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“Sir” Adam Smith e o egoísmo, a simpatia e a petulância

Foto do escritor: WILSON ALVES DE PAIVA
WILSON ALVES DE PAIVA
23 de set.
8 min de leitura

Mal poderia imaginar que a modernidade tardia nos apresentaria uma galeria inteira de personagens que parecem escapar dessa antropologia moral otimista


Autor: Prof. Dr. Wilson Alves de Paiva


Que Adam Smith (1723-1790) tenha sido um dos mais importantes filósofos do Iluminismo britânico-escocês, muita gente já sabe. Mas o que pouco gente sabe é que ele foi um cavalheiro refinado no meio social de sua época e um grande pensador sobre os costumes morais, procurando discutir sobre vários temas, como o egoísmo e a simpatia. Acontece que seu nome é mais divulgado pela publicação da obra A riqueza das nações, cujo título original era An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations (Uma investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações), publicado em 1776. Esse escrito é considerado um dos textos fundadores da Economia moderna, pois nele, o autor procura explicar muita coisa sobre esse tema, por exemplo, como a riqueza de um país é produzida; o papel do trabalho e da divisão do trabalho; o funcionamento dos mercados; e a relação entre interesse individual e bem coletivo.


Em um de seus outros escritos, a obra Teoria dos Sentimentos Morais, publicada em 1759, Adam Smith desenvolveu interessantes ideias sobre o comportamento civilizado das pessoas, valorizando o autocontrole, a simpatia e o decoro social. Ao longo desse livro, o autor deixa claro que odiava a petulância porque via nela (sobretudo quando manifestada como arrogância, presunção exibicionista) um traço claramente negativo para uma boa vida social, pois não era outra coisa senão a manifestação da vaidade ostentatória — isto é, aquele velho impulso de “se achar o centro do universo”, de viver no modo “hey, people, olhem pra mim!” em tempo integral, como se o mundo fosse uma plateia permanente e cada gesto seu merecesse admiração e aplausos. Em termos mais diretos (e um pouco mais contemporâneos), trata-se do sujeito cujo ego chega antes dele em qualquer lugar, que “se acha demais” e ainda espera reconhecimento por isso. Um tipo que, para Smith, compromete a harmonia das relações justamente por confundir convivência com autopromoção, como ele escreveu em vários trechos de sua obra.


Vamos ver dois exemplos disso. Bem no começo do livro Teoria dos sentimentos morais Smith diz assim: “Por mais egoísta que se suponha o homem, evidentemente há alguns princípios em sua natureza que o fazem interessar-se pela sorte dos outros, e considerar a felicidade deles necessária para si mesmo” (Smith, 2015, p. 5). Isto é, o velho professor acreditava que um sujeito escroto, por pior que seja, tem dentro de si “piedade” ou “compaixão”, uma vez que é impossível não se condoer com a dor dos outros, entristecer-se com a tristeza dos outros e sentir o sofrimento alheio.


Pobrezinho…


Mal poderia imaginar que a modernidade tardia nos apresentaria uma galeria inteira de personagens (uma galera e tanto!) que parecem escapar dessa antropologia moral otimista: sujeitos frios, calculistas, incapazes de empatia — aquilo que hoje chamamos de psicopatas, sociopatas ou simplesmente pessoas com transtorno de personalidade e moralmente devastados. Neles, a tal “simpatia” de que falava Adam Smith parece falhar ou aparecer em grau mínimo, como se o mecanismo afetivo que liga um ser humano ao sofrimento do outro estivesse quebrado. Se, para o iluminismo moral, a sociedade se sustentava porque as pessoas eram capazes de imaginar-se na pele alheia, a experiência contemporânea nos lembra que há indivíduos que passam pela dor do outro com a mesma indiferença com que se atravessa uma sala vazia — e, às vezes, pior: há quem transforme a dor alheia em instrumento, espetáculo ou vantagem. Não se importam nem um pouco, quando a pessoa que sofre não pertence ao seu grupo, tribo ou clubezinho ideológico. Talvez Smith estivesse certo quanto à maioria dos seres humanos; o problema é que a história também produz aqueles que parecem funcionar fora desse circuito moral. E são justamente esses que mais assustam, pois o que parece é que o número desses tem aumentado, e muito!


