Rousseau(s) e a tara pela natureza

No fim das contas, é dessas faíscas, meio ácidas, meio geniais, que a história da filosofia também é feita
Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva
Durante os estudos escolares, a gente aprendeu muito bem o que foi o movimento intelectual do século XVIII, chamado de o tempo das Luzes: filósofos brilhantes, ideias grandiosas, discussões que estabeleceram a base da democracia moderna, dos direitos humanos e tudo mais. Quando estudei isso, eu achava que esses “philosophes” viviam num eterno debate elegante, recitando poesias à luz de velas, tomando chá e concordando cordialmente, sentados nas cadeiras de estilo rococó nos salões. Só que depois fiquei sabendo que não era bem assim. Fora dos livros, a coisa era bem mais problemática: egos inflados, manias esquisitas, taras e tretas dignas de reality show intelectual. Havia brigas ferrenhas. E, se tem um barraco que merece destaque, é o duelo nada cordial entre o genebrino Jean-Jacques Rousseau — um misto de filósofo, escritor, músico e botânico nas horas vagas — e o venenoso (e também genial) Voltaire, que parecia nunca perder a chance de soltar uma ironia ou um ácido comentário sobre algo ou alguém. Ninguém escapava de seus olhares e, certamente, aquele “patinho feio” (como chamo o genebrino em alguns de meus escritos), não escapou da língua voltairiana.
Jean-Jacques Rousseau tinha acabado de entrar para o time dos “filósofos do momento” depois de ganhar, em 1750, um prêmio da Academia de Dijon (que por incrível que pareça existe até hoje) com o texto “Discurso sobre as ciências e as artes”. Empolgado, resolveu tentar o bis em 1754 — mas aí o segundo texto não levou o tão desejado prêmio. Era o famoso “Discurso sobre as origens e os fundamentos da desigualdade entre os homens”, no qual ele solta uma tese meio desconfortável: no começo de tudo, em um suposto estágio natural e pré-histórico, o ser humano vivia livre, gozando a natureza, mais ou menos igual aos outros e guiado por sentimentos simples, como o cuidado de si e a compaixão. O problema, segundo ele, teria começado quando os “selvagens” passaram a conviver mais de perto, caçar juntos, ficar meio de boa ao redor de uma fogueira e, a partir daí, começar a olhar as pernas roliças da vizinha com desejos libidinosos, a cabana do outro com desejos possessivos e outras coisas mais. Além disso, o progresso das artes e do conhecimento científico bagunçaram o coreto de vez e, junto com isso, agitaram as paixões: comparação, competição, vaidade, orgulho, inveja e dependência — até chegar nas instituições que basicamente oficializam a desigualdade.
Mas a história melhora da briga continua. Dizem (sim, estamos oficialmente no território das fofocas filosóficas) que Jean-Jacques Rousseau queria impressionar ninguém menos que Voltaire, a figura mais destacada de país, pois era famoso, rico e muito culto, mas dono de uma ironia quase criminosa. Assim, o patinho feio, todo esperançoso, mandou o texto ao adorado intelectual, provavelmente esperando aplauso. No entanto, recebeu de volta um exemplar rabiscado, como um professor impaciente corrigindo uma redação. Entre as anotações, uma pérola atravessada entrou para a história: “Nunca se empregou tanto espírito para nos tornar animais; dá vontade de andar de quatro depois de ler o vosso livro”. Putz! Fico a imaginar a cara do pobre autor da obra… aquele silêncio constrangedor, o orgulho levando um golpe seco, talvez uma mistura de irritação com decepção. Não era exatamente o tipo de “feedback” que ele tinha em mente. Mas, no fim das contas, é dessas faíscas, meio ácidas, meio geniais, que a história da filosofia também é feita.
