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Aristóteles, o tiozão que pensou nos jovens

Foto do escritor: WILSON ALVES DE PAIVA
WILSON ALVES DE PAIVA
22 de set.
8 min de leitura


Entre suas muitas contribuições, uma das mais famosas é o silogismo: um jeito de ganhar uma discussão sem levantar a voz


Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva


Você provavelmente já deve ter ouvido falar de Aristóteles. Quem não ouviu, não é? Pois bem, ele foi aquele filósofo greco-macedônio que parecia não ter tempo ruim. Pensou sobre tudo um pouco: Natureza, política, ética, linguagem, arte e tantas outras coisas, que fico pensando se existisse Wikipédia na época, metade dos verbetes teria sido dele. Mas o mais interessante é que, mesmo vivendo há mais de dois mil anos, ele ainda fala direto com a gente — especialmente com os jovens. Como diz o filósofo americano Mortimer J. Adler, no livro Aristóteles para todos: “Apesar de Aristóteles ter sido um grego que viveu há 25 séculos, ele conhecia as linhas gerais do mundo em que vivemos bem o suficiente para falar sobre ele como se estivesse vivo hoje” (Adler, 2010, p. 11).


Nascido em 384 a.C., em Estagira da Macedônia, Aristóteles cresceu num ambiente que incentivava a curiosidade. Nada de aceitar explicações prontas: era preciso observar, comparar e pensar. Ainda jovem foi para Atenas, onde estudou na famosa Academia de Platão. Ficou lá por quase 20 anos, durante os quais aprendeu muito, discordou bastante e seguiu seu próprio caminho. Enquanto Platão gostava do mundo das ideias, Aristóteles preferia o mundo concreto: plantas, animais e gente real. Depois de um tempo fora de Atenas, virou tutor de um jovem chamado Alexandre. Sim, ele mesmo: o futuro Alexandre, o Grande. Mais tarde voltou à cidade e fundou sua própria escola, o Liceu. Lá, ensinava caminhando, conversando, observando o mundo. Filosofia em modo passeio. Por isso, ele e seus alunos ficaram conhecidos como peripatéticos.


Entre suas muitas contribuições, uma das mais famosas é o silogismo: um jeito de ganhar uma discussão sem levantar a voz. Você começa com uma regra geral, aplica a regra a um caso específico e, quando a pessoa percebe, a conclusão já caiu no colo dela. Muita gente conhece a famosa citação dele:

Todo homem é mortal.Sócrates é homem.Logo, Sócrates é mortal.

Legal, não é? Veja como funciona o raciocínio: Ao dizer: Todo homem é mortal, Aristóteles estabelece uma regra geral. Não está falando de alguém específico, mas de uma classe inteira: homens. Em seguida, afirma: Sócrates é homem. Ou seja, pega um caso concreto de seu “avô intelectual” e o coloca dentro da regra geral. Sócrates não está solto no mundo: ele foi inserido na categoria “homem”, certo? Aí vem o desfecho: Logo, Sócrates é mortal. A conclusão não é uma opinião nem um palpite, mas a dedução lógica das duas premissas. Ela cai como uma luva. Se as duas frases anteriores são verdadeiras, negar essa conclusão seria contradizer a si mesmo, negar o óbvio. Até meu avozinho que era meio analfabeto iria entender isso, mesmo que tivesse que usar a Mimosa, a vaca preferida dele, como exemplo. Eu diria para ele: Vovô, é o seguinte:Toda vaca é mamífero.Mimosa é uma vaca.Logo, Mimosa é mamífero.“Uai, sô... é isso mesmo!” — responderia ele com seu mineres acentuado. 


Conduta

Mas a essa altura, o leitor pode perguntar o motivo do epíteto de “tiozão”, colocado no título deste causo. Bom, primeiro é porque ele morreu não tão velho assim, digno de levar a tag de “vovô sharp”, ou o apelido de “véio sabidão” e, por isso, qualquer jovem o classificaria como tiozão mesmo. Segundo, ele se preocupou mesmo com a conduta dos jovens e resolveu dar conselhos sábios a eles, como faz qualquer tiozão respeitável. Mas não entenda mal: aqui o termo não tem um sentido depreciativo, de quem responde antes de escutar, ensina sem aprender e que procura explicar o mundo com as mesmas frases há trinta anos. Não! Não é nesse sentido, mas no sentido carinhoso: aquele tiozão experiente, acessível e bem humorado que se preocupa com a juventude. Um tiozão que chama o jovem para caminhar, observa junto, erra junto e, no meio do caminho, solta um conselho que parece simples demais, até o dia em que a gente percebe que era exatamente o que precisava ouvir. 

