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O amor platônico que Platão não teve

Foto do escritor: WILSON ALVES DE PAIVA
WILSON ALVES DE PAIVA
22 de set.
7 min de leitura

De Platão ao Instagram, o amor virou uma coleção de frases que o filósofo nunca disse. Entre eros, filia e ágape, o ateniense tinha uma ideia bem mais ambiciosa do amor. Talvez Platão quisesse nos tornar melhores — e nós preferimos transformá-lo em legenda melancólica.



Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva


Vou começar este tema como uma anedota televisiva, saída da pena do grande dramaturgo Dias Gomes (1922-1999), em sua icônica novela O Bem-Amado, com a qual marcou época com o personagem Odorico Paraguaçu, interpretado por Paulo Gracindo (1911-1995), o eterno prefeito da fictícia cidade baiana de Sucupira.


Nessa bem-humorada sátira política, o prefeito, um populista de carteirinha e, claro, exageradamente eloquente e corrupto (o que nos faz lembrar de muita gente...), fazia frequentemente discursos cheios de referências “intelectuais”, citando filósofos, escritores, pensadores e frases pseudo-eruditas — muitas vezes de forma confusa, exagerada ou até inventada. A graça da cena está justamente nisso: quando se via cercado de gente, gostava de tirar os “filósofos” do bolso e dizer, quase sempre, frases do tipo: — Como disse Platão, o homem está pronto para enfrentar qualquer coisa! — O que era interpelado pelo culto jornalista, Neco Pedreira, interpretado por Carlos Eduardo Dolabella (1937-2003), que interrogava: — Platão disse isso? — E, obviamente, impaciente e nervoso, o prefeito respondia: — Se não disse, pensou em dizer!


Assim são muitos os Odoricos, ou filisteus da cultura (lembram do ensaio anterior?) que gostam dessas tiradas, citações fora de contexto e frases de efeito. Basta um passeio pela Internet para ver isso com abundância. E talvez Platão seja um dos maiores “reféns” desse fenômeno. Há sempre alguém transformando um diálogo complexo em frase de caneca motivacional, meme de rede social ou conselho de coach com fundo de pôr do sol. O problema é que, muitas vezes, o filósofo ateniense acaba dizendo justamente o que nunca disse — ou pior: vira garoto-propaganda de ideias completamente opostas ao que escreveu. Como responderia Odorico Paraguaçu: — Se Platão não falou, devia ter falado!


Isso se dá, porque Platão é um filósofo bem comentado, um verdadeiro popstar do pensamento grego antigo, do qual muitos adoram citar, mas sem compreender bem o que ele queria dizer. Fala-se muito do “mito da caverna”, da “República”, do “mundo das ideias, da “imortalidade da alma” e tantas outras coisas que viraram moda. Dentre esses modismos é preciso destacar o quanto o “amor platônico” é citado e usado em nossas conversas e discussões. Pelo menos uma vez na vida você já usou esse termo, não já? Confesse! Não há vergonha nenhuma em dizer isso. Mas eis a ironia: quase sempre usamos “amor platônico” justamente no sentido oposto daquilo que Platão pretendia discutir. No imaginário popular, a expressão virou sinônimo de paixão impossível, amor não correspondido ou um sentimento profundo e melancólico, bem sofrido, de quem passa mais tempo ouvindo música triste (como as de Enya) do que vivendo a própria vida. Em Platão, porém, a questão era muito mais filosófica do que romântica: tratava-se de uma elevação do desejo, de uma busca pela beleza, pela verdade e pelo aperfeiçoamento da alma. Ou seja, o pobre do ateniense, se ressuscitasse hoje, provavelmente ficaria um tanto confuso ao descobrir que acabou associado a mensagens melancólicas de status e legendas de Instagram.