Claro que daí nasceu uma inimizade que atravessaria anos. Mas fica a pergunta: foi uma crítica justa? Sincera? Ou apenas mais uma maldade bem articulada de Voltaire? Pessoalmente, acho que sua ironia foi exagerada, muito sarcástica e teve lá sua fração de inveja. Ora, o “pobre genebrino”, não estava defendendo um retorno literal ao estado selvagem, nem propondo que jogássemos fora todo o progresso humano. O que ele fez, na verdade, foi chamar atenção para algo que seu século começava a esquecer: a natureza. Natureza não só como ambiente, mas como medida de autenticidade da vida humana. Enquanto o século XVIII celebrava a civilização, o refinamento dos costumes, o brilho das artes e das ciências e uma confiança quase inabalável no progresso da razão, Jean-Jacques Rousseau surgiu como uma espécie de voz dissonante (por isso que o chamo de “patinho feio”). Ele não nega o progresso; ele o problematiza. Mostra que, junto com os avanços, podem vir também a vaidade, a comparação, a dependência e, no limite, uma perda de si.
Tal perspectiva foi como um soco no estômago do progressista Voltaire e de muitos outros que defendiam o progresso das ciências. É justamente aí que está a força da provocação do patinho: lembrar que nem todo avanço é, automaticamente, um aperfeiçoamento moral e, talvez, seja mesmo a natureza a nossa referência do belo e do bom. Provocação que vale para nossos dias: criamos celulares que fazem tudo, menos provocar um olhar verdadeiramente humano a quem está na nossa frente; ou ainda aplicativos para medir o sono, mas que não conseguem fazer com que durmamos em paz. É fácil aplicar um filtro (ou vários) para melhorar o pôr do sol e postar as fotos nas redes sociais. O difícil é curtir o pôr do sol, o momento sublime desse fenômeno natural que inspira os românticos, os poetas, os religiosos e todos os de alma sensível. Rousseau provavelmente diria: evoluímos muito na técnica para substituir a natureza.
Muito bem, vamos explicar isso por partes. E vamos começar pelo conceito de natureza, se não vamos ficar mesmo perdidos no mato sem cachorro.
“Natureza” é daquelas palavras que parecem simples… até você perceber que cada época inventou a sua própria versão — quase como um filtro diferente para a mesma foto. Na Grécia Antiga, o pessoal já começou filosófico: natureza (phýsis) era simplesmente tudo o que existe, o princípio de tudo. Nada modesto. Em Aristóteles, a coisa fica ainda mais refinada: natureza é aquilo que já nasce com um “manual interno”, sabendo para onde ir e o que se tornar. Depois, no mundo helenístico e romano, entra o modo “paz interior”: a natureza vira uma ordem racional do cosmos, e a missão da vida é basicamente não surtar e viver em harmonia com ela (os estoicos diriam: respira e aceita tudo, inclusive a dor, como parte do processo). Na Idade Média, o roteiro é mudado: natureza deixa de ser protagonista e vira obra de Deus. Bonita, importante… mas sempre subordinada ao Criador. Nada de autonomia por aqui. Aí chega o Renascimento e alguém diz: “pera aí, vamos olhar isso de novo com calma”. A natureza volta à cena como algo digno de estudo, com observação, experiência e um certo encantamento. No século XVII, o clima muda de novo — agora é tudo mais técnico: a natureza vira praticamente uma máquina gigante, funcionando com precisão matemática. Pense em Isaac Newton e René Descartes como os engenheiros desse universo. E então chegamos ao século XVIII, o queridinho do Iluminismo: natureza passa a ser entendida como uma ordem racional universal, quase um padrão ouro da razão. Só que aí aparece entre os belos patos parisienses o patinho feio chamado Jean-Jacques Rousseau para bagunçar a conversa: pra ele, “natureza” não é só lei e cálculo — é também um jeito de lembrar quem a gente era antes de tanta pose social. Um grasnado estranho, meio incômodo, que chamou a atenção de muitos.
Essa valorização da natureza vai entrar em cena de modo triunfante no século XIX com seu momento mais “emo” que alimentou o Romantismo. A natureza vira quase um personagem principal: viva, intensa, espiritual, fonte dos sentimentos mais elevados e, claro, o contraponto perfeito ao racionalismo meio frio do século anterior. Imagine você sair de um laboratório cheio de fórmulas e aparelhos mecânicos e cair direto num jardim, numa paisagem bem natural, com vento no rosto e um fundo musical no estilo Enia. Depois disso, caminhado para os temos mais atuais, a palavra “natureza” virou um termo multitarefa: pode ser paisagem, ecossistema, construção cultural ou até bandeira de defesa ambiental.
