Por que não gostamos de jardim?
Atualizado: há 4 dias

Preferimos o concreto ao verde, o controle à convivência e a pressa à contemplação. Por que nossas cidades têm cada vez menos espaço para a natureza — e o que isso revela sobre nós?

Deixa um Jardim em Nós
Versão musical no final do texto
Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva
Parece uma pergunta estranha, mas não é. Nós não gostamos mesmo de jardim! A começar pela paisagem e urbanização das cidades, dos bairros e, em particular, das casas, a arquitetura brasileira é dominada por cimento e concreto, como se a natureza fosse um elemento a ser contido, disciplinado ou simplesmente eliminado. Árvores são vistas como obstáculos, folhas caídas como sujeira, e a terra, quando não inteiramente coberta, é confinada a pequenos canteiros, quase sempre subordinados à geometria das construções. O jardim, quando existe, costuma ser tratado como ornamento, um detalhe paisagístico menor, apenas destinado a valorizar o imóvel, e não como um espaço de convivência, contemplação e formação da sensibilidade. Claro que esta afirmação não é literal ou absoluta, pois a existência de parques, quintais, pequenos jardins em algumas residências e praças (embora poucas) apreciadas pelo público poderia me contradizer, de certa forma. Portanto, minha afirmação é metafórica, e não literal, mas faz muito sentido!
Por que isso? Vou formular aqui três hipóteses.
Mas antes, façamos uma apresentação conceitual e histórica desse objeto: “jardim”. O que é um jardim? À primeira vista, a resposta parece óbvia: um jardim é um pedaço de terra onde se plantam árvores, flores, arbustos e outras coisas verdes que, em algum momento, alguém terá de regar. Mas essa definição é pobre demais. Um jardim é muito mais do que um lugar onde as plantas são colocadas. Ele é uma forma de relação entre o ser humano e a natureza. É uma pequena porção do mundo natural que recebe o cuidado, a intervenção e a imaginação humanas, mas que também nos devolve sombra, beleza, frescor, perfume, cores, sons, frutos e, talvez o mais importante, a experiência de simplesmente estar diante de algo que não foi feito para nós.
Alguns autores, como Robert Harrison, em Gardens: An Essay on Human Condition; Gordon Campbell, com seu livro Garden History: A Very Short Introduction; e Linda Farrar com: Gardens and Gardeners of the Ancient World: History, Myth and Archaeology; entre outros, chegam a interpretar o jardim como uma metáfora fundamental da condição humana: mais do que refúgio diante das turbulências do mundo, ele é um espaço no qual aprendemos que viver significa cuidar. Harrison Percorre jardins reais e imaginários da tradição ocidental, desde a Antiguidade à contemporaneidade, e mostra que o cultivo da terra simboliza também o cultivo de si, exigindo paciência, dedicação e responsabilidade diante daquilo que cresce segundo ritmos próprios. Em oposição à lógica da produtividade e do consumo, o jardim representa uma forma de realização fundada no cuidado, na preservação e na continuidade da vida. Sua tese central é que não é o domínio da natureza, mas o compromisso de cuidar dela e do mundo que habitamos que confere profundidade e sentido à existência humana.
E essa relação é muito antiga, milenar nas civilizações chinesa e japonesa. Na Mesopotâmia vamos encontrar também jardins que ultrapassavam a função utilitária do cultivo e se tornavam expressões de uma maneira de conceber e organizar o mundo. Nos jardins palacianos de Nabucodonosor, por exemplo, a água era conduzida por canais, as árvores eram dispostas segundo uma ordem deliberada e a vegetação compunha paisagens que conjugavam abundância, beleza e poder. Não só na Babilônia, mas no Egito e na Pérsia o jardim foi central na organização espacial e está bem presente em Grécia e Roma.
Homero não esquece de citar os jardins, sobretudo na Odisséia. A Academia de Platão, fundada em Atenas no século IV a.C., estava associada a uma área que continha um bosque sagrado, além de espaços destinados ao exercício físico, às atividades religiosas e à discussão intelectual. Não se tratava simplesmente de um jardim ornamental, mas de um ambiente no qual natureza, educação e vida coletiva se encontravam. O Liceu, associado ao ensino de Aristóteles, também se situava em uma área de Atenas destinada ao exercício e à convivência. Mas o exemplo mais conhecido é o do jardim de Epicuro. Por volta de 307–306 a.C., esse filósofo adquiriu uma propriedade com jardim nos arredores de Atenas, onde viveu e ensinou com seus seguidores. O Jardim tornou-se o nome e o símbolo de sua escola filosófica.
