Sêneca e a prática da virtude: Para quê?

Sêneca pensou na virtude e sua prática, ao discutir o valor de fazer o bem sem esperar recompensas. Afinal, mais importante que levar vantagem é viver com retidão.

Versão musical no final do texto
A vantagem de viver direito (moda viola).
Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva
Por que devemos fazer coisas boas? Qual a vantagem de se praticar boas ações, procurar ser justo, correto e bom? Você já pensou nisso? Creio que todos nós já fizemos essas perguntas, e de alguma forma tentamos encontrar a razão, o “imperativo” que nos faz agir de um modo ou de outro. Um “imperativo” é uma ordem, exigência ou princípio que diz como devemos agir. Aliás, a história da filosofia está cheia de pensadores que trataram desses temas, tentando responder a essas indagações. Platão, por exemplo, dedica toda sua República a uma pergunta que continua bastante incômoda: afinal, por que ser justo quando poderíamos simplesmente fazer o que nos convém? Outros tantos fizeram o mesmo e até hoje estamos a discutir isso.
No meio dessa discussão aparece todo tipo de resposta, dependendo da tendência e perspectiva de cada um. Cada “escola” de pensamento produz sua própria argumentação, seu arrazoamento e muitas, como os cínicos da Antiguidade, chegaram a desconfiar das próprias regras morais que a sociedade considerava tão importantes. Para eles, boa parte daquilo que chamamos de “certo” e “errado” não passava de convenção, costume e aparência. Afinal, por que levar tão a sério essas regras todas? Os sofistas também, como Trasímaco, na República, que se coloca como “adversário” de Sócrates e no debate tenta convencê-lo de que os injustos é que se dão bem na vida. Bem atual isso, não é? Por isso que os clássicos estão na categoria de “clássico”: aquilo que alcançou um reconhecimento duradouro e continua sendo considerado modelar, exemplar ou relevante ao longo do tempo.
Ou seja, o que não falta é adversário para tentar justificar o erro. Hoje, por exemplo, não é difícil encontrar quem trate a honestidade como ingenuidade, a generosidade como fraqueza e a justiça como um luxo para quem pode se dar a esse trabalho. Numa sociedade em que tantas vezes o sucesso é medido pelo que se conquista, e não pelo modo como se conquista, a pergunta de Platão, na boca de Trasímaco, continua batendo à nossa porta: para que ser bom quando ser esperto parece dar mais resultado? É justamente contra esse tipo de raciocínio que vale a pena ouvir os antigos. E, entre eles, o filósofo estoico romano Lúcio Aneu Sêneca (circa 4 a.C.-65 d.C.) tem algo muito direto a nos dizer: a virtude não é uma bela teoria para admirarmos de longe, mas uma prática cotidiana. A questão, então, deixa de ser apenas “o que é ser virtuoso?” e passa a ser outra, talvez mais difícil: “para que serve a virtude se não a colocarmos em prática?”
Neste curto ensaio quero comentar um trecho da obra de Sêneca, que está em sua obra Sobre a Vida Feliz da seguinte forma:
“Mas”, diz nosso adversário, “você mesmo só pratica a virtude porque espera obter algum prazer com isso”. Em primeiro lugar, mesmo que a virtude nos proporcione prazer, não a buscamos por causa disso. Ela não é a causa nem o fim pelo qual trabalhamos, mas sim uma consequência, mesmo que a busque com outro intuito. É como quando aramos um campo para plantar milho e encontramos algumas flores no caminho. Embora essas flores possam ser agradáveis aos olhos, o objetivo principal do trabalho não é produzi-las. Quem semeou o campo tinha outro objetivo em mente, e o deleito das flores é um extra além disso. Portanto, o prazer não é a recompensa ou a razão pela qual escolhemos a virtude, mas sim um acompanhamento. Não a escolhemos porque nos proporciona prazer, mas ela também nos dá prazer se a escolhermos (Sêneca, Sobre a vida feliz & Tranquilidade da alma, Garnier Editora, 2023, p. 88).
Bem diferente da “filosofia” do levar vantagem em tudo, não é? Lembram da “Lei de Gérson”?
