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Críton e a mutreta do galo

Foto do escritor: WILSON ALVES DE PAIVA
WILSON ALVES DE PAIVA
22 de set.
6 min de leitura


Frase final revela visão filosófica sobre morte, alma e sentido da existência


Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva


O ser humano sempre gostou de uma mutreta — uma marosca, um jeitinho, uma pequena astúcia para lidar com as coisas da vida. Não importa a época, o lugar ou o grau de instrução: sempre damos um jeito de inventar alguma estratégia para escapar, contornar ou reinterpretar situações. Talvez por isso possamos dizer, meio brincando, que além de homo sapiens somos também homo mutretus.


Mas calma: a história que vamos ver aqui parece uma mutreta… mas não é. Pelo contrário, revela algo bem mais profundo sobre filosofia, religião e o modo como Sócrates encarava a vida — e, principalmente, a morte. O episódio acontece nos momentos finais da vida de Sócrates, narrados por Platão no diálogo Fedão. O filósofo estava preso e aguardava a execução por ingestão de cicuta. Como se sabe, ele havia sido condenado por duas acusações: corromper a juventude de Atenas e não respeitar os deuses da cidade. Acusações meio vagas, mas politicamente úteis.


Sócrates não era um político no sentido comum da palavra. Não ocupava cargos públicos, não liderava partidos nem disputava poder. Mesmo assim, era profundamente incômodo. Seu “crime” consistia em andar pela cidade fazendo perguntas. Perguntava a generais, poetas, artesãos, políticos — especialmente àqueles que tinham certeza absoluta de que sabiam tudo. Com ironia e lógica, ele mostrava que muitas dessas certezas eram frágeis. E isso irritava bastante.


Atenas vivia um momento delicado. A democracia havia sido restaurada após um período traumático de tirania, e a cidade estava sensível a qualquer coisa que parecesse instabilidade política ou intelectual. Nesse clima, a atitude questionadora de Sócrates acabou sendo vista como perigosa. No fundo, Atenas não julgou apenas um homem — julgou a própria filosofia. Depois da condenação, Sócrates passou alguns dias na prisão. Seus amigos e discípulos o visitavam constantemente, e as conversas continuavam animadas, como sempre.


Platão conta que Sócrates parecia até feliz em discutir filosofia ali. Em certo momento, alguém sugeriu que ele falasse menos, porque o carcereiro havia dito que muita agitação poderia interferir no efeito do veneno. Sócrates respondeu algo do tipo: se for assim, que preparem duas ou três doses. Ou seja: até no corredor da morte ele mantinha o bom humor. Mas a serenidade dele não vinha apenas de coragem ou teimosia. Ela estava ligada a uma convicção filosófica: Sócrates acreditava que a morte poderia ser algo bom, porque libertaria a alma do corpo. Para ele, o corpo traz distrações, desejos e ilusões que atrapalham a busca da verdade. A morte, portanto, seria uma espécie de separação libertadora.


Esse modo de pensar marcou profundamente a tradição filosófica e até influenciou o cristianismo. A ideia de que a alma sobrevive ao corpo e pode alcançar uma condição melhor aparece, por exemplo, em várias passagens do apóstolo Paulo.

Chegamos então ao momento decisivo. Depois de conversar longamente com seus discípulos sobre a imortalidade da alma, Sócrates tomou banho, despediu-se da esposa e dos filhos, recebeu a taça de cicuta e a bebeu com absoluta tranquilidade. Seus amigos começaram a chorar, mas ele os repreendeu gentilmente. Disse que aquele desespero não combinava com tudo que haviam discutido. O veneno começou a fazer efeito. As pernas ficaram pesadas, o frio subiu pelo corpo, e Sócrates deitou-se para esperar o fim. Foi então que ele disse suas últimas palavras:

“Críton, devemos um galo a Asclépio. Não te esqueças de pagar essa dívida”.


E morreu.


Agora pense bem: o sujeito está morrendo, e sua última preocupação é pagar um galo para o deus da medicina? Por quê? A reação mais comum é algo como: “Mas que raio de frase é essa?”


Para entender, precisamos olhar para três coisas: a religiosidade de Sócrates, o papel de Asclépio e o significado simbólico da frase. Primeiro ponto: Sócrates não era ateu. Apesar das acusações contra ele, acreditava no divino. Só que sua religiosidade era diferente da religiosidade popular. Ele criticava mitos que apresentavam os deuses cometendo atos moralmente baixos. Para ele, o divino deveria ser moralmente superior ao humano. Em outras palavras: obedecer ao deus significava cuidar da alma, buscar justiça e verdade. Os rituais existiam, mas não eram o mais importante. Segundo ponto: quem era Asclépio? Asclépio era o deus da medicina na Grécia antiga. Seu culto era muito popular.


