.cfumo
há 3 dias
Respondendo a

Uma aprendizagem profunda para uma sociedade com crise de valores como Moçambique e até o mundo em geral.

Mas uma pequena pergunta o pensamento de procus... não torna o estudante mais lento, relaxado, para respeitar as suas habilidades?

Gostei pois ajuda nos a respeitar a todos e cada um segundo o que é....

Mas também como tratar os preguiçosos, mau carácter é mal intensionados? Que leito ou cama devem merecer?

Não cabe a mim medir porque a mesma medida que eu usar para outros vai doer se for aplicada pata mim. Mateus 7

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Dourivan Abreu
Dourivan Abreu
há 4 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Mais um texto instigante e brilhante. O problema com a sociedade é que colocar num molde é mais fácil do que buscar medidas adequadas à diversidade humana.


Além disso, se esquecem de que...


"Mateus, 7

2 Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós."


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