De quem é a culpa? Alguns dizem que é do individualismo moderno. Ora, culpar o “individualismo” virou um atalho confortável — quase um meme moral para explicar tudo sem explicar nada. Como se bastasse apontar o dedo para o sujeito autocentrado e pronto, caso encerrado! O problema é mais espesso: um ecossistema que transforma a vida em vitrine, a atenção em moeda e o outro em instrumento; plataformas que premiam o excesso e a indiferença bem editada; vínculos cada vez mais frágeis, substituídos por conexões descartáveis. Reduzir isso a uma falha individual é conveniente — e intelectualmente preguiçoso. Não é só o eu inflado; é a engrenagem inteira que fabrica, normaliza e aplaude essa inflação. Da mesma forma, há também quem aponte o capitalismo, como se bastasse trocar o nome do vilão para resolver o enredo. De fato, há algo de estrutural em um mundo que transforma tudo em mercadoria — inclusive a atenção e o reconhecimento. Mas culpar apenas o sistema é repetir, em escala maior, o mesmo gesto simplificador: trocar a complexidade por um único responsável. No fim, talvez o problema não seja escolher entre indivíduo ou sistema, mas entender como ambos se alimentam mutuamente — e como, nesse circuito, a empatia vai sendo silenciosamente desvalorizada.


Eu diria que a culpa é mais do egoísmo que do individualismo. Sabe a diferença? Vamos lá: O individualismo, tão presente no pensamento da Modernidade e nas ideias liberais, basicamente afirma que o indivíduo tem autonomia, liberdade e dignidade próprias, e não deve ser esmagado pelo grupo, pela tradição ou pelo Estado. Mas isso não é a mesma coisa que egoísmo, embora muita gente misture os dois. Uma pessoa pode muito bem defender sua liberdade e ainda assim respeitar os outros e reconhecer que existe um bem comum; o egoísta, não — ele simplesmente coloca seus interesses acima de tudo. No fundo, a diferença é simples: o egoísmo é um jeito de agir, centrado só em si mesmo, enquanto o individualismo é uma maneira de pensar a sociedade, onde o indivíduo tem valor e espaço para existir.


Se vivesse hoje em dia, o velho Smith diria com voz pastosa e calma, como a de um guru: “Vivemos uma época de egoísmo exacerbado”. E não estaria errado, pois basta olhar ao redor para perceber como, em muitos casos, o interesse pessoal se tornou a medida de todas as coisas. Mas, claro, sempre com uma frase bonita na legenda — porque até o egoísmo agora vem com filtro de “virtude”.


Talvez aqui até o filósofo Jean-Jacques Rousseau entrasse na conversa para lembrar da diferença entre o amor de si e o amor-próprio: este último é aquele tipo de amor que nasce na vida social e que, inflado pela comparação, pela vaidade, pela petulância e pela busca incessante de reconhecimento, acaba incendiando as paixões e empurrando o indivíduo a colocar seus próprios interesses acima do bem-estar dos outros, prejudicando quem entra em seu caminho. Quando esse amor-próprio domina a cena, a simpatia moral de que falava Smith — aquela capacidade de se afetar pela sorte alheia — vai ficando cada vez mais fraca, quase inaudível no barulho das ambições pessoais.


Vamos ao segundo exemplo de Smith, o qual traz de forma brilhante tanto a petulância e a insensibilidade que existiam em sua época (quem dera fosse só em sua época), como também o seu modo lord de ser e de responder batendo na cara do sujeito insensível e petulante com uma fina luva de pelica. “Sir” Smith diz assim em sua obra:

Apesar de tuas opiniões em questões especulativas, apesar de teus sentimentos em questões de gosto serem bastante contrários aos meus, posso facilmente ignorar essa oposição; e, se tenho alguma temperança, posso até mesmo apreciar a sua conversa, ainda que sobre esses mesmos temas. Mas se não tens nenhuma solidariedade para com o meu infortúnio, ou nenhuma que seja proporcional à dor que me assola; ou se não sentes nenhuma indignação pelas ofensas que sofri, ou nada que seja proporcional com o ressentimento que me arrebata, já não poderemos conversar sobre esses temas (Smith, 2011, p. 21).