Ao longo da história, inventamos diferentes maneiras de fazer jardins e, com elas, diferentes formas de enxergar a natureza. No início da modernidade, entre os séculos XV e XVIII, o Renascimento italiano, o barroco francês e o paisagismo inglês transformaram os jardins em verdadeiras obras de arte. Mas duas concepções se destacaram: a do jardim francês, que organizava árvores, canteiros, fontes e caminhos com rigor geométrico, como se a natureza tivesse de obedecer às regras humanas; e a do jardim inglês, que valorizava curvas, irregularidades e paisagens com aparência mais espontânea, como se a arte pudesse colaborar com a natureza em vez de simplesmente impor-lhe uma ordem. Percebem a diferença? Não se trata apenas de dois estilos de jardinagem, mas de duas maneiras de pensar nossa relação com o mundo natural: queremos mandar na natureza ou aprender a conviver com ela?
Vou tentar explicar melhor essa diferença: O maior exemplo do “jardim francês” é o Jardim de Versalhes, concebido pelo paisagista André Le Nôtre (1613-1700), onde árvores, arbustos e canteiros são organizados segundo linhas retas, simetrias, perspectivas e formas geométricas rigorosas. É a natureza transformada em uma espécie de obra de engenharia: nada parece estar ali por acaso, e até as árvores parecem ter passado por uma reunião para decidir onde deveriam ficar. O “jardim inglês”, surgido no século XVIII justamente como uma crítica a esse modelo, procura fazer quase o contrário: valoriza a irregularidade, a sinuosidade e a aparente desordem natural. Em vez de obrigar a natureza a seguir a régua, procura revelar sua própria beleza. São exemplos o Jardim Botânico de Oxford e o jardim do Palácio de Stowe, associado à obra paisagística de William Kent (1685-1748). Neles aparecem caminhos sinuosos, árvores sem poda rigorosa, diferentes espécies de plantas, prados, lagos, riachos e perspectivas que procuram reproduzir a variedade e o movimento da própria paisagem natural. Se o jardim francês diz à natureza “organize-se!”, o jardim inglês parece dizer: “fique à vontade, mas procure ficar bonita”.
É essa diferença que nos interessa: de um lado, a natureza dominada pelo artifício; de outro, a natureza cultivada de modo a preservar sua espontaneidade.
Agora, vamos então às hipóteses do problema colocado no início: por que não gostamos de jardim?
Hipótese 1 — Gostamos de controlar a natureza, não de conviver com ela. — Por isso, onde poderia há uma árvore, derrubamos para colocar cimento. No lugar da grama, colocamos piso. Do bosque, fazemos um estacionamento de puro concreto. Então, o que nos parece é que nossa dificuldade com os jardins decorre de uma cultura que aprendeu a valorizar o domínio sobre a natureza mais do que a convivência com ela. Na modernidade, a ideia de que o conhecimento permitiria controlar e transformar o mundo natural ganhou enorme força, especialmente com Bacon e Descartes. Essa mentalidade também se manifesta na arquitetura: queremos terrenos planos, superfícies limpas, árvores que não percam folhas, plantas que não cresçam além do previsto. A natureza nos agrada, desde que obedeça. Mas um jardim vivo é imprevisível: as plantas crescem em ritmos próprios, as folhas caem, os insetos aparecem e as estações modificam a paisagem. Rousseau nos ajuda a questionar essa vontade de domínio ao defender uma relação mais respeitosa com a natureza. Será que não gostamos de jardins porque eles nos obrigam a aceitar que não somos senhores absolutos da vida? Fica a pergunta.
Hipótese 2 — Transformamos tudo em mercadoria, até a natureza. — Nesta lógica, o terreno vale pelo que se pode construir nele; a árvore, pela sombra que oferece ou pelo custo de sua manutenção; e o jardim, pela valorização que acrescenta ao imóvel. A natureza deixa de ser algo com que convivemos para se tornar um recurso a ser explorado ou um produto a ser consumido. Aqui vale a crítica de Marx à transformação das relações humanas em relações mediadas pela mercadoria e a reflexão de Adorno e Horkheimer sobre a razão instrumental, que ajudam a compreender esse fenômeno. Afinal, um jardim exige tempo, cuidado e atenção, mas nem sempre oferece um retorno que possa ser calculado em dinheiro. Se aprendemos a perguntar quanto vale cada coisa, talvez tenhamos desaprendido a perceber o valor daquilo que não tem preço.
