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O Conselho (gratuito) de Montaigne

Foto do escritor: WILSON ALVES DE PAIVA
WILSON ALVES DE PAIVA
23 de set.
6 min de leitura


É na fragilidade da vida que a gente encontra a força para valorizá-la – um contraste meio cruel, mas incrivelmente revelador


Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva


Dizem por aí que se conselho fosse bom, seria vendido e não dado. Mas houve um filósofo moderno que não se importou com esse dito e acabou dando um conselho aos seus contemporâneos e o mesmo serve para nós, nos dias de hoje. Trata-se do filósofo francês Michel de Montaigne que um dia resolveu dar um conselho meio estranho, mas muito sábio: “considera como teu último dia aquele que brilha para ti” (Montaigne, In: Os Ensaios, 2010, p. 58). O leitor desavisado poderia se perguntar: “o que esse sujeito andou fumando?” Bem, se ele fumava ou não, isso eu não sei, pois seus biógrafos não se preocuparam com isso, e não registraram seus hábitos.


Mas se você quer saber quem foi esse sujeito, vamos lá: Monsieur de Montaigne nasceu em 1533 na cidade francesa de Bordeaux e, sendo um “golfinho” de uma família nobre, teve uma educação refinada, que permitiu que ele aprendesse o latim desde a infância e, assim, tivesse acesso à cultura clássica. Desse modo, tornando-se um humanista e um cético, Montaigne foi o pioneiro de um estilo literário inovador: o ensaio, aquele gênero literário em que você simplesmente escreve tudo o que passa pela cabeça, de modo descontraído e sem muito compromisso com o rigor acadêmico, com a continuidade ou até mesmo com a lógica. Mais ou menos no estilo do texto que você, meu leitor, tem agora em mãos. Seu estilo foi, de certa forma, tão "descontínuo" que até seus admiradores ficavam perdidos (o que espero que não aconteça com os meus), resultando paradoxalmente em um golpe de mestre na prosa literária. Em suas obras, ele se dedicou a refletir sobre os costumes e modos de vida humanos – ou, na verdade, a questionar tudo sem oferecer nenhuma resposta muito útil, mas apenas deixando algumas “sugestas” de forma sutil, para assentar as bases do "moralismo francês" que ele ajuda a fundar. Bah, tchê, mas o que é isso? Perguntaria meu leitor lá dos pampas. Bueno, trata-se de uma abordagem sofisticada, que culminou com o Iluminismo, de apontar os defeitos dos outros enquanto se mantém permanentemente cético sobre qualquer virtude humana, afastando-se elegantemente da bagaceira.


A principal obra de Montaigne, Ensaios (Essais), é um verdadeiro caleidoscópio de reflexões sobre a vida, o ser humano e o mundo ao seu redor. Ela foi dividida em três livros, sendo que a primeira edição, com os livros I e II, foi publicada em 1580. Já o livro III foi adicionado em 1588. Mas Montaigne, sendo o perfeccionista que era, não parou por aí. Continuou revisando e enriquecendo os Ensaios até sua morte, em 1592. A versão final, no entanto, só seria lançada postumamente, em 1595, como uma obra que ele jamais considerou "concluída" – uma verdadeira maratona de pensamentos que parecia não ter fim. Em seus Ensaios, o filósofo mergulhou em temas como moralidade, educação, amizade, morte e, claro, o relativismo cultural – porque nada como uma boa reflexão sobre culturas exóticas para dar um toque de profundidade, como o fez também Voltaire, pelo menos em sua juventude quando escreveu as Cartas persas. Neste, um relato epistolar sobre a visita de dois amigos persas fictícios, Rica e Usbeck, a Paris, no auge do reinado de Luís XIV, Voltaire critica a sociedade, os costumes, as instituições políticas e os abusos da Igreja e do Estado.


Meditar

Mas voltemos a Montaigne e a seu conselho, isto é, o de que devemos pensar no dia como se fosse o último ou, em outras palavras, que o último dia valha a pena, que brilhe na perspectiva da virtude ou mesmo do carpe diem. Como último dia, o que se segue é, evidentemente a morte. Ora, como diz o próprio autor: “Meditar previamente sobre a morte é meditar previamente sobre a liberdade” (Montaigne, 2010, p. 58), ou, como poderia ter dito: sobre a vida! Pois, pensar na morte, por mais sombrio que pareça, é como acender uma candeia no meio da nossa existência para clarear o que somos, o que fazemos e onde estamos. Quando encaramos o fim é que começamos a entender, de verdade, o que significa estar vivo. Afinal, é na fragilidade da vida que a gente encontra a força para valorizá-la – um contraste meio cruel, mas incrivelmente revelador. Talvez a morte não seja o oposto da vida, mas sim a bússola que aponta para o que realmente importa.