Os mais novos não devem saber do que se trata, mas deixe-me esclarecer: A expressão “Lei de Gérson” surgiu de uma propaganda de cigarros veiculada no Brasil em 1976, protagonizada pelo jogador Gérson, tricampeão mundial pela Seleção Brasileira. Na propaganda, Gérson dizia algo como: “Gosto de levar vantagem em tudo, certo?” Isso viralizou e ganhou o gosto popular e acabou entrando no vocabulário brasileiro. Pois bem, ela resume justamente uma lógica bastante diferente daquela defendida por Sêneca: fazer as coisas pensando primeiro na vantagem que podemos tirar delas. Se sou honesto apenas porque isso me traz algum benefício, se sou generoso apenas porque espero receber algo em troca, ou se sou justo somente quando isso me favorece, talvez eu esteja praticando uma boa ação, mas ainda não compreendi propriamente o que é a virtude. Para Sêneca, o valor da ação virtuosa não está no prêmio que esperamos receber, mas na própria qualidade daquilo que fazemos. A virtude, portanto, não é uma espécie de investimento moral, no qual deposito boas ações esperando um retorno. É um modo de viver.
E aqui está o ponto mais interessante: para Sêneca, a virtude não precisa de um prêmio para valer a pena. Ela já transforma aquele que a pratica. O prazer pode aparecer, a admiração dos outros pode vir, algum benefício pode até resultar da ação — mas nada disso constitui sua razão fundamental. Fazemos o bem porque reconhecemos que é bom fazê-lo. E talvez seja justamente aí que a velha pergunta encontre uma resposta: para que ser justo, correto e bom? Para viver bem — não no sentido de ganhar mais, aparecer mais ou levar vantagem, mas no sentido de tornar melhor a própria vida.
“Que nada!” — diria um gersoniano qualquer, fiel seguidor da “Lei de Gérson” — se não houver alguma vantagem, qual é o sentido de fazer alguma coisa?” E eis que voltamos ao velho problema de Platão: ser justo porque a justiça vale por si mesma ou apenas quando ela nos traz alguma vantagem? Sêneca escolheria a primeira alternativa. Para ele, quem só pratica a virtude quando há alguma recompensa ainda está fazendo um negócio, não vivendo segundo a virtude. Afinal, se para cada boa ação precisamos perguntar “e eu ganho o quê com isso?”, talvez estejamos transformando até a moral em balcão de negócios. Nos tempos modernos o filósofo Immanuel Kant levaria essa questão ainda mais longe. Para ele, uma ação só possui verdadeiro valor moral quando é realizada por dever, e não simplesmente porque nos traz prazer, vantagem ou algum benefício. Posso ajudar alguém porque gosto de ajudar, porque espero ser reconhecido ou porque isso poderá me favorecer no futuro.
Mas, para Kant, há uma diferença fundamental entre agir conforme o dever e agir por dever. A moral começa justamente quando faço aquilo que devo fazer, mesmo quando meus interesses pessoais apontam em outra direção. Em outras palavras, para o gersoniano a pergunta é “o que é que eu ganho com isso?”; para Kant, a pergunta seria: “o que eu devo fazer?” Além disso, o velho prussiano pergunta: posso querer que a regra da minha ação valha para todos?” Como isso se aproxima do “imperativo categórico” que esse filósofo elaborou, podemos exemplificar assim: se penso em mentir para obter uma vantagem, devo perguntar: eu poderia querer que a regra “é permitido mentir quando isso me beneficia” valesse para todos? Se essa regra destruísse a própria confiança necessária para a mentira funcionar, haveria uma contradição.
E não pense que essa preocupação é exclusividade dos filósofos. Muito antes de Kant, a tradição bíblica (que fundamenta nossa cultura judaico-cristã do mundo ocidental) já colocava a questão da vida justa em termos bastante concretos. O Salmo 15, por exemplo, pergunta quem é digno de permanecer na presença de Deus e responde não com uma teoria complicada, mas descrevendo uma maneira de viver: “Aquele que anda em sinceridade, e pratica a justiça, e fala a verdade no seu coração” (Salmo 15:2). O Salmo formula em linguagem religiosa aquilo que os filósofos elaboram em registros diferentes: a vida justa não se reduz a parecer justo; ela exige uma maneira de viver.