Mas calma — não vamos abrir todas essas abas agora. Nosso foco fica mesmo em dois momentos e, mais curioso ainda, em dois nomes iguais: o século XVIII, com Jean-Jacques Rousseau, e o XIX, com Henri Rousseau. Sim, percebeu agora o truque do título deste ensaio, com um “(s)”? Percebeu ainda o uso constante do nome completo? São dois Rousseau diferentes, sem parentesco — mas ambos, cada um à sua maneira, com muito a dizer sobre a tal da natureza. Um, o Jean-Jacques escrever caminhando e filosofando no meio do mato; o outro, Henri, pintou o mato como quem sonha acordado. No fim, os dois nos puxam pelo braço e perguntam: será que a gente ainda sabe olhar o mato e sentir o mundo em sua própria natureza, sem tantas camadas?
Jean-Jacques começou a “adorar” a natureza bem cedo e por ela desenvolveu uma “tara”. Quando ainda era um moleque, gostava de passear pelos campos, com seus colegas, ir pelas campinas, montanhas, lagos e a visitar as casas dos camponeses. Quando fugiu de casa, em Genebra (Suíça), com seus 16 anos de idade e foi morar no sul da França, o que mais gostava era cuidar do jardim, da horta e a fazer poesias sobre os pássaros, as flores, as folhas e os frutos. Depois escreveu música, romances, tratado de educação e outras tantas obras sem deixar de exaltar a natureza. Por fim, bem próximo da morte, escreveu uma obra chamada “Devaneios de um caminhante solitário” na qual relata sua experiência estética no campo e sua fusão com os elementos naturais. Antes disso, em suas “Confissões”, ele já dizia:
O canto das aves, a beleza do dia, a doçura da paisagem, as casas dispersas pelo campo, nas quais em ideia eu punha a nossa habitação comum; tudo isto me comovia de tal maneira e me fazia uma impressão tão viva, suave, triste e enternecedora, que eu me vi como que em eÌ‚xtase transportado a esse feliz tempo e a essa feliz morada onde o meu coração, na posse de toda felicidade que lhe aprouvesse, a gozava em arroubamentos inexprimíveis, sem mesmo pensar na volúpia dos sentidos (Rousseau, Oeuvres Complètes, T. I, 1964, p. 111).
Mais de um século depois, entra em cena outro Rousseau — agora com pincel na mão. Henri Rousseau, francês, começou a pintar paisagens com um estilo todo próprio, meio fora do padrão e, justamente por isso, inovador. A imagem que acompanha este ensaio é sua obra “Passeio na floresta” (La promenade dans la forêt, 1886), em óleo sobre tela, de dimensões modestas (70 x 60,5 cm), mas com personalidade de sobra. Ao olhar essa pintura, muitos tem a seguinte reação: “Ué… é isso?” Tudo parece simples até demais. A figura humana — uma mulher — tem uma rigidez quase de boneca, como se tivesse sido recortada e colada ali no meio da cena. Nada de perspectiva elaborada, nada daquele jogo sofisticado de luz e sombra que a pintura acadêmica adorava ostentar. Só que aí está o ponto: essa “simplicidade” não é defeito — é escolha. Henri Rousseau era autodidata, e em vez de tentar imitar os grandes mestres, criou um universo próprio, onde cada elemento parece meio isolado… e, ao mesmo tempo, estranhamente intenso. É como se tudo estivesse parado — mas te olhando de volta e te envolvendo na paisagem.