Precisa de tradução? Se sim, vamos lá: ele quis dizer mais ou menos assim: “Cara, apesar de você ter umas ideias nada a ver com as minhas, e um gosto bem diferente, a gente troca ideia de boa, até sobre essas diferenças. Mas agora… se apresento uma visão diferente, se eu tô mal e você simplesmente não tá nem aí, ou reage tipo “tanto faz” para minhas ideias e sentimentos, reagindo como se minha posição fosse meme ruim… aí complica. Assim, meu caro, sinceramente, não dá para conversar”.


Algum leitor mais aprofundado do filósofo escocês, um especialista, poderia me interpelar e dizer: mas ele está falando da simpatia. Exato! E o que é simpatia para ele? Não é um sentimento ou atitude de mera gentileza ou cordialidade, como é o sentido mais usado hoje em dia, mas um mecanismo fundamental da vida moral. Isto é, a capacidade de nos colocarmos imaginativamente no lugar do outro e, assim, compartilhar (ainda que de forma indireta) seus sentimentos. Ele está falando de uma “simpatia”, ou “empatia” social, que melhora nossas ações morais, nosso convívio e nossa civilidade. Para ver que falhamos nesse quesito, basta “surfar” pela Internet para o nível da “conversação” que se estabelece entre as pessoas que pensam diferente.


O filósofo alemão Jürgen Habermas, que faleceu há poucos dias, deve ter partido desgostoso por ver que sua teoria sobre a razão comunicativa não conseguiu nenhum efeito, pois nossa sociedade vive hoje, na verdade, uma desrazão comunicativa, ou uma comunicação totalmente antipática, petulante: não se consegue estabelecer uma conversa racional e nem a compreensão mútua que tanto ele quanto Smith desejavam. Paira no ar da comunicação: fakenews, recusa e distorção de fatos, militância política, ideologias sem-noção e discurso de ódio.


Outro que pisou na casca da banana foi Jeremy Rifkin, o autor do livro The Empathic Civlization (A civilização empática), publicado em 2009, no qual defende que nossa espécie é de um Homo Empathicus, e que, assim, caminhamos para uma civilização empática. Nesse “caminhar”, no entanto, o autor assevera, criam-se problemas e precisamos enfrentar esses problemas para manter e até expandir essa capacidade praticamente natural do ser humano. A saída que ele apresenta é bem parecida à de Smith: menos ego, mais conexão; menos exploração, mais cooperação; menos “cada um por si”, mais “todo mundo junto”.


Coitadinho...


Se eu fosse escrever uma carta a esses três distintos senhores, cujo esforço lhes valeria a honraria de “sir” (Não escrevo a Rousseau porque ele não iria gostar desse “sir), diria:

“Sir” Smith, “Sir” Habermas e “Sir” Rifkin, saudações post mortem!
Permita que me dirija a Vossas Senhorias com o mais profundo respeito e sincera contrição. Cumpre-me reconhecer, sem subterfúgios, que não logramos corresponder às elevadas expectativas que depositastes em nossa sociedade. Aquilo que poderia ter sido expressão de prudência, ordem e elevação de espírito, não raro se revelou aquém do ideal que nos foi proposto.Bem sabemos que Vossas Senhorias, movidas de reta intenção e elevado desvelo pelo bem comum, conceberam para esta sociedade um horizonte digno e ordenado. Cumpre-nos, porém, confessar, com pesar não dissimulado, que desbaratamos tal empresa: aquilo que deveria florescer em concórdia degenerou em desarranjo, e o que prometia êxito se converteu em contínuo desacerto.Faltou-nos a justa medida da consideração pelo outro — essa disposição que inclina os ânimos à mútua compreensão — e, não menos grave, carecemos da arte do bem dizer e do ouvir atento, sem a qual toda convivência se dissolve em ruído e dissensão. Assim, privados de simpatia e de verdadeira conversação, vemo-nos a enveredar por sendas cada vez mais sombrias, como se, tendo perdido o norte, avançássemos, não para o melhor, mas para o agravamento de nossos próprios males.Tal é, com franqueza e humildade, o estado em que nos encontramos.Com a mais alta consideração,
Eu.

 
 
 

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