Bem, acabei condensando a explicação e acho que a dúvida continua: o que, de fato, significa o “amor platônico”? Essa definição vem realmente dele? Ele próprio o praticou? Ora, caro leitor, não se decepcione, mas Platão nunca disse isso, especificamente, e não se sabe exatamente como essa expressão ficou ligada a ele. Ao contrário do uso popular que muitas vezes reduz o “amor platônico” a uma paixão impossível ou a um romance condenado ao fracasso antes mesmo do primeiro encontro, esse tipo de amor seria, se formos buscar nas entrelinhas dos escritos platônicos, uma atração mais espiritual e intelectual, baseada na admiração, no respeito e na busca de algo belo e verdadeiro no outro, sem, necessariamente, aquela “química” sensual, movida pela atração erótica, quando não por interesses, conveniências ou outras circunstâncias.


Se você quiser relacionar essa “atração espiritual” e estética pela figura da mulher, como aconteceu ao longo da história, desde o amor cortês dos medievais até os arroubos apaixonantes dos românticos, vai se decepcionar mais ainda, se folhear as obras de Platão. Nelas, o discípulo de Sócrates reproduz a concepção que era bastante comum na Grécia Antiga, qual seja, a de que a mulher era um ser naturalmente inferior, mais frágil ou menos apto à vida pública. Ele dizia ainda que as mulheres eram mais traiçoeiras e mais astutas que os homens, talvez uma maldição enviada pelos deuses.


Agora sente-se, ou, se estiver sentado, agarre-se à poltrona, pois vou lhe dizer que no Livro V de A República, esse filósofo escreveu que as mulheres pertenciam a todos, assim como seus filhos. Platão tinha ombros largos e muita coragem, mas teve a prudência (ou esperteza) de colocar isso na boca de Sócrates, afinal seu mestre havia morrido já há algum tempo: “Sócrates — Todas as mulheres dos nossos guerreiros pertencerão a todos: nenhuma delas habitará em particular com nenhum deles. Da mesma maneira, os filhos serão comuns e os pais não conhecerão os seus filhos nem estes os seus pais”.


Mesmo que Glauco, o jovem interlocutor dessa conversa estranha, tenha tentado argumentar de modo cuidadoso e elegante que esse tipo de coisa era loucura, ou melhor, “inverossímil”, “dificilmente possível e vantajosa” e “bem contestada”, o avatar de Platão dá carteirada e responde de volta: “Sócrates — Não creio que se possa contestar (...). Estás querendo dizer que serei obrigado a enfrentar uma série de obstáculos. E eu que esperava evitar um, se tu reconhecesses a vantagem, e ter de discutir apenas a possibilidade!”


Sorte que ele (ou eles) não viveu até o surgimento do feminismo, bem como de outros “ismos” que se desenvolveram depois. Mas claro, não se deve negar que no fundo dessa discussão está a ideia política de uma cidade ideal, cujo bem comum não pode ser suplantado pelos interesses familiares e privados. Isto é, sem famílias exclusivas nem propriedade privada, os governantes deveriam dedicar-se inteiramente à cidade, vendo todos como parte de uma única comunidade política. Em parte, já vimos onde isso pode chegar, sem sermos muito anacrônicos: regimes totalitários e sanguinários que ceifaram milhões de vidas humanas. Nada muito amoroso!...


Muitos sabem que havia na sociedade grega dessa época uma intensa camaradagem masculina (broderagem avant la lettre?) entre os homens, quando não se evoluía para a efebia associada às relações pedagógicas e afetivas entre homens mais velhos e jovens, conhecidas como pederastia, nem sempre recíprocas ou consumadas. O jovem Alcebíades, por exemplo, cortejou Sócrates até levá-lo para a cama, mas arrependeu-se, pois o mestre passou a noite em discussões filosóficas e nada mais. O próprio Alcebíades diz: “Pelos deuses e deusas, vós deveis saber: após ter dormido ao lado de Sócrates, levantei-me assim como se tivesse dormido ao lado de meu pai ou de meu irmão mais velho”.