Por isso, ele não ficou só na lógica. Aristóteles quis também entender como viver bem. E é aqui que entra seu lado “tiozão do bem”: aquele que chama o jovem para uma conversa séria, mas sem perder o bom humor. Em suas obras Ética a Eudemo e Ética a Nicômaco, ele basicamente diz: viver bem não é só sentir prazer. É construir um bom caráter. E isso dá trabalho — não tem aplicativo que resolva. A grande ideia dele é a eudaimonia, que costumamos traduzir por felicidade. Mas não é felicidade de momento, tipo alegria passageira, concedida por festas, baladas e alucinógenos, mas é uma vida que faz sentido como um todo. Uma vida bem vivida, construída ao longo do tempo, nas escolhas do dia a dia.


Bom, e como chegar lá? Pela virtude. E aqui entra a famosa “doutrina do meio-termo”: a virtude está entre os extremos. Coragem demais vira imprudência; de menos, covardia. Generosidade demais pode virar desperdício; de menos, avareza. O ponto certo depende da situação, da pessoa e do momento. Ou seja: viver bem é como dirigir. Nem acelerando demais, nem freando o tempo todo, mas com controle. 

Outro ponto importante: o ser humano aprende imitando. Desde pequeno, copiamos gestos, falas, comportamentos. Aristóteles chama isso de mímesis. A boa imitação educa, pois ela mostra ações humanas, escolhas, erros e consequências, e treina suas emoções para a vida real. E, numa conversa franca, Aristóteles dirá: “Agora, meu chapa, cuidado. Nem toda imitação melhora quem a faz. Repetir gestos vazios, copiar vícios e manias, glamourizar a violência ou a injustiça sem reflexão não forma o caráter mas, pelo contrário, deforma”. E se o jovem for meio leso, e perguntar: e é? A resposta será: “Se ainda não entendeu, tudo bem... virtude não nasce pronta. Papo reto: Imitar é inevitável; escolher quem e como imitar é que é o ponto, meu brother. A mímesis boa educa, amplia o olhar e treina as emoções; a ruim vira hábito torto, e hábito torto vira segunda natureza. Por isso, antes de copiar algo ou alguém, pense bem: isso me faz melhor ou só me faz igual, ou pior?”


Caráter

A caminhada da moçada jovem com Aristóteles só pode ser feita hoje por meio da leitura atenta de seus escritos, uma vez que não é possível voltar no tempo e participar de seus passeios circulantes e dialogados pelos jardins do Liceu. O tiozão sabia que não adianta discutir leis, cargos ou poder com quem ainda não aprendeu a escolher, a medir excessos, a conviver com o outro. Por isso, antes da política vem a ética: primeiro forma-se o caráter, depois sentir-se preparado para participar dos destinos da cidade, do estado ou do país. As Éticas são, no fundo, como se Aristóteles estivesse chamando os jovens para perto e dizendo: “escute aqui, meu parça, aprende a viver direito, seja virtuoso e correto, pois logo você vai viver com os outros, vai participar da vida social e poderá até ter cargos na vida pública e, para isso, é preciso estar preparado para não fazer cagada”.


Aristóteles não está propondo uma vida séria demais, sem prazer, sem emoção ou sem intensidade. Pelo contrário. Ele reconhece que os jovens vivem um momento de energia, desejo e descoberta — quase como se estivessem “embriagados de vida”. O problema não é sentir muito, mas não saber o que fazer com isso. Por isso, o autocontrole não é repressão, mas direção. Não é cortar o desejo, mas educá-lo. É fazer com que a razão ajude o impulso a não se perder. Porque, quando isso não acontece, o que começa como liberdade pode virar descontrole — e o que parecia prazer pode terminar em problema. Outro ponto fundamental é a ideia de escolha. Diferente dos animais, que agem por instinto, o ser humano escolhe. E escolher dá trabalho. Significa pensar antes de agir, medir consequências e assumir responsabilidades.