O problema é que hoje em dia, quando tudo vira podcast e frases de efeito no TikTok, isto é, produto lucrativo da “indústria cultural”, como já dizia o velho Theodor Adorno, até o estoicismo virou moda e muitos “Gérsons” acabam levando vantagem até com o uso da filosofia que condena sua “lei” e seu modo de vida. Pois, atualmente há um grande interesse pelo estoicismo, inclusive fora da universidade. Livros, cursos e distintas postagens nas redes sociais frequentemente apresentam princípios estoicos como ferramentas para lidar com ansiedade, frustrações, trabalho, relacionamentos e dificuldades cotidianas. Mas isso também produz uma certa simplificação. Às vezes, “ser estoico” passa a significar apenas: “Não reclame, aguente firme e controle suas emoções”. Ora, a coisa não é bem assim. O estoicismo antigo não era um manual de frases motivacionais para suportar uma segunda-feira difícil, nem uma técnica para transformar qualquer sofrimento em “mindset”. Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio não estavam ensinando simplesmente a engolir desaforos, apertar os dentes e seguir em frente. O que estava em jogo era algo muito mais exigente: a formação do caráter e a busca da virtude como modo de viver.
E aqui voltamos ao nosso problema inicial. Se retirarmos do estoicismo a ideia de virtude e o reduzirmos a uma coleção de conselhos para melhorar o desempenho pessoal, acabamos transformando uma filosofia em mais um produto de consumo. A pergunta deixa de ser “como devo viver?” e passa a ser “como posso me tornar mais eficiente, mais produtivo e menos incomodado?”. É uma mudança pequena na aparência, mas enorme no sentido. Sêneca provavelmente diria que não basta aprender a suportar melhor a vida; é preciso aprender a vivê-la bem.
Então, meu jovem, revogue a “Lei de Gérson”, aposente o lema do “levar vantagem em tudo” e dê uma chance às sábias palavras de Kant. Pense bem: você realmente gostaria de ter ao seu lado um “amigo da onça”, daqueles que sorriem na sua frente, mas já estão calculando como tirar vantagem de você? Alguém que o use quando convém, o traia quando aparece uma oportunidade e ainda o empurre para caminhos que você sabe que não levam a lugar nenhum? Pois é. A questão moral começa justamente aí: se você não gostaria que todos agissem assim com você, talvez também não devesse agir assim com os outros. Parece simples — e talvez seja mesmo. O difícil é praticar. Mas vale a pena tentar, diria Sêneca, pois a virtude não é um negócio que fazemos com os outros, mas uma maneira de fazer as pazes conosco mesmos. E, no fim das contas, não há “vantagem” maior do que poder confiar em quem você é quando ninguém está olhando. Mesmo que os “cínicos” e os “gersonianos” de hoje continuem por aí, sempre prontos a dizer que ser correto é coisa de ingênuo, que bondade é fraqueza e que quem não leva vantagem fica para trás. Talvez fiquem mesmo para trás — mas há uma diferença: uma coisa é ficar para trás na corrida pela vantagem; outra é ficar para trás na construção de si mesmo. E Sêneca provavelmente diria que, nessa corrida, vale muito mais chegar inteiro do que chegar primeiro.
Então, concluindo, por que fazer coisas boas? para que serve a prática da virtude? Talvez a resposta de Sêneca seja menos complicada do que imaginamos: para viver bem. Não para ganhar pontos, elogios, receber aplausos, ganhar curtidas nas postagens, acumular vantagens ou garantir alguma recompensa futura, mas para construir, dia após dia, uma vida da qual possamos nos orgulhar. Fazer o bem não nos transforma em santos, nem nos livra dos erros, das dúvidas e das contradições — afinal, continuamos humanos. Mas cada escolha justa, cada gesto de generosidade, cada vez que recusamos tirar vantagem quando poderíamos fazê-lo, vai formando aquilo que somos. No fim, a pergunta talvez não seja apenas “o que eu ganho sendo bom?”, mas “quem eu me torno quando escolho fazer o bem?”. E essa, convenhamos, é uma pergunta que vale muito mais do que qualquer vantagem. Entendeu, Gérson?
A vantagem de viver direito
(Viola caipira)



Já está ficando redundante, mas não tem jeito de não elogiar outro brilhante artigo. Transformou um assunto cascudo num prato fácil de digerir. Em resumo: "Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas". Mateus, 7:12
Você não faz o bem para se tornar perfeito. Faz para não se tornar alguém de quem você teria vergonha. Um pai ensina os principios basilares aos filhos não querendo receber algo em troca mas ter a certeza que o conduz no caminho mais correto. Parabens Dr Wilson