Hipótese 3 — Perdemos a capacidade de contemplar e de cuidar — A terceira hipótese, que para mim é a pior delas, é que estamos perdendo a disposição para experiências que exigem demora, atenção e cuidado para apreciação das coisas belas: estamos perdendo oportunidades de cultivar nossa sensibilidade estética. Vivemos cercados de estímulos, compromissos e telas, habituados à rapidez e à satisfação imediata. Um jardim, porém, não funciona nesse ritmo: uma árvore leva anos para crescer, uma flor tem seu tempo de florescer e a beleza de uma paisagem nem sempre se revela no primeiro olhar. Epicuro fez do Jardim um espaço de convivência e de cultivo de uma vida mais simples; Heidegger refletiu sobre o sentido de habitar o mundo para além da relação puramente técnica com as coisas; e Harrison, em Gardens: An Essay on the Human Condition, compreende o jardim como uma experiência profundamente ligada ao cuidado. Talvez não gostemos de jardins porque eles nos convidam justamente àquilo que nossa época torna cada vez mais difícil: parar, observar, cuidar e aprender a esperar.
Em meu artigo resultante de uma pesquisa desenvolvida em 2020 e 2021 com jardins franceses e suíços, defendo a ideia de que isso é um problema de racionalidade. A estética francesa, em minha opinião, que se desenvolve à sombra do racionalismo matemático cartesiano, privilegia a ordem, a simetria e o domínio humano sobre a natureza. Já a sensibilidade que se desenvolve a partir do “jardim inglês” valoriza mais a presença da natureza, opondo-se ao esquematismo francês, e valorizando a diversidade, a irregularidade, os caminhos sinuosos, as árvores sem poda excessiva e uma organização mais próxima da paisagem natural.
A estética inglesa valorizava a natureza como experiência, não simplesmente como vitrine de riqueza. Talvez seja esse o ponto que deveríamos recuperar. Um jardim não precisa parecer rico. Precisa parecer vivo. Uma cidade não precisa ser coberta de concreto para ser moderna. Precisa ser habitável, acolhedora, capaz de oferecer espaço para o encontro, a contemplação e o florescimento da vida. Afinal, o progresso de uma sociedade não se mede apenas pela altura de seus edifícios, mas também por aquilo que ela preserva de humano em seus espaços. Uma rua ou uma rodovia não ficaria mais bela se fosse ladeada por exuberantes flamboyants? Ou de Ipês? E uma praça não seria mais convidativa se, em vez de apenas bancos sob o sol, oferecesse a sombra generosa de grandes árvores? Não seria mais agradável caminhar por calçadas arborizadas, ouvir o canto dos pássaros pela manhã ou encontrar pequenos jardins diante das casas, em vez de muros altos e pisos impermeáveis? Até mesmo os estacionamentos poderiam abrigar árvores, e os telhados e as paredes dos edifícios poderiam receber vegetação, amenizando o calor e devolvendo um pouco de verde à paisagem urbana. Imagine escolas com hortas e jardins onde crianças pudessem aprender observando o nascimento de uma flor; hospitais com espaços verdes para descansar os olhos e aliviar a tensão; bairros com muito verde (como costumamos ver em filmes, a grande parte dos bairros americanos – que, obviamente, refletem a racionalidade do “jardim inglês); além de bairros com pequenos pomares comunitários, nos quais os vizinhos pudessem colher frutas e conversar. Não se trata de transformar tudo em floresta, mas de compreender que a natureza não é um luxo reservado a condomínios caros (com casas semelhantes, numa visível falta de criatividade) ou parques distantes. É parte daquilo que torna a vida mais bela, saudável e digna de ser vivida.