E aqui o filósofo de Estagira seria bem direto: não adianta terceirizar a própria vida. Não dá para culpar os pais, a escola, o algoritmo, a sociedade ou os outros o tempo todo. Em algum momento, a decisão é sua. Por isso, formar caráter é aprender a escolher bem — repetidamente. Porque, no fim, somos aquilo que fazemos muitas vezes. Hábito vira caráter. E caráter vira destino. E talvez seja por isso que Aristóteles ainda faça tanto sentido hoje. Em um mundo cheio de distrações, excessos e atalhos, ele lembra o básico que, curiosamente, é o mais difícil: pensar, equilibrar, escolher, agir e refletir. E é nesse ponto que o “tiozão” mostra sua força: ele não promete soluções mágicas, mas oferece algo melhor que possa levar à felicidade.


Mas se sairmos por aí perguntando o que é a felicidade, teremos respostas bem diferentes. Alguns acham que é ter dinheiro, sucesso e fama, outros podem afirmar que é gozar de saúde, ou ter liberdade, viajar, comer e dormir sem preocupações. Outros ainda vão dizer, com menos ambição, que felicidade é ter tempo livre, Wi-Fi bom e boletos pagos. Por fim, se perguntar isso a um morador de rua, a resposta, com certeza, será: “cara, felicidade é ter o que comer amanhã”. Aristóteles olharia para essa lista e daria uma balançada de cabeça com sorriso irônico de tiozão experiente e comentaria que tudo isso pode até ajudar, mas nada disso garante, por si só, uma vida boa. Dinheiro pode acabar, a fama é passageira, saúde falha, viagens passam, e o prazer muitas vezes enjoa.


Consequências

Bom, é preciso admitir que todos nós queremos uma vida boa, prazerosa, principalmente os jovens. Mas, cuidado! É preciso pensar nas consequências: nem todo prazer é bom, nem todo desejo merece ser seguido. A diferença entre viver bem e apenas viver intensamente está na capacidade de refletir antes de agir, de medir o impulso e escolher aquilo que, além de dar prazer agora, não trará arrependimento depois. Autocontrole não é repressão da vida, é cuidado com ela. É a razão ajudando o desejo a não se perder no excesso, para que a liberdade não vire prisão e o prazer não termine em dor.


Para o filósofo, o jovem não deveria ser apenas um acumulador de ideias, mas alguém que faz — e faz bem. Por isso ele diz que todo jovem deveria ser, de algum modo, um “poeta”. Mas calma: não é só quem escreve poesias e versos bonitos. Poeta, aqui, é quem se dedica à poíesis, ao ato de criar algo que dá prazer, mas que dê sentido: levantar uma casa, cozinhar bem, compor uma música, pintar um mural, filmar uma cena, amar intensamente, criar um aplicativo, desenhar, esculpir, escrever e produzir algo novo e significativo em sua vida, para transcender sua condição limitada de vida. 


Bem, vamos finalizar porque acho que estou delongando demais a conversa. E, para não dizer que tudo isso ficou muito filosófico e pouco prático, volto ao meu velho (e fictício) avô, lá na roça, com sua inseparável Mimosa. Um dia, depois de eu ter soltado mais uma dessas explicações meio aristotélicas sobre escolha, virtude, caráter e não sei mais o quê, ele me olhou com aquela calma mineira, coçou o queixo e disse:


“Uai, então é igual a Mimosa, né?”


Eu, já meio acostumado, perguntei: “Como assim, vô?” E ele, com a sabedoria de quem nunca leu uma linha de Aristóteles, mas entendeu a vida inteira:


“Se eu deixo ela solta demais, ela entra na horta e faz estrago. Se eu prendo demais, ela fica brava e não dá leite direito. Agora, se eu cuido direitinho, nem solta demais, nem presa demais… aí ela fica boa, mansa e ainda ajuda a casa”. Pronto. O velho tinha acabado de resumir a ética aristotélica inteira — com uma vaca. E talvez seja isso que o tiozão de Estagira tentaria nos dizer, se estivesse sentado ali no banco da varanda: viver bem não é nem solto demais, nem preso demais… é saber o ponto certo da vida. 


E aí, meu jovem: vai seguir no modo automático… ou vai apertar o botão do criar e assumir o controle da própria vida, para conseguir viver bem, feliz de forma virtuosa (como aconselhou Aristóteles)? E, se ainda não entendeu, faz o seguinte: observa a Mimosa. Ela pode não saber filosofia… mas está vivendo melhor que muita gente por aí.

 
 
 

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