Já pensou nisso antes? Oxente (diria o leitor do nordeste), ainda não? Pois vamos lá: Se a gente vive cada dia como se fosse o último, todo o resto vira cortesia da existência – quase um “vale-brinde” cósmico. Nietzsche talvez chamasse isso de um grande “sim à vida”, enquanto Epicuro provavelmente diria: “Aproveite, mas sem surtar”. É curioso como essa mentalidade transforma até a fila do banco (embora eu odeie fila de banco) em um evento quase transcendental. Sabe o que faço, ao ir ao banco? Levo um livro e fico lá, lendo, enquanto espero. Hoje há celulares para nosso amusement, com arquivos de música, vídeos e há os que assistem até filmes inteiros enquanto ficam na fila. No fim das contas, cada dia extra parece menos um direito e mais um presente, embora Sócrates talvez levantasse uma sobrancelha e perguntasse: “Você tem certeza de que está vivendo ou só matando o tempo?”


Não quero parecer um guru, ou um couch de mentes desaventuradas, mas refletir com Lavelle que a filosofia é conhecimento mas também sabedoria. E o que é sabedoria, se não a capacidade de compreender as verdades fundamentais da vida, seja pelo conhecimento teórico, ou pelas experiências práticas, ou ainda pela junção das duas, adicionando uma boa dose de reflexão crítica e discernimento profundo? Não foi isso que Sócrates, Aristóteles e tantos outros fizeram? No fundo, buscavam desenvolver o conceito de spoudaîos (σπουδαῖος), ou seja, de uma pessoa moralmente madura e íntegra, que busca ativamente a virtude e o bem em todas as ações humanas. E, nesse sentido, Montaigne foi um sábio. Vejamos o ele ainda diz: “Quem aprendeu a morrer desaprendeu a se subjugar. Não há nenhum mal na vida para aquele que bem compreendeu que a privação da vida não é um mal. Saber morrer liberta-nos de toda sujeição e imposição” (Montaigne, Idem, 2010, p. 58). Isto é, quando a gente se acostuma com a ideia da morte, tira dela a sua arma mais temida: a noção de que é nossa inimiga. É quase como sentar para tomar um café com o que te assusta – vai ver até dá para descobrir que ela não é tão má quanto parece.


Leve ironia

Sei que estou sendo extremamente irônico, perdoem-me! Mas, não faz o menor sentido passar a vida inteira fugindo do que, no final, vai nos alcançar de qualquer jeito. É como se estivéssemos correndo de nossa sombra: vamos cansar à toa e não resolver nada pois ela estará conosco. Compreender isso é se livrar de preocupações inúteis e paranoias que só roubam nosso tempo – aquele mesmo tempo que a gente diz querer aproveitar. Como diria Montaigne, quem aprendeu a morrer desaprendeu a servir. Aceitar o inevitável é o verdadeiro passe livre para viver sem algemas, porque, no fundo, a única coisa que realmente não podemos evitar é a vida acontecendo enquanto a gente tenta driblar o inevitável. Como diz o italiano Settembrini ao engenheiro alemão Hans Castorp, ambos personagens de Thomas Mann, em A Montanha Mágica:


– Permita-me. Permita-me, engenheiro, que lhe diga e inculque que a única maneira sadia e nobre, aliás, também, como acrescento expressamente, a única maneira religiosa de encarar a morte é compreendê-la e senti-la como uma parte, como um complemente, como uma condição inviolável da vida, ao invés de – o que seria o contrário de sadio, nobre, sensato e religioso – separá-la da vida espiritualmente, de pô-la em oposição a ela e de usá-la como argumento contra ela (Mann, 1980, p. 225).


Portanto, caro leitor, a morte é um daqueles processos pelos quais todos nós passaremos, sem direito a reembolso ou troca. E não adianta tentar escapar – ela vai nos encontrar, quer queiramos ou não. Então, ao invés de gastar tempo planejando uma fuga impossível, talvez seja mais sábio você (na verdade, nós, né?) seguir o conselho de Montaigne: "Tudo o que pode ser feito um outro dia pode ser feito hoje". Afinal, quem garante que o "outro dia" vai chegar? Como se diz por aí, a vida é curta demais para esperar o amanhã quando o hoje já está aqui, batendo à porta: carpe diem! E, no trocadilho das palavras, se não fizer isso, não adianta depois tentar “carpir” o tempo que você não plantou e não colheu.

 

 
 
 

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