O que isso tem a ver com o amor? Bem, tanto a relação sexual com as mulheres quanto com os jovens fazia parte do conceito de eros. Mas o eros grego não era apenas desejo carnal ou impulso físico; tratava-se de uma força mais ampla, uma espécie de inquietação da alma diante da beleza, da admiração e da busca de completude. Em Platão, o eros começa muitas vezes pelo encanto do corpo, mas deveria elevar-se gradualmente à amizade, à virtude, ao conhecimento e, finalmente, à contemplação do belo em si. Ou seja, os gregos conseguiram transformar até a paquera em metafísica.


Então, se o “amor” que Sócrates sentia pelos jovens não era paquera, mas o mesmo amor que sentia pela filosofia, para entendê-lo, precisamos subir mais uns degraus a fim de contemplar a filia. Diferentemente do eros, marcado pela paixão, pelo desejo e pelo encantamento diante da beleza, a filia designava entre os gregos uma afeição fundada na amizade, na lealdade, na admiração mútua e na convivência intelectual. Era o vínculo dos companheiros, dos discípulos, dos cidadãos e daqueles que compartilhavam uma mesma busca pela virtude e pela sabedoria. Não por acaso, a própria palavra “filosofia” nasce daí: philo-sophia, isto é, amizade ou amor pela sabedoria. De novo, a exemplo da paquera, os gregos conseguiram a proeza de transformar até uma conversa amigável em categoria metafísica.


Por fim, nessa sequência, vamos ao ágape. O termo já existia na tradição grega, mas é depois, na tradição cristã que essa forma de amor ganha mais destaque, pois foi associada à doação, ao cuidado e à benevolência desinteressada. Diferentemente do eros, ligado ao desejo e à atração, e da filia, relacionada à amizade e à afinidade, o ágape designava um amor que se oferece ao outro sem esperar retorno. No Novo Testamento, ele aparece como o amor de Deus pela humanidade, o amor ao próximo, a caridade, a compaixão etc. Esta explicação não é exatamente uma formulação platônica clássica, mas uma aproximação interpretativa, inspirada em seus escritos, como o Banquete ou o Fedro. A partir daí, podemos dizer que o eros, como desejo de beleza, verdade e completude, move o filósofo ao nível da filia, elevando sua compreensão da beleza física para a beleza moral; e, por fim, da atração humana para a contemplação do Bem — algo que, numa leitura conciliatória moderna, pode ser aproximado da noção de ágape —, quando o sujeito se liberta totalmente dos aguilhões e da obscuridade de sua caverna (lembra do mito da caverna?).


Nesse sentido, para Platão, o amor verdadeiro não se esgota simplesmente na atração física ou nas paixões imediatas do mundo sensível. O corpo até pode ser o ponto de partida — afinal, alguém sempre começa admirando um belo rosto antes de querer discutir metafísica no jantar —, mas não é o destino final da caminhada. O amor, em sua forma mais elevada, conduz o sujeito às virtudes, à contemplação da beleza moral, da justiça, da verdade e do Bem. É como se o filósofo ateniense dissesse que o amor amadurece quando deixa de ser apenas posse, desejo ou carência e passa a ser transformação interior. Em outras palavras: Platão até entende o encanto da paixão, mas claramente esperava que a humanidade evoluísse um pouco além do “visual interessante e bio criativa”.


Ao ler isso, qualquer um vai chegar à conclusão que o “amor platônico” se afasta bastante dessa compreensão. Gostar de alguém só no pensamento, no ideal, sem nunca acontecer nada, levando a pessoa à frustração, ao sofrimento ou à fantasia afetiva, é coisa dos românticos e não de Platão. Ou seja, o uso moderno preservou apenas uma parte da ideia platônica: a idealização. É bom isso? Talvez, se o sentimento inspirar crescimento pessoal, admiração genuína, amadurecimento emocional e capacidade de afeto profundo sem pura possessividade. Nisso, podemos repetir Odorico Paraguaçu e dizer: Se ele não sentiu, devia ter sentido! Talvez assim ele teria sido mais amoroso com as mulheres.


No fim das contas, Platão talvez apenas quisesse que o amor nos tornasse melhores. A humanidade, porém, preferiu transformá-lo em legenda melancólica de rede social.

 
 
 

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