Mas como convencer uma pessoa a gostar de jardins? Primeiro, precisamos abandonar a estratégia tradicional de dizer: “Jardins são importantes para o meio ambiente.” O sujeito, principalmente se for jovem imediatamente pensa: “Que chato.” Depois alguém acrescenta: “Precisamos preservar a natureza para as futuras gerações”. O jovem (com o indispensável fone de ouvido) pensa: “Mais chato ainda”. Talvez seja melhor começar de outra maneira. Por exemplo: “Você quer um lugar onde possa ficar sem fazer absolutamente nada?” Agora creio que podemos conseguir sua atenção. Porque o jardim oferece justamente isso: um espaço para não produzir. Num mundo em que todo mundo precisa estar ocupado, responder mensagens, postar, estudar, trabalhar, produzir, consumir e mostrar que está produzindo, um jardim oferece uma experiência revolucionária: sentar. Só isso. Sentar debaixo de uma árvore e não fazer nada durante alguns minutos pode ser uma pequena revolução contra a ansiedade contemporânea: o famoso dolce far niente dos italianos.
Rousseau compreendeu isso muito bem. Seus passeios pela natureza eram momentos de afastamento das pressões sociais, de contemplação e de recuperação da sensibilidade. A natureza oferecia cores, odores, formas e sons capazes de distrair e repousar o espírito. Portanto, talvez o jardim precise ser apresentado aos jovens (e a todas as pessoas) não como “obrigação ambiental”, mas como território de liberdade. Quer ficar sozinho? Jardim. Quer conversar com alguém? Jardim. Quer namorar? Jardim. Quer terminar o namoro? Talvez também seja melhor procurar um banco de jardim. Quer estudar? Jardim. Quer não estudar? Principalmente jardim. Quer tirar uma foto bonita? Também serve. Quer simplesmente ficar olhando para uma árvore enquanto tenta descobrir o que está fazendo da vida? Perfeito.
Talvez seja por isso que plantar uma árvore seja um ato muito mais filosófico do que parece. Você planta hoje aquilo que não poderá usufruir completamente amanhã. É uma ação contra o imediatismo. É dizer: “Eu aceito cuidar de alguma coisa que crescerá lentamente”. É também reconhecer que a natureza não existe exclusivamente para satisfazer nossas necessidades imediatas. Ou seja, talvez, no fim das contas, gostar de jardins seja uma maneira de reaprender a viver. Não precisamos nos tornar jardineiros, nem transformar nossas casas em florestas. Basta reconhecer que a vida não acontece apenas dentro de edifícios, diante de telas ou entre compromissos. Ela também acontece sob a sombra de uma árvore, no perfume de uma flor, no canto de um pássaro ou na surpresa de ver nascer aquilo que plantamos. Quem sabe o primeiro passo seja simplesmente este: deixar um pouco de espaço para a natureza — e permitir que ela também encontre espaço dentro de nós. Afinal, uma sociedade que não sabe cultivar jardins corre o risco de esquecer como se cultiva a própria humanidade.



Uma frase cada vez mais lembrada " Os dias estão voando" refrete muita das vezes a incapacidade de tirar 10 minutos de 24 horas para contemplar o que temos de mais belo a natureza" Jardins" uns de 1 mts e outros de uma imensidão de hectares, não obedecendo aos nossos cronogramas, à nossas ansiedades. Ele tem o tempo dele. Seca, floresce, morre, volta. E te obriga a observar, a ter paciência, a aceitar que você não controla tudo uma vez que o observamos. se não serão somente Jardins. Parabéns Dr. Wilson
"Perdemos a capacidade de contemplar e de cuidar". Conclusão perfeita e contundente. E perdemos essa capacidade também em relação às pessoas. Mais um artigo clamando pelo despertar da sensibilidade humana. Parabéns!!!!
Me faz refletir o quanto falta preparo para os gestores das unidades escolares, que cada vez concretam os espaços em nome da limpeza, e priva crianças e alunos de viver experiências com e nos jardins, canteiros, hortas e tantos outros espaços que poderiam ser criados e cuidados nas instituições.
Lindo! Também recordei de Manoel de Barros que no seu “livro de pré-coisas” faz da natureza não simplesmente um cenário (embora estejamos precisam de mais árvores, ipês e jardins) mas, acima de tudo, faz da natureza a matéria-prima da poesia!
Que bonito! Lembrei do Filme 🎥 “Dias perfeitos" que mostra a felicidade feita de instantes e num desses momentos aparece o protagonista do filme contemplando a luz do sol atravessando as folhas de uma árvore.