A floresta não é apenas cenário; ela domina a tela. As árvores são densas, repetitivas, quase hipnóticas. Há algo de artificial nessa vegetação — como se fosse uma natureza sonhada, organizada mais pela imaginação do que pela observação direta. Isso cria um efeito curioso: a cena é tranquila (um passeio), mas também levemente inquietante, como se houvesse algo escondido naquela regularidade excessiva. É aí que a pintura ganha força: Henri Rousseau não está representando a natureza “real” ou científica (como no século XVII), mas uma natureza mental, quase onírica, como faz também Jean-Jacques Rousseau em seus escritos. Tal como aconteceu nos “Devaneios” de Jean-Jacques, o “Passeio na floresta”, de Henri, parece simples, mas essa simplicidade esconde uma inversão importante: a natureza deixa de ser explicada ou idealizada e passa a ser sentida como mistério, quase como um sonho acordado.
Nesta altura, quase no fim deste ensaio, pode-se perguntar: por que o autor resolveu falar disso, contar esse “causo” e trazer tudo isso para discussão? Por que escolheu falar desses dois Rousseau? Bom, para responder ao leitor curioso, digo que ambos (de forma quase coordenada) chamam a atenção para aquilo que, no meio da correria, das telas e das notificações infinitas em nossos aparelhos celulares e computadores, a gente vai deixando escapar: a natureza. Não como cenário de fundo na tela, ou foto bonita de fim de semana, mas como experiência! Experiêêêêênnncia!!! — algo que nos desloca, nos desacelera e, de vez em quando, até nos devolve a nós mesmos porque permite o desenvolvimento da sensibilidade.
Portanto, meu caro leitor, às vezes é preciso pisar no freio, respirar fundo e buscar a natureza. Falo em três sentidos: o mais básico, que é a aproximação à natureza física: andar pelos bosques, ir à praia, pescar em um lago, dormir em algum sítio ouvindo apenas o som dos grilos e da coruja noturna etc. Por outro lado, a natureza interior: aquela que fala ao coração, e eleva os sentimentos interiores, que não cabe em planilhas nem em notificações, que aparece no silêncio, nas pausas, naquele momento raro em que você percebe o que realmente sente — sem filtro, sem pose, sem plateia. E, por fim, uma terceira dimensão: a natureza como medida, como critério. Aquilo que Jean-Jacques Rousseau nos provocava a lembrar — uma espécie de bússola para perguntar, no meio de tanta pressa e tanto “progresso”: isso que estamos vivendo nos aproxima de nós mesmos… ou nos afasta? Isso nos aproxima do Criador (Rousseau usava o termo “Autor das Coisas) ou nos afasta?
Percebem que a alfinetada de Voltaire revela uma leitura de má vontade, alimentada por sua treta pessoal com o genebrino, o que fez entender (ou fazer de conta) que Jean-Jacques Rousseau desejava o retrocesso. Ora, no fundo, o que estava em jogo não era a ideia de voltar ao passado, e sim questionar o presente: até que ponto o brilho da civilização não nos afastou de algo mais simples e verdadeiro? A crítica ácida de Voltaire mostra justamente o desconforto que até hoje temos diante dessa pergunta — porque, às vezes, o mais difícil não é avançar, mas reconhecer o quanto nos perdemos no caminho.
Natureza é simplicidade, sem maquiagem, sem precisar provar nada a ninguém. É o oposto da vida cheia de camadas artificiais que a gente vai acumulando. No fim das contas, “natureza” — nesse sentido que atravessa tanto Jean-Jacques Rousseau quanto Henri Rousseau — aponta para uma espécie de retorno ao essencial: uma simplicidade que não é pobreza, mas originalidade moral. Em Jean-Jacques, isso aparece como um chamado a recuperar aquilo que em nós ainda não foi deformado pela vaidade, pela comparação e pelas máscaras sociais; uma ética do que é mais direto, mais humano, mais verdadeiro. Em Henri, essa mesma intuição ganha forma nas paisagens aparentemente ingênuas, onde tudo é reduzido ao básico, quase como se o mundo fosse reaprendido do zero. Em ambos, a natureza não é fuga, mas crítica: ela nos lembra que, por trás da sofisticação e do ruído da vida civilizada, existe uma possibilidade de existência mais simples — e, talvez por isso mesmo, mais autêntica.



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