Nos templos dedicados a ele — chamados asclepeions — os doentes iam buscar cura. Passavam por rituais de purificação, dormiam no templo e esperavam receber em sonhos alguma orientação terapêutica. Esses lugares funcionavam como uma mistura de hospital, templo e centro espiritual. Havia dieta, exercícios, banhos e práticas que hoje lembraríamos de medicina preventiva. Quando alguém era curado, era comum oferecer um sacrifício de agradecimento ao deus. Entre os animais oferecidos, o mais comum era justamente o galo.


Agora chegamos ao ponto central: quando Sócrates pede que paguem um galo a Asclépio, ele está agindo como alguém que acabou de ser curado. Mas curado de quê? Ora, da própria vida! Para Sócrates, a vida no corpo era uma espécie de doença da alma, pois o corpo era como uma prisão. O corpo traz desejos, confusão, enganos e limitações. A morte, nesse sentido, seria a cura final — a libertação da alma. Assim, o gesto final do filósofo não é desespero nem ironia. É gratidão. Ele está dizendo algo como:


“Fui curado. Agora paguem a oferta de agradecimento”.


Se não for essa a interpretação correta, pode ser a de uma dívida anterior, na qual tenha alcançado a libertação de alguma enfermidade e creditada aos poderes de Asclépio. Como ele não esperava morrer tão cedo, postergou o pagamento de seu voto, lembrando-se da dívida na hora da morte. E por que isso seria tão importante? Porque isso provaria que ele não estava introduzindo novos deuses e nem pervertendo os jovens, como fora acusado. Sócrates sabia da importância da perspectiva religiosa, sem a qual a transcendência humana dificilmente se realiza.

Existe ainda um detalhe curioso. Sócrates não diz “eu devo”, mas “devemos” um galo. Por quê? Porque a “cura” de que ele fala, se tomarmos o primeiro sentido, não é apenas individual. Seus discípulos também participam desse caminho filosófico. Críton, ao receber o pedido, representa todos eles — todos os que aprenderam com Sócrates a cuidar da alma. Além disso, a frase mostra algo importante: mesmo condenado injustamente, Sócrates não rompeu com a cidade nem com suas tradições. Ele continuou cumprindo uma obrigação simples, quase doméstica. Até no último momento, ele ensinava.


E aqui aparece um contraste interessante com certas ideias modernas. Hoje vivemos num tempo em que muita gente trata qualquer dimensão espiritual com sarcasmo ou desprezo. O ceticismo virou quase uma postura automática, especialmente entre jovens. Mas a religiosidade socrática não era ingênua nem fanática. Ela não consistia em exibir fé ou repetir rituais vazios. Tratava-se de algo mais profundo: reconhecer que a vida tem um peso moral, que existem valores que merecem cuidado e que nem tudo pode ser reduzido a cálculo ou conveniência.

A modernidade muitas vezes rompeu com essa dimensão do sagrado. O problema é que, quando isso acontece, a vida pode ficar estranhamente vazia. Sem algum sentido maior, tudo vira fluxo passageiro: escolhas provisórias, compromissos descartáveis, valores negociáveis. É o que alguns pensadores, como o filósofo e psicanalista Viktor Frankl, chamam de crise de sentido. O ser humano sempre buscou algo que ultrapasse o imediato — algo que dê direção e significado à existência. As religiões chamam isso de transcendência. A filosofia também reconhece esse movimento quando pergunta pelo bem, pela verdade ou pelo sentido da vida.


Sem essa abertura ao transcendente, a existência pode se reduzir ao puro cotidiano: trabalhar, consumir, distrair-se e repetir o ciclo. Por isso, a figura de Sócrates continua sendo provocadora. Ele mostra que é possível viver de modo coerente até o fim, sem cinismo e sem desespero. Mostra também que a filosofia não é apenas teoria complicada, mas uma forma de viver. Assim, seu último gesto — lembrar do galo a Asclépio — parece pequeno. Mas, na verdade, concentra toda uma visão de mundo. Em sua ação estão a gratidão, a coerência moral, a serenidade diante da morte e a convicção de que a vida tem um sentido que ultrapassa o imediato.

Críton entendeu isso. Por isso, no meio do choro dos discípulos, a tarefa ficou clara: pagar a dívida. Não como formalidade religiosa, mas como reconhecimento de algo maior. Porque, no fundo, transcender — mesmo num gesto mínimo — é recusar a ideia de que a vida é apenas um acidente sem significado. E talvez seja exatamente por isso que, séculos depois, ainda continuamos voltando àquela frase estranha, dita por um homem que estava morrendo com tranquilidade:


“Críton, devemos um galo a Asclépio”.


Parece mutreta.


Mas não é.